2.4 Confinement ´ electromagn´ etique extrˆ eme
2.4.1 Un mod` ele ´ electromagn´ etique rigoureux pour la manipulation de l’´ eclairage
Observando esse processo, Ianni (2010, p. 57) indica que essa multidimensão da globalização do capitalismo formou, por assim dizer, uma “fábrica global”, onde a intensificação do processo de dispersão geográfica da produção, ou das forças produtivas, que remodela o capital, a tecnologia e a divisão do trabalho social, torna-se um elemento central. Associado a isto, a fábrica global produz uma nova divisão internacional do trabalho e um redimensionamento da produção, o que envolve, pontua Ianni (2010), a flexibilização, a terceirização, o fordismo e o toyotismo como forma de concretizar a globalização do capitalismo, em termos geográficos e históricos.
Nessa perspectiva, não há fronteiras para a fábrica global, pois ela provoca o redimensionamento do espaço e do tempo e impõe-se como força avassaladora visando à reprodução ampliada do capital. É o que indica Ianni (2010, p. 18) ao afirmar que a fábrica global
[...] sugere uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo além de todas as fronteiras, subsumindo formal ou realmente todas as outras formas de organização social e técnica do trabalho, da produção e reprodução ampliada do capital. Toda economia nacional, seja qual for, torna-se província da economia global. O modo capitalista de produção entra em uma época propriamente global, e não apenas internacional ou multinacional. Assim, o mercado, as forças produtivas, a nova divisão internacional do trabalho, a reprodução ampliada do capital desenvolvem-se em escala mundial. Uma globalização que, progressiva e contraditoriamente, subsume real ou formalmente outras diversas formas de organização das forças produtivas, envolvendo a produção material e espiritual.
Nessa fábrica global, pode-se dizer que a “gerência da fábrica”, ou o seu centro, localiza-se nos espaços privilegiados, que são os países desenvolvidos. Neles, estabelecem-se os “nós” financeiros e de planejamento das empresas. No “chão da fábrica” global – os países da periferia do capital – localiza-se o “grosso” da produção e a montagem dos bens.
Analisando essa dinâmica, Seráfico (2011, p. 60) delineia que é essa inter- -relação social entre países, regiões, empresas e instituições e o Estado que vai projetar um capitalismo de configuração global:
A configuração global do capitalismo é o resultado direto da integração das economias nacionais, desencadeada pela organização do processo produtivo de algumas empresas em escala transnacional. A influenciar
esse processo está, de um lado, a necessidade de superar obstáculos políticos e econômicos à acumulação de capital nos países desenvolvidos e, de outro, a criação de mecanismos jurídico-políticos que ampliem a possibilidade de circulação do capital em escala global. Mas o autor também acrescenta que, associado a isto, há a necessidade de formulação de condições políticas e econômicas com base nacional que ofereçam às empresas desterritorializadas grande chance de lucros nos lugares onde haverá a reterritorialização do capital. Concretamente, isso significa engajamento local, acordos regionais e articulações nacionais, como indica Seráfico (2011, p. 68):
Para que as indústrias estrangeiras tenham acesso a novos mercados de força de trabalho e de consumo, são necessários, porém, a anuência e engajamento de governos e classes sociais nacionais, de modo a que estes promovam os ajustes dos estatutos legais que, eventualmente, bloqueiem as possibilidades de integração. Em outras palavras, a efetivação das estratégias das grandes corporações depende do engajamento de governos, empresários e trabalhadores situados no espaço nacional, pois é através deles que se torna possível a criação, manutenção ou ampliação das condições jurídico-políticas necessárias à formação das networks e clusters globais.
Sem isso, o capital se desloca para outras praças, direciona-se para outros lugares do global. Por isso, elites locais esforçam-se para atrair e fixar a empresa transnacional. Criam as condições necessárias para a transformação do lugar, como diria Giddens (1991). Ademais, veem na transnacionalização do local uma forma de reproduzir e mesmo expandir sua condição política e seu posicionamento econômico.
