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Medial axis, skeleton, boundary and pencils

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Finite union of balls

2.5 Medial axis, skeleton, boundary and pencils

A arqueologia funerária pode ser definida como “a arqueologia das estruturas onde se encontram restos de funerais, geralmente incluindo re- manescentes corporais humanos, ou seja, lugares de deposição dos mor- tos” (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 128). Esta arqueologia derivada de lugares de deposição de mortos é entendida e uti- lizada por pesquisadores “como fonte inestimável para compreender a vida no passado” (Klokler e Gaspar, 2013, p.111).

Lado a lado com a arqueologia funerária encontra-se a bioarqueo- logia, que estuda os remanescentes de corpos humanos evidenciados em sítios arqueológicos em uma perspectiva abrangente, e tem como objetivo reconstruir, a partir dos ossos, aspectos biológicos, culturais e sociais da vida, não apenas do indivíduo, como também do grupo pretérito.

A bioarqueologia, assim como a arqueologia funerária, teve um processo lento de desenvolvimento no Brasil, já que desde o século XIX, o estudo especializado dos remanescentes humanos arqueológicos era rea- lizado por um grupo muito pequeno de profissionais, estando sua atuação mais restrita aos laboratórios. O número reduzido de profissionais, a falta de formação especializada e o relativo isolamento científico dos estudio- sos da área também prejudicou, de certa maneira, o andamento de seu de- senvolvimento no Brasil (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 128).

A partir do desenvolvimento da bioarqueologia e a incorporação de novas tecnologias na área, pode-se abrir caminhos para novas perspecti- vas no conhecimento dos povos pretéritos. A busca por interpretações de características bioquímicas, fisiológicas e fisiopatológicas obtidas nos den- tes e nos ossos ampliou as possibilidades de estudo da bioarqueologia, lhe permitindo investigar “a dieta, as atividades laborais, as doenças, as con- dições de estresse, a origem geográfica e tantos outros aspectos importan- tes para a interpretação arqueológica” (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodri- gues-Carvalho, 2013, p. 129).

Nesse sentido, o achado de uma estrutura funerária em contextos arqueológicos significa a possibilidade de “obter, ao mesmo tempo, infor- mações biológicas sobre grupos do passado, e importantes informações culturais referentes às práticas rituais, ao processo construtivo do sítio, ao ambiente” (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 129), ou seja, dados fundamentais para a interpretação da formação do registro arqueológico. A complexidade das estruturas funerárias em sítios arqueo- lógicos, por conjugarem processos biológicos, químicos, físicos e culturais

torna sua abordagem especialmente difícil, sendo necessária a utilização de métodos específicos para um estudo satisfatório.

No entanto, para realizar estudos satisfatórios que possam abran- ger todas essas possibilidades de análise a que as estruturas funerárias são passíveis, torna-se imprescindível que a metodologia de obtenção de mate- riais/vestígios em campo seja cuidadosa e planejada para que se possa re- cuperar as evidências adequadamente. Apesar da aparente rigidez dos mi- nerais, dentes e ossos possuem também sua fragilidade e essa característi- ca necessita que o trabalho de campo seja bem elaborado e adequado a ela. Nesse mesmo movimento, as informações referentes aos aspectos culturais relacionados à morte “só podem ser produzidas de maneira con- fiável a partir de intervenções de campo que chegam a grande detalhamen- to” (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 129). Isso torna essencial a abordagem dos lugares de deposição dos mortos para a construção da inferência arqueológica em sítios com estruturas funerárias.

A arqueologia funerária possui uma abrangência contextual maior – se comparada à bioarqueologia –, já que procura relacionar o local de de- posição dos mortos aos outros espaços do sítio arqueológico estudado. Ela está voltada

para formas de deposição e perpetuação das evidên- cias, transformação ou tafonomia da estrutura origi- nal, evidências de gestos e processos relacionados ao funeral. Através da tafonomia do cadáver tenta reconstruir, retrospectivamente, o que ocorreu a par- tir do momento em que se deu a deposição do mor- to, seja no lugar onde são achados os despojos, seja em outros lugares diretamente relacionados do sítio (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 128).

Contextos funerários são fenômenos privilegiados de análise para os arqueólogos, sendo realmente importantes, pois fornecem a eles “a oportunidade de compreender visões sobre a vida e morte em sociedades passadas” (Klokler e Gaspar, 2013, p.125). Para os arqueólogos, o aspec- to mais relevante de um lugar de deposição de mortos está vinculado a seu potencial para revelar gestos e práticas culturais.

