against its Drosophila hosts
2 Materials and methods
Apesar da contribuição do pensamento hegemônico no campo da arquitetura e do urbanismo na direção de edificar territórios homogêneos, genéricos, as cidades em sua maioria são construídas entre relações de confrontos, consensos, leis, padrões, transgressões, infiltrações, transversalidades, resistências, verticalidades, horizontalidades. As ações civilizatórias, as intervenções urbanas que elaboramos na maioria das vezes ocupam os espaços luminosos das e nas cidades. Os espaços luminosos como na concepção de Milton Santos são aqueles bem servidos pelas políticas públicas e privadas, pelas redes informacionais, pela infraestrutura urbana.
“[...] O pensamento cunhado na academia, simultaneamente e com maior intensidade na mídia caracteriza-se por constituir-se enquanto hegemonia. “O modelo hegemônico é planejado para ser, em sua ação individual, indiferente a seu entorno.”(SANTOS, 2000:107).
Milton Santos relaciona essa hegemonia a verticalidades. “[...] As verticalidades são, pois, portadoras de uma ordem implacável, cuja convocação incessante a segui-la representa um convite ao estranhamento. Assim, quanto mais ‘modernizados’ e penetrados por essa lógica, mais os espaços respectivos se tornam alienados.” (SANTOS, 2000:108), desencarnados.
Para as verticalidades o território é visto como um ‘recurso’, justamente a partir do uso pragmático que o equipamento modernizado de pontos escolhidos assegura. Enquanto as verticalidades podem ser definidas num território, como um conjunto de ‘pontos’ formando um espaço de fluxos, as horizontalidades são zonas de contiguidade que formam extensões contínuas. Milton Santos segue dizendo que as horizontalidades dizem respeito ao espaço banal.
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“[…] O espaço banal seria o espaço de todos: empresas, instituições, pessoas, o espaço das vivências. Esse espaço banal, essa extensão continuada em que os atores são considerados em sua contiguidade são espaços que sustentam e explicam um conjunto de produções localizadas, interdependentes, dentro de uma área cujas características constituem também um fator de produção. Todos os agentes são de uma forma ou de outra implicados, e os respectivos tempos, mais rápidos ou mais vagarosos, são imbricados.” (SANTOS, 2000:109).
Ao contrário das verticalidades, regidas por um relógio único, implacável, nas horizontalidades assim particularizadas funcionam, ao mesmo tempo, vários relógios realizando-se paralelamente diversas temporalidades (SANTOS, 2000). Esses espaços banais carregam em e para a sua constituição saberes moleculares a atravessar a hegemonia da verticalidade, geralmente dominante. Ao contrário da ordem imposta nos espaços de fluxos pelos atores hegemônicos, nos espaços banais se recria a ideia e a necessidade do fato da política como exercício fundamental para se continuar a existir. Através do exercício contínuo do debate, dos acordos, encontros, desencontros, entendimentos e desentendimentos, buscam-se explícita ou tacitamente a readaptação às novas formas de existência.
O espaço banal e os saberes compartilhados para a sua feitura se metamorfoseiam em algo que está para além do ‘recurso’ e, constitui o que Milton Santos chama de ‘abrigo’.
“[...] Na realidade, a mesma fração do território pode ser ‘abrigo’ e ‘recurso’, pode condicionar as ações mais pragmáticas e, ao mesmo tempo permitir vocações generosas. Nas condições atuais, o movimento determinante com tendência a uma difusão mais avassaladora é o da criação da ordem pragmática, enquanto a produção do espaço banal é residual” (SANTOS, 2000:112).
Esse tema das verticalidades e das horizontalidades comporta várias reinterpretações e no nosso campo da arquitetura e do urbanismo podem estar correlacionadas aos modos de se conhecer, projetar, construir, intervir, agir e praticar os espaços. Podemos relacionar os conceitos de verticalidades e horizontalidades, o território visto como ‘recurso’ e/ou tomado como ‘abrigo’, espaços hegemônicos e espaços banais associados às noções de táticas e estratégias, ocasiões e circunstâncias ( os vários relógios ao mesmo tempo e/ou um único relógio implacável). As forças hegemônicas/verticalidades trabalham na direção de construírem uma racionalidade
43 única, reitora de todas as outras, desejosa de homogeneização e de unificação pretendendo sempre tomar o lugar das demais. Já no cotidiano, a razão, isto é, a razão de viver é buscada por meio do que em face dessa racionalidade hegemônica é considerado como ‘irracionalidade’, quando na realidade o que se dá são outras formas de ser racional. O mundo do cotidiano é o mundo da produção infinita de racionalidades.
“[...] O funcionamento dos espaços hegemônicos supõe uma demanda desesperada de regras; quando as circunstâncias mudam e, por isso as normas reguladoras têm de mudar, nem por isso sua demanda deixa de ser desesperada. Tal regulação obedece a consideração de interesses privatísticos. Já o cotidiano supõe uma demanda desesperada de política, resultado da consideração conjunta de múltiplos interesses”(SANTOS, 2000: 127).
Interessa pensarmos que esse território do saber, poder banal, horizontalidade alojado no cotidiano não podem abdicar do seu contexto assim como pressupõe o saber vertical, hegemônico, espaços de recurso, pois, a própria existência do saber banal, cotidiano está assujeitada ao meio. E adaptando-se às situações cujo comando frequentemente escapa aos respectivos atores, acabando por exigir de cada qual um permanente estado de alerta, no sentido de apreender as mudanças e descobrir as soluções indispensáveis. Comparamos, nessa tese, os saberes dos arquitetos aos vetores de verticalidades, indiferentes a seu entorno, sendo necessário que esse saber se metamorfoseie em algo mais do que um simples recurso.