É em função desses acordos entre elites transnacionais, regionais e locais, envolvendo uma diversidade de atores sociais, que são forjados espaços propícios ao enraizamento local das empresas globais. Esses espaços podem ser visualizados, historicamente, na construção de zonas econômicas em países não desenvolvidos que criam em seu território uma região, até certo ponto, supranacional, voltada para ser palco da instalação de filiais das grandes corporações. Para isso, os países “hospedeiros” abrem sua economia e sua base produtiva e relaxam leis e diretrizes para que as empresas possam fabricar determinados bens, utilizando mão de obra farta e barata (SILVA, Marilene, 2013).
Amostra desse processo, como destaca Valle (2007, p. 106), é que em meados do século XX não havia praticamente nenhuma indústria de transformação nos países de “Terceiro Mundo”. No entanto, já em 1975, havia cerca de 70 zonas francas industriais
em 25 países (11 asiáticos, 5 africanos e 9 latino-americanos), bem como outras 39 encontravam-se em processo de implantação em 21 países de “Terceiro Mundo”.
Em 1980, já se totalizavam 270 zonas francas operando em 66 países. Em 2006, esse número já havia avançado para mais de 3.500 zonas francas disseminadas em 130 países do mundo, empregando diretamente cerca de 40 milhões de trabalhadores (FAROLE; AKINCI, 2011).
Visto em perspectiva ampla, a criação de zonas francas é um desdobramento do processo de globalização do capitalismo, sendo-lhe uma espécie de “ajuste espacial” que, a partir da década de 1960, coloca a periferia do capital no centro das atenções de empresas e organismos transnacionais, construindo “áreas especiais” para o aumento da rentabilidade das empresas.
Vale destacar que esse ajuste espacial se estruturou dentro dos organismos internacionais, que costuraram as diretrizes técnicas, organizativas, espaciais e legislativas da produção, orientando “ideologicamente”, por assim dizer, quais os caminhos que as empresas deveriam seguir. Sobre este aspecto, assim pontua Ianni (2011, p. 42):
No âmbito da sociedade global, há organizações públicas e privadas que estão não só produzindo e atuando como também tomando decisões e influenciando [...]. São organizações econômicas, políticas, culturais e sociais que exercem missões “civilizatórias” nos países menos desenvolvidos, atrasados, periféricos, do Terceiro Mundo [...]. Em diferentes níveis e arranjos, as organizações multinacionais ou multilaterais desenvolvem seus próprios desenhos do que podem ou devem ser as nações e os continentes. Elaboram parâmetros rigorosos, técnicos, pragmáticos, fundados nos princípios do mercado, da livre iniciativa, da liberdade econômica etc. Princípios que são sugeridos e impostos aos governos que pretendem ou precisam beneficiar-se de sua assistência, ajuda, direção.
Um documento da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) é esclarecedor a este respeito, pois estabelece um “modelo mundial” no sentido técnico, organizativo, espacial e legislativo para o funcionamento das zonas francas. O documento recomenda, por um lado, que os empreendimentos com dificuldades de operação nos países desenvolvidos deveriam deslocar sua produção para essas “áreas especiais”, pois isto iria representar vantagens econômicas às empresas, tais como:
1) diminuição dos custos de transporte das matérias-primas; 2) redução dos custos de transporte dos produtos acabados; 3) redução dos custos salariais; 4) disponibilidade de uma abundante força de trabalho qualificada; 5) diminuição dos custos de investimento inicial e, em consequência, do percentual do capital imobilizado, devido aos estímulos fiscais e materiais e aos serviços gerais e outras regulamentações vantajosas da zona (UNIDO apud FREITAS PINTO, 1987, p. 26).
Por outro lado, o documento estabelece quais deveriam ser os estímulos comerciais e econômicos e instalações técnicas, ou seja, os atrativos que as zonas francas tinham de oferecer aos empreendimentos industriais, quais sejam:
1) Isenção total das taxas de impostos por período determinado de tempo, tanto para maquinaria como para matéria-prima e instalações produtivas; 2) Isenção de impostos sobre sociedade por um período de dez anos; 3) Isenção ou redução de impostos diretos e indiretos; 4) Liberdade de câmbio exterior e livre repatriação de benefícios; 5) Facilidades financeiras para a obtenção de crédito; 6) Tarifas especiais para os serviços de transporte entre a zona franca e o aeroporto, bem como para aluguel de terrenos e edifícios; 7) Possibilidade de compra ou aluguel de fábricas já edificadas; 8) Presença de instalações médicas e sanitárias, serviços de correios e telégrafos, e instalações esportivas (UNIDO apud FREITAS PINTO, 1987, p. 26-27).
