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3.4 Validation numérique des modèles limite

3.4.2 Modélisation d'une extraction d'armatures

A produção noticiosa, resultado dos processos que constituem a prática jornalística, pressupõe o entendimento sobre o jornalismo enquanto atividade social cotidiana, responsável por registrar os fatos de maneira que seja legítima, reconhecida. Os jornalistas “narram” o cotidiano e a eles lhes é conferida a legitimidade para tal feito (TRAQUINA, 2008; SODRÉ, 2009).

Segundo Nelson Traquina (2008), o processo de legitimação do jornalismo compreende a própria consolidação dos jornalistas enquanto atores sociais ou, segundo a denominação defendida pelo autor, uma “comunidade interpretativa”. Ou seja, a “cultura profissional” acaba por definir os delineamentos da atividade e a sua forma de inserção na sociedade. Nesse sentido, destaca-se que a comunidade dos jornalistas se define por alguns fatores específicos, dentro os quais o autor ressalta o imperativo do imediatismo (o fator tempo) e os processos de seleção que levam à construção da notícia propriamente dita (os acontecimentos relevantes, as novidades).

A cultura jornalística é, pois, determinante para a conformação da estrutura da notícia, tendo em vista que é a partir do entendimento que se tem sobre o exercício do jornalismo no interior da sociedade que se estabelecem os sentidos para a apreensão dos fatos e a sua apresentação textual em forma da notícia. Traquina (2008) desenvolve essa afirmação no primeiro capítulo de sua obra, chamando atenção para os mitos criados em torno da figura do jornalista, que se aproxima de conhecidos arquétipos conhecidos: o herói, o detetive, o caçador – por possuir de um “dom” especial também chamado de “faro” para notícia, o aventureiro, o guardião, o justiceiro, o mártir, entre outros modelos mitológicos que contribuem para uma ideia quase imaculada da função do jornalista.

Em outra perspectiva, que igualmente compõe a cultura jornalística, os profissionais do jornalismo também são vistos como “cães”: ora os ‘cães de guarda’ (watchdogs) da democracia (TRAQUINA, 2005), mas também como os ‘cães perdidos’, reféns de um contexto de precarização da atividade jornalística, em meio a um contexto de incertezas frente ao avanço da tecnologia (MARCONDES FILHO, 2009).

Tais ideias e mitos construídos em torno da atividade jornalística remetem a sua gênese, estreitamente relacionada com os valores liberais e burgueses, e sintetizada pela imprensa norte-americana, conforme destacam diversos autores (SODRÉ, 2009; GENRO FILHO, 1987, MEDINA, 2008-II). Assim, ancorado nos valores de objetividade, clareza e

imparcialidade, marcos do positivismo na atividade jornalística (MEDINA, 2008-II), os jornais reivindicaram um papel de defensores neutros da democracia nas sociedades.

No entanto, conforme as teorias que encaram o jornalismo como mais uma atividade que contribui para a construção social da realidade vivida, sabe-se que a compreensão em torno do significado da atividade jornalística é mais complexa, estabelecendo relações que ultrapassam a simples apreensão técnica dos fenômenos cotidianos e a difusão de notícias.

Sodré (2010-II) ressalta que, atualmente, o jornalismo tampouco pode ser estudado e interpretado separadamente do fenômeno denominado midiatização, ou seja, do que o próprio Sodré (2010) identificou como sendo o bios midiático, por caracterizar um novo âmbito para a socialização e existência humana, a partir do imperativo da tecnologia nas relações socioculturais contemporâneas, que passam a ser virtualizadas pelo que ele denomina como “medium”, que

Trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo de comunicação é técnica e industrialmente redefinido pela informação, isto é, por um regime posto quase que exclusivamente a serviço da lei estrutural do valor, o capital, e que constitui propriamente uma nova tecnologia societal (e não uma neutra “tecnologia da inteligência”) empenhada num outro tipo de hegemonia eticopolítica (SODRÉ, 2010, p. 22, grifos no original).

