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2.7 Implémentation complète

2.7.4 Matrices de gain

Em 17 de abril de 1961, cerca de 1.500 contrarrevolucionários desembarcaram na praia de Girón, com o objetivo de estabelecer um governo autônomo para, posteriormente, tentar obter o controle sobre toda a ilha de Cuba. O ataque foi financiado pelos Estados Unidos através da CIA, que se encarregou também de treinar as tropas, o que foi feito na Guatemala. Os planos começaram a ser elaborados ainda durante o governo Eisenhower, mas foram colocados em prática por Kennedy. Além do desembarque, ele previa assistência aérea, ações de sabotagem na ilha e estratégias diversionistas, que foram se desenvolvendo a partir de fevereiro por grupos menores infiltrados.532

A reação dos cubanos foi imediata. Os revolucionários já esperavam um ataque de exilados com apoio americano. “Che” já tinha visto o mesmo ocorrer na Guatemala em 1954, quando o governo foi deposto de modo semelhante após desapropriar terras da United Fruit Co., poderosa empresa americana. Quando as primeiras ações contrarrevolucionárias começaram em Cuba, foram interpretadas como sinais evidentes de ameaça.533 A inteligência cubana teve também um papel fundamental, contando com vários informantes na comunidade de exilados. Além disso, prepararam-se militarmente com armas e tanques adquiridos do Leste Europeu. Os conflitos se arrastaram por alguns dias, mas as tropas de Fidel acabaram cercando e, por fim, fazendo prisioneiros cerca de 1.200 invasores.

A Invasão da Baía dos Porcos, como ficou conhecida, foi um marco na política internacional naqueles anos de Guerra Fria. O fato gerou reações diversas, tanto a nível institucional quanto na interpretação da ação pelos movimentos sociais e políticos. Internamente, criou as condições para Fidel radicalizar o processo revolucionário. Foi nesse contexto que a Revolução se declarou socialista – a palavra foi primeiramente pronunciada para definir o regime no dia 16 de abril e ratificada em 1º de maio. Fidel soube aproveitar a rejeição ao inimigo externo para unir os cubanos em direção a esse projeto de sociedade.

Os países não alinhados prontamente rejeitaram a invasão. O Brasil assumiu a mesma postura. Como vimos, tanto Jânio quanto Afonso Arinos se manifestaram defendendo a autodeterminação dos povos e considerando inaceitável qualquer intervenção estrangeira. O

532 Sobre a invasão da Baía dos Porcos ver: ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara: uma biografia. Rio de Janeiro:

Objetiva, 2005; BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009; DOMÍNGUEZ, Jorge. Cuba, 1959-c. 1990. In: BETHELL, Leslie (org.). História de América Latina: 13 – México y el Caribe desde 1930. Barcelona: Crítica, 1998; SZULC, Tad.

Fidel: um retrato crítico. São Paulo: Best Seller, 1987.

ponto principal não era a ação de exilados, mas o flagrante apoio dos Estados Unidos e da CIA. A própria estratégia americana acabou por expô-los. O plano previa um ataque aéreo prévio aos poucos aviões que Fidel possuía. Eles deveriam ser realizados com aviões idênticos aos cubanos – inclusive no emblema – para que se pensasse tratar da mudança de posição dos próprios oficiais cubanos. No entanto, um detalhe no bico dos aviões acabou revelando a manobra, então amplamente denunciada. Isso gerou grande desgaste ao governo Kennedy, que até então se esquivava em demonstrar participação direta na ação.534