Além disso, a UNIDO recomendava que as zonas francas deveriam possuir um órgão autônomo, vinculado ao Governo central, para cuidar de sua administração e que criasse facilidades removendo as barreiras burocráticas em benefício das empresas instaladas nas zonas francas20 (VALLE, 2007).
No caso das zonas francas implantadas na maior parte da América Latina e da Ásia, sobretudo na China, elas passaram a produzir em seus distritos industriais bens destinados ao mercado externo. No Brasil, a zona franca instalada em Manaus caracterizou-se pela produção de bens manufaturados (videocassete, televisores e toca- -discos) voltados para o próprio mercado interno, mas que, como Freitas Pinto (1987, p. 22) destaca, se configura enquanto parte de um mercado mundial regionalizado.
Silva (MARILENE, 2013), observando essa “produção de zonas francas” pelo mundo, levanta uma questão sociológica fundamental para a compreensão, na Amazônia, desse processo de globalização do capitalismo e da fábrica global, qual seja: por que o
20 Diante destes elementos expostos, chama a atenção o processo de uniformização estabelecido para a
implantação das zonas francas, o que pode ser entendido como forma de racionalização econômica ou uma imposição de uma necessidade orgânica da economia capitalista, que delimitam como essas praças industriais devem ser construídas e operadas, tornando-as dependente das diretrizes dos países industrializados.
governo brasileiro implantaria uma zona franca em Manaus, haja vista que na Amazônia a infraestrutura era mínima e apenas a parte oriental estava integrada ao restante do território brasileiro? E mais: por que as empresas estrangeiras se deslocariam em direção à selva se existiam zonas com condições mais favoráveis à instalação de projetos industriais?
Quem dá pistas de como responder a essas “provocações da globalização” são Portes (1997), Sassen (2010) e Knowles (2014). Para estes autores, os processos da globalização ocorrem dentro de localizações que configuram uma globalização multiescalar. São nessas localizações que os processos se enraízam, de sorte que, mapeando a lógica de funcionamento desse enraizamento pode-se compreender quais são os interesses sociais que operam e localizam o global.
Essa abordagem é interessante por levar em conta não apenas o macro aspecto da globalização do capitalismo, mas também as relações que acontecem nas “redes transfronteiriças” como conceitua Sassen (2010), na “globalização por baixo” (globalization from below), como aponta Portes (1997), ou nas “microcenas locais”, na conceitualização de Knowles (2014).
Estes autores privilegiam, nestes termos, uma abordagem que considere as negociações entre o global e o local, que faça uma reconceitualização crítica das hierarquias escalares que vão do local ao regional, ao nacional e ao internacional, e que explicam como se globalizam os lugares e como se localizam as globalizações. Isso porque, conforme indica Sassen (2010), a dinâmica da globalização envolve processos
que não ocorrem necessariamente no nível global, mas que, creio eu, fazem parte da globalização. Esses processos ocorrem dentro de territórios de domínios institucionais que foram construídos em termos basicamente nacionais em grande parte do mundo, mas não em todo ele. Embora localizados em cenários nacionais – de fato subnacionais – esses processos fazem parte da globalização, pois envolvem redes e entidades transfronteiriças que conectam diversos processos e atores locais ou “nacionais”, ou recorrência de questões ou dinâmicas específicas em um número cada vez maior de países ou localidades (SASSEN, 2010, p. 11).
Nesta perspectiva, sem perder de vista a grande narrativa da globalização, mas olhando como essas teias de relações sociais são tecidas nas localidades, é que se pode compreender como espacialidades, como a Zona Franca de Manaus, se tornam economicamente atrativas e socialmente acordadas e defendidas, a despeito de suas “impossibilidades”, relatividades e contradições.