Entretanto, a exploração desse potencial e a quantidade de infor- mação que efetivamente será produzida a partir das análises das estrutu- ras funerárias depende da evidenciação e interpretação adequada dos re- manescentes arqueológicos evidenciados. O que significa identificar, além das evidências de cultura material, os restos humanos macroscópicos e os

indícios de modificação (antrópica ou natural) no local, “seja este de depo- sição primária, secundária, ou de re-deposição por transporte ou perturba- ção do sítio”. Voltar-se para esse tipo de análise das estruturas funerárias significa, ainda, “analisar nexos espaciais entre todos os materiais encon- trados, interpretar os processos tafonômicos37 locais (cadavéricos ou não),

e analisar a inserção do pacote, ou camada funerária, no contexto estrati- gráfico” (Souza, Wesolowski, Lessa, Rodrigues-Carvalho, 2013, p. 131) do sítio arqueológico em questão.

O estudo dos contextos funerários proporciona, via certos métodos (que, consequentemente, produzem certos resultados), o acesso ou a infe- rência a informações variadas acerca do modo de vida e da organização social dos grupos estudados. Como já mencionado acima, a partir do estu- do de estruturas funerárias, pode-se obter dados sobre o sexo e a idade dos indivíduos, a origem geográfica, a dieta, assim como aspectos relacionados à saúde, a possíveis diferenças de status, à afiliação social, e, ainda, a con- dições físicas dos indivíduos.

Para as arqueólogas Daniela Klokler e Maria Dulce Gaspar, um dos desafios para os pesquisadores que estudam contextos funerários é enten- der os “processos culturais e naturais que afetam os sítios arqueológicos para desta maneira resgatar informações sobre o programa funerário do grupo em estudo” (2013, p.111, grifo das autoras), já que os arqueólogos não escavam funerais, mas os depósitos que resultam de suas práticas.

De acordo com Klokler e Gaspar a “análise da cadeia de atividades e processos pós-deposicionais associados ao estudo de contextos funerá- rios fornece informações fundamentais sobre a organização social de po- pulações humanas” (2013, p.111).

Além de possibilitar o conhecimento da vida passada dos povos es- tudados, os contextos funerários permitem o estudo de suas atitudes em re- lação à morte. Não servindo apenas como fontes de dados sobre a vida no passado, os contextos funerários podem ser utilizados para entender com-

37 Os processos tafonômicos que produzem modificações nas deposições funerárias podem ser de naturezas diversas. Sergio F. Silva distinguiu três grandes classes e variáveis de processos tafonômicos relacionados ao estudo arqueológico dos remanescentes humanos: a) fatores ambientais, variáveis externas, bióticos (organismos vivos) e abióticos (elementos do sistema climático, pedológico, sem a presença de organismos vivos), como a temperatura, umidade (UR%), luz solar, pH do solo; b) fatores individuais, internos, como a idade à morte e as dimensões corporais; e c) fatores culturais, caracterizadas pelas atividades humanas de caráter mortuário, que incluem todo e qualquer traço deixado no corpo pela manipulação intencional do mesmo” (Silva, 2014, pp. 14-15).

portamentos e visões sobre a morte (Klokler e Gaspar, 2013, p.111). Segundo Klokler e Gaspar, as atividades desenvolvidas após a mor- te de um indivíduo envolveriam, ao menos, duas sessões de atividades. As atividades iniciais (ou imediatas) dizem respeito a comportamentos logo após a morte do indivíduo em um curto espaço de tempo. Elas “abrangem o processamento do corpo (lavar, adornar, embrulhar), o luto, a deposição do corpo, a reunião de familiares e pessoas associadas, os festins” (Klok- ler e Gaspar, 2013, p.112). Já as atividades subsequentes seriam aquelas que acontecem após determinado período, variando de meses até anos de- pois da morte. De acordo com as autoras, estas serviriam para memoriali- zar os mortos e, em alguns casos, podem incluir, dentre outros, “modifica- ção, transporte, remoção de vestígios do corpo, funerais secundários, reu- nião de familiares e pessoas associadas, festins, construção de monumen- tos funerários” (Klokler e Gaspar, 2013, p.112).

Mesmo que não seja possível realizar determinadas análises no ma- terial resultante das escavações de João Alfredo Rohr a partir da meto- dologia da arqueologia funerária, opto por trazê-la ao trabalho para indi- car que muito pode ser pensado nesse sentido. Ainda que os métodos uti- lizados pelo Pe. Rohr sejam diferentes, em certa medida, dos métodos ti- dos como protocolares nos estudos e evidenciações de estruturas funerá- rias atualmente, acho válido pensar nas possibilidades de entender os vestí- gios escavados por Rohr por esse viés, ou, ao menos, tentar perceber o que pode ser feito nessa direção.

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