De maneira geral, a maior parte das forças políticas e dos movimentos sociais foram solidários a Cuba. No dia 18 de abril, os parlamentares Neiva Moreira, Josué de Castro, Barbosa Lima Sobrinho, Hermógenes Príncipe, Fernando Santana e outros, se dirigiram até a embaixada de Cuba para expressar apoio a Fidel. O mesmo grupo de deputados pretendia entregar ao embaixador americano um memorial destinado ao presidente Kennedy, aconselhando-o a não apoiar os rebeldes.535 Ainda nesse dia, um comício de trabalhadores reuniu cerca de 5 mil participantes em frente à Assembleia Legislativa da Guanabara. Alguns cartazes e faixas pediam que o Brasil ajudasse Cuba enviando tropas. O número de pessoas aumentou à medida que a manifestação se desenvolvia e os participantes se concentraram próximos ao prédio da Associação Brasileira de Imprensa.536 No dia seguinte, nova manifestação no Rio de Janeiro, desta vez contando com a presença de deputados e estudantes, além dos trabalhadores. Nessa ocasião aproveitaram para vaiar Carlos Lacerda em frente a sua residência, antes de partirem em direção à embaixada de Cuba.537 Em Recife, as Ligas Camponesas inscreveram por volta de 70 voluntários para auxiliar as forças de Fidel.538

A rejeição à invasão dos exilados também se expressou no Rio Grande do Sul. Leonel Brizola, então governador do estado, chegou a enviar um telegrama para o presidente Jânio Quadros cobrando uma postura firme do país na defesa da autodeterminação dos povos.539 No dia 18 de abril, estudantes e operários organizam manifestação em defesa de Cuba e da Revolução Cubana. O movimento foi articulado pela FEURGS, pela UEE, pelo Movimento Nacionalista do Brasil, pelo Movimento 26 de Julho e pelo Comando Sindical de Porto Alegre. A concentração dos manifestantes aconteceu em frente ao Consulado dos Estados Unidos. Na

534 SZULC, Tad. Fidel: um retrato crítico. São Paulo: Best Seller, 1987, p. 645.

535 AHMSM, Correio do Povo, 19 de abril de 1961, p. 16.

536 AHMSM, Correio do Povo, 19 de abril de 1961, p. 16.

537 AHMSM, Correio do Povo, 20 de abril de 1961, p. 11.

538 AHMSM, Correio do Povo, 19 de abril de 1961, contracapa. Houve, no entanto, aqueles que saudaram a

invasão. Já vimos que Carlos Lacerda a considerava, antes de seu desfecho, uma vitória contra um tirano, criticando o “imperialismo russo” ao mesmo tempo em que calava sobre o imperialismo americano.

ocasião, o presidente da FEURGS teria declarado “ser esta a nossa revolução”. Os participantes passaram pelo centro de Porto Alegre dirigindo-se por fim ao Palácio Piratini. Lá, o governador Leonel Brizola deu seu apoio aos manifestantes.540

Percebe-se que os estudantes participaram fortemente das manifestações no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, entidade importantes como a FEURGS e a UEE articularam o movimento, que estava em sintonia com as posições da UNE. Assim expressou-se a entidade máxima dos universitários brasileiros em conjunto com outras entidades estudantis:

A União Nacional dos Estudantes, União Brasileira dos Estudantes Secundários, a União Metropolitana dos Estudantes, a Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários, tendo em vista a grave situação porque passa a República de Cuba e considerando a posição intransigente dos estudantes brasileiros, de apoio e solidariedade à revolução cubana, consubstanciada através de várias manifestações estudantis, que correspondem aos anseios de liberdade do nosso povo; considerando que a recente invasão a Cuba por bandidos e mercenários tem como sustentáculo o governo dos Estados Unidos, que vem há muito ameaçando criminosamente o governo popular de Fidel Castro; e considerando os pronunciamentos, em campanha e já agora no exercício da mais alta magistratura do país, do presidente Jânio Quadros, de solidariedade e reconhecimento do governo revolucionário de Cuba, resolve: reafirmar a posição dos estudantes brasileiros pela soberania e liberdade do povo cubano, denunciar o patrocínio do governo dos Estados Unidos na recente invasão do território da República de Cuba e, finalmente, exigir do presidente Jânio Quadros, como representante do povo brasileiro, a ratificação de seus pronunciamentos em