Esse novo bios e o estatuto comunicacional que passa a representar se caracterizam como o contexto em que se insere a “construção social da realidade” promovida pelo jornalismo.

Nesse sentido, a singularidade que, segundo Genro Filho (1987), constituiria o ponto central da produção jornalística – essencialmente simbólica e naturalmente efêmera, tende a se reconfigurar no contexto de novas sensibilidades, novas relações temporais, enfim, novas formas de sociabilidades contemporâneas. Segundo o autor, o jornalismo produz significados a partir de dois eixos centrais: “1) as relações objetivas do evento, o grau de amplitude e radicalidade do acontecimento em relação a uma totalidade social considerada; 2) as relações e significações que são constituídas no ato de sua produção e comunicação” (GENRO FILHO, 1987, s/p, grifos no original). Desse modo, o jornalismo se caracterizaria como prática responsável pela seleção dinâmica e cotidiana das singularidades dos fatos nos contextos desses dois eixos e das relações societárias que pressupõe.

Ora, levando-se em conta tal definição da prática jornalística, no contexto de desenvolvimento das técnicas de mediação das sociabilidades – e seu impacto social, a síntese de singularidades factuais assume outros sentidos na sociedade. Todo o processo de construção das notícias jornalísticas – apreensão, seleção de fontes, edição do texto – é

entendido também a partir de fatos e circunstâncias que extrapolam o acontecimento propriamente dito. Gadini (2007) sintetiza como seria o processo construtivo do jornalismo na contemporaneidade:

Ao estabelecer uma (inter) conexão com o mundo, o produto jornalístico presentifica a simultaneidade de uma enorme variedade de fenômenos, desenhando um mapa do universo social onde são recortados os acontecimentos noticiados pela mídia. Esse ato de produção social imaginária (e, pois, histórica) capacita o indivíduo a projetar novas relações e compreensões, possibilitando – pelo olhar singular do acontecimento pautado e discursivamente estruturado – outras noções da realidade, materializadas em uma forma de produção singular do conhecimento humano. (GADINI, 2007, p.87)

Por isso, a essência do fato jornalístico não mais poderia ser traduzida como “ singular”, conforme explica Sodré (2009)

Não se trata, portanto, de um mero singular (...) e sim de uma “singularização” (uma vez que notícia de jornal não é “reflexo” automático de uma realidade singular), ou seja, a construção de um singular pela interpretação de um grupo profissional (...). Não raro, a determinação de um fato se deve a avaliações de natureza extrafactual (do tipo de análises jurídicas, políticas ou tecnológicas da situação em causa) e não a um “singular” supostamente inscrito no real-histórico. (SODRÉ, 2009, p.59)

O autor ressalta ainda que tal singularização se dá em função da “atualidade”, preocupação que se relaciona diretamente com as mudanças nas definições e percepções de temporalidades típicas da Modernidade. Segundo Sodré (2009, p. 63), o jornalismo se consolida profissional e socialmente como prática por excelência de conhecimento do “atual” – e sua relação no tempo e no espaço (uma abordagem histórico-contextual), por meio de sua capacidade e desenvolvimento de suas formas narrativas.

Nessa linha de raciocínio, o autor sugere que a compreensão do acontecimento se dá “para além do registro simbólico, no registro afetivo do mundo” (SODRÉ, 2009, p.68, grifos no original), fazendo com que a conformação de uma realidade apreensível se dê no âmbito das sensibilidades dos indivíduos, e consequentemente as relações estabelecidas a partir daí. “Assim, em vez da mera transmissão de um conteúdo factual, se trata da conformação socialmente estética de uma atitude” (SODRÉ, 2009, p.68, grifos no original).