torno do processo revolucionário do primeiro ministro Fidel Castro.541

Seguindo essa linha, no dia 21 de abril militantes de Santa Maria também manifestaram solidariedade a Cuba. Um “A Pedido” publicado no jornal A Razão conclamava a população para, no dia de Tiradentes, concentrarem-se na praça Saldanha Marinho, repudiando a invasão da Baía dos Porcos. Assinaram a nota “líderes sindicais e ferroviários, estudantes, vereadores e profissionais liberais”, convocando “o povo de Santa Maria para uma grande manifestação pública de protesto pela agressão feita pelas forças imperialistas ao heroico povo cubano, aventura bélica que está pondo em risco a Paz Mundial e ferindo o direito de autodeterminação das Nações”.542 Cerca de 30 nomes constavam no abaixo assinado. Alguns deles, autodeclarando-se comunistas, assinavam também outro “A Pedido”, publicado no mesmo jornal e no mesmo dia. Este assumia uma posição bastante contundente e dirigida aos trabalhadores da cidade:

TRABALHADORES! Os que invadiram Cuba são os mesmos que nos exploram, nos oprimem e infelicitam nosso povo e nossa Pátria. Os inimigos do povo cubano, os

540 AHMSM, A Razão, 19 de abril de 1961, p. 6.

541 AHMSM, Correio do Povo, 19 de abril de 1961, p. 16.

imperialistas norte-americanos, são também os nossos inimigos. / A luta do povo

cubano é a nossa luta. A Revolução Cubana é também a nossa revolução.543

No entanto, nem todo mundo manifestou-se da mesma forma. Nos dias que se seguiram, diversos diretórios acadêmicos se posicionaram diante da convocação para a manifestação. Primeiramente foi a vez do DCE da Universidade de Santa Maria definir que só ele poderia falar em nome dos universitários da cidade e que não reconhecia a legitimidade dos estudantes que se manifestaram no ato.544 Em uma nota conjunta dos Centros Acadêmicos de Direito, de Enfermagem e de Filosofia, os estudantes ressaltavam que Fidel Castro havia perdido a confiança deles “por se ter lançado nas garras do comunismo, esse novo ‘Leviatã’ que tenta dominar o mundo com suas mentiras separando as Américas com seus ideais anarquistas [sic]”. E ainda alertava aos “pseudo-estudantes”: “a Liberdade de pensamento existe no Brasil! Saibam fazer bom uso dela, para que nunca tenhamos de defende-la pelo uso das armas”. Também em nota conjunta os Centros da Farmácia e da Odontologia, definindo-se como “democratas”, colocaram-se “a favor da não intervenção e, logicamente, contra o comunismo, que almeja dominar Cuba como já o fez com tantos outros países do mundo”.545

Em 26 de abril, em nota assinada por Sérgio Gilberto Bonucelli, o Centro Acadêmico da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade de Santa Maria afirmou defender a “real autodeterminação dos povos” sendo, portanto, contra qualquer interferência “alienígena, tanto a do dólar quanto a do rublo, como a de qualquer outra modalidade”. No mesmo dia pronunciou-se o Centro de Estudantes de Medicina de Santa Maria. O tom do texto, no entanto, foi diferente, pois mesmo ressaltando ser contrário a intervenções tanto “ocidentais ou do bloco comunista”, reconhecia como “legítima a revolução cubana”, considerando que ela “impulsionou a emancipação socioeconômica de Cuba”. Nessa manifestação não é possível notar o teor anticomunista tão claramente presente na nota conjunta dos centros da Filosofia, Enfermagem e Direito.546

Posições favoráveis à invasão ou críticas das manifestações pró-Cuba não ocorreram apenas em Santa Maria. Logo após o comício e passeata em solidariedade aos cubanos realizados em Porto Alegre, os autointitulados “Estudantes Livres de São Leopoldo” publicaram a seguinte nota:

“Os estudantes de São Leopoldo, em face dos acontecimentos de Cuba, solidarizam- se com os Contra-Revolucionários cubanos, porque somos pela autodeterminação das

543 AHMSM, A Razão, 21 de abril de 1961, p. 3.

544 AHMSM, A Razão, 23 de abril de 1961, contracapa

545 AHMSM, A Razão, 23 de abril de 1961, p. 6.

nações. Esses patriotas aos milhões agora arriscam seus lares e suas vidas em defesa dos mais legítimos e intocáveis direitos do homem, massacrados por um punhado de paranoicos comunistas e sanguinários. Os Castros, Roa e “Che”, traíram uma justa revolução em favor do comunismo internacional, sem paz nem liberdade. Afogaram o país em sangue. Sufocaram com fuzis e prisões qualquer protesto democrático. / De novo o povo cubano está provando, com heroica adesão dos compatriotas exilados, tanto o seu repúdio à violência e ao genocídio, como seu amor à pátria vendida por entreguistas vermelhos a preço de Migs, tanques e foguetes russos. / E condenamos as manifestações pueris pró-ditadura-Fidel Castro de alguns estudantes, inocentes- úteis do comunismo internacional, ocorridas em nossa Capital, lembrando-lhes, aos colegas, que lhes não assiste o direito de falar em nome de todos sem consultar-

nos”.547

Nesse caso, tratou-se de uma clara defesa da ação dos exilados, sustentada exatamente no princípio de autodeterminação dos povos, numa inversão discursiva comum à direita na década de 1960. Destaca-se também que o grupo definia como “inocentes-úteis” aqueles que defendiam o governo revolucionário cubano, uma caracterização que, como veremos, era largamente utilizada para referir-se aos estudantes de esquerda ou simpáticos a ela.

O clima anticomunista que se revelou nessa ocasião ultrapassava o setor estudantil. O

Jornal do Dia, diário de Porto Alegre com orientação católica, veiculou algumas matérias e

editoriais sobre a questão cubana. No dia 19 de abril, esse jornal publicou uma curiosa notícia com o título “Polícia alerta para realização de comício”. Segundo relatado, agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) estavam de prontidão para evitar qualquer perturbação que viesse a ocorrer. O desfecho da notícia, no entanto, terminava com uma ironia: “Nada de anormal no entanto se verificou, pois a afluência ao dito comício foi inexpressiva, tendo mais policiais do que mesmo participantes na manifestação pró-Fidel Castro”.548 A

notícia das manifestações era, portanto, vista a partir da ação da polícia e não da mobilização popular. No dia seguinte, um editorial definia, novamente recorrendo a ironia, que: “Castro (e o seu grupo) é o autodeterminador do povo cubano. Esta história de eleições livre, oposição política, imprensa livre, sindicatos livres, isto tudo é conversa. O que importa é a democracia. A Castrocracia ou Kremlinocracia”.549 Na mesma página publicou um editorial da Juventude Operária Católica (JOC) de Cuba, condenando tanto o imperialismo soviético quanto o norte- americano e declarando-se favorável à Doutrina Social da Igreja.

No jornal Correio Rio-Grandense, de 17 de maio de 1961, é publicada uma das poucas manifestações de apoio integral às declarações de Lacerda. O conteúdo da nota é o seguinte:

547 AHMSM, Correio do Povo, 19 de abril de 1961, p. 11. Interessante notar que em nenhum momento encontra-

se qualquer manifestação de estudantes “democratas” ou “livres” contra governos autoritários de direita.

548 BN, Jornal do Dia, 19 de abril de 1961, p. 2.

Governador Carlos Lacerda - Queremos expressar-lhe os nossos cumprimentos e os nossos aplausos pelas oportunas declarações sobre a situação cubana, cujo valoroso povo se vê esmagado pela mais potente e sanguinária ditadura que já infelicitou um país americano e o pronunciamento de repúdio ao comunismo reflete o sentimento do nosso povo fiel à nossa vocação democrática que sempre condenou a sufocação das liberdades públicas e o desrespeito à dignidade humana. Aceite os nossos cumprimentos: (Ass): João Dentice, Francisco Carrion, Cândido Carrion, Antônio Medina, Alfredo Hoffmeiter, Alvorino Mércio Xavier, João Magalhães Filho, Oscar

Freitas e Alberto Godoy.550

Como pudemos observar, os acontecimentos em Cuba geraram reações diversas, representativas não só das divisões internacionais da Guerra Fria, mas também das cisões internas da sociedade brasileira. As manifestações anticomunistas que observamos em abril tornaram-se ainda mais intensas no mês seguinte, como veremos a seguir.