A colonização da vida cotidiana por parte das instâncias tecnológicas de mediação, nas quais a informação assume papel central, também inclui as percepções sensíveis da vida, que também passam pelo filtro da chamada midiatização. Desse modo, também a produção jornalística se vê compelida a refletir sobre essas novas configurações do acontecimento e do

sentido da atualidade. As narrativas dos fatos – a construção noticiosa – não passa isenta das influências do imperativo midiático.

Em estudo sobre o efeito da midiatização nos processos de produção jornalística, Fausto Neto (2010) identifica a autorreferencialidade como a principal característica resultante de tal processo. Segundo ele, a autorreferência é a principal estratégia contemporânea de busca por autonomia do jornalismo no contexto midiático, chamando atenção para a própria prática de construção de sentidos, identificada pelo autor como “realidade da construção”, numa referência a Luhmann37.

Tal aspecto remonta aos mitos e crenças em torno da cultura jornalística, tendo em vista o papel de protagonistas assumido pelos profissionais da área nesse contexto autorreferencial. Os jornalistas são, em última instância, a face dos processos de produção que compõem o jornalismo enquanto atividade. É na prática dos profissionais que se processam as narrativas jornalísticas sobre o cotidiano.

E cada vez mais o jornalismo se consagra como um lugar de expressão das tensões em torno da estrutura social que compõe o dia a dia.

A prática da complexidade nesse jogo de forças conflituosas – que sempre representam interesses e poder – se realiza na complementaridade da política, diplomacia, intervenção jurídica e comunicacional. Daí que os comunicadores, produtores das narrativas da contemporaneidade, são parceiros e não coadjuvantes na dialogia dos diferentes, dos opositores, dos que carecem de voz perante as vozes oficiais. (MEDINA, 2008-I, p.85)

Cremilda Medina (2008-I) destaca esse papel significativo dos comunicadores – em especial os jornalistas – para a compreensão das complexas relações que sustentam e configuram a estrutura societária, sobretudo no contexto democrático. No entanto, é em tom de crítica que localiza esse papel, ao discorrer sobre a defasagem entre as narrativas contemporâneas e a própria configuração do desenvolvimento social das relações humanas. Essa defasagem, que a autora denomina “deficit de abrangência”, é apontada como uma deficiência da prática jornalística contemporânea – superada apenas por alguns destacados exemplos de produções autorais. Tal deficiência torna o jornalismo incapaz de apresentar narrativas que se aproximem do amplo espectro de variáveis que compõem o cotidiano, em suas diversas relações.

Em outra obra, Medina (2008-II) ajuda compreender que, esse déficit identificado na prática do jornalismo na atualidade, se relaciona estreitamente com a gênese da atividade

37 LUHMANN, Niklas. La realidad de los medios de masas. Rubi/Cidade do México: Anthropos Editorial/ Universidade Iberoamericana, 2000.

jornalística, que sempre foi alinhada às teorias positivistas, além de refletir os valores liberais da burguesia. Assim sendo, ainda hoje é comum a defesa de valores como a verdade, a objetividade e a imparcialidade como sendo pilares do jornalismo. Segundo a autora,

Os profissionais atravessaram o século XX e ingressaram no novo século vendendo essa platitude para a sociedade. Mesmo os mais sofisticados, que professam o jornalismo investigativo, pavimentam as técnicas de trabalho com o duro cimento da busca objetiva da verdade. Nem sequer consideram as sombras, as rugosidades e a ambigüidade tanto no acontecimento social quanto na experiência dos protagonistas no cotidiano. (MEDINA, 2008-II, p.61)

A pergunta que se faz é em que medida esses valores já descartáveis para o jornalismo – porque não condizentes com a estrutura societária em que se insere – ainda permanecem “cimentando” o caminho para o exercício do jornalismo na contemporaneidade.

Neste estudo, pretende-se apontar como o objeto desta pesquisa, a revista Ocas, se insere no contexto do jornalismo contemporâneo, identificando por meio de seu conteúdo as características que o definem. Para isso, destaca-se a seguir algumas peculiaridades no processo de produção da revista.