No âmbito do saber hegemônico somente a existência dos agentes hegemônicos importa. São ao mesmo tempo origem e finalidade das ações. A vida cotidiana abrange vários agenciamentos, diversas temporalidades simultaneamente presentes, o que permite considerar a existência de cada um e de todos, ao mesmo tempo sua origem e finalidade. Esse debate envolve questões relacionadas à homogeneidade que se pretende o saber hegemônico para garantir sua perpetuação em zona de tranquilidade, consenso, ausência de conflitos e outro saber - micro, difuso, perturbado a se fazer e disseminar na heterogeneidade da vida cotidiana.
Não se crê que a construção do arquiteto urbanista do devir esteja no confronto entre formas de saberes duais, distintos, mas na captura de um pelo outro e vice-versa até mesmo porque as horizontalidades atravessam as verticalidades, o meio lhes é condicionante à sua sobrevivência, à base de sua atuação. As horizontalidades, ao
44 contrário das verticalidades precisam negociar a todo o momento com os saberes e poderes hegemônicos como forma de sobrevivência.
“[…] As horizontalidades, pois, além das racionalidades típicas das verticalidades que as atravessam, admitem a presença de outras racionalidades (chamadas de irracionalidades pelos que desejariam ver como única a racionalidade hegemônica). Na verdade, são contra racionalidades, isto é, formas de convivência e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mantêm nesse território a despeito da vontade de unificação e homogeneização, características da racionalidade hegemônica típica das verticalidades”. (SANTOS, 2000:127).
Assim, ao invés de nos localizarmos somente no âmbito do saber constituído, erudito, dominante, vale pensar nas contaminções e infiltrações das maneiras horizontalizadas, incorporadas, pois, no interior, na constituição do seu saber repousam pequenas verticalidades. Retomar as especulações de De Certeau é também refletir sobre o projeto de arquitetura e urbanismo “ a partir de um universo fechado onde as regras do jogo são sempre no sentido de fazer o que puder com aquilo que tiver nas mãos, ou seja, com um conjunto de ferramentas que é finito e heterogêneo.” (DE CERTEAU, 1994:46). Trata-se não só de construir espaços luminosos em espaços opacos, mas antes disso criar saberes híbridos, mestiços através pedagogias, maneiras de saber/conhecer, saber/fazer que a todo o momento e conforme as circunstâncias e ocasiões deixam-se atravessar, se metamorfoseam ora em engenharia/arquitetura, opaca, favelada e luminosa ao mesmo tempo. As possibilidades para o devir outro arquiteto urbano do qual ocupa-se esta tese está certamente mais próxima das relações de misturas, revides entre saberes molares, moleculares, macro, micro, formal, informal do que de dicotomias e dualidades. Navega-se no mundo da imprecisão, mundo mais difícil de ser reconhecido, menos inteligível, conturbado, menos adepto às categorizações, mas não menos real ou talvez em busca de realidades mais humanas.
O pensamento hegemônico cria regras, padrões. Esses dizem respeito a processos de produção atrelados às noções de racionalidade ( filiada ao espaço hegemônico), feitos de maneira ordenada e repetitiva, estabelecidos por diretrizes que (por sua vez) seguem normas e regras previamente definidas por saberes já reconhecidos – a racionalidade da padronização vislumbra e justifica-se por criar a civilidade e o direito a termos os mesmos direitos ( apesar das diferenças), estabelece a norma para
45 o trabalho, permite a industrialização como meio de produção gerenciada e planejada, almeja a eficiência nos processos, o que permite uma contínua aceleração da repetição desses mesmos processos.
“[…] Assim, existe o padrão para a educação, para o trato com a saúde, para a construção e ocupação dos espaços, para a produção e consumo de bens. É o uso desses padrões que tornam a sociedade civilizada; que permite a multidão conviver fora de um estado de barbárie; que permite um entendimento social do que vem a ser justo ou não e, é por causa disso que muitas intervenções são justificadas.”(PORTELA, 2007: 87)
O padrão é a forma marcante de intervenção dos espaços luminosos (apesar de o tempo todo sermos atravessados por processos horizontais, banais, cotidianos subjacentes e concomitantes à produção desses mesmos territórios) e essa forma é sempre trabalhada para ser considerada legítima. Esse padrão orienta muito a nossa formação como arquitetos urbanistas. Esse pensamento criou pedaços ou cidades “inteiras”. A lista é enorme mundo afora e hoje, rege as ações dos arquitetos contemporâneos que orientam também as intervenções em vilas e favelas, pois, de alguma maneira é muito difícil sermos atravessados por outras maneiras de pensar os espaços. A via é de mão única - intervir sim, mas deixar ser afetados não.Os melhoramentos sempre foram as ações civilizatórias ditadas pelos padrões das elites dos espaços luminosos e são sempre justificadas por serem ações legítimas. É correto dar condições de higiene, é justo reconhecer os valores culturais, é legítimo regularizar a situação fundiária dos espaços informais; não existem argumentos que neguem ‘o justo’ nessas ações. Mas, existe o receio de que uma proposta de intervenção no espaço desemboque na padronização excessiva, descaracterizando o local.
A referência a “intervenção sim, padronização não” é uma constante. Como exemplo podemos citar os próprios habitantes de favelas que reclamam dos problemas de infraestrutura, são os primeiros a temerem a padronização cientes de que toda requalificação elimina as pulsões desejantes, singulares que atuam como uma cápsula de proteção para esses territórios cotidianos, banais, opacos. Deseja-se a intervenção urbana dos espaços luminosos nos espaços opacos, mas não a padronização, não a postura desencarnada porque isso é retirar a riqueza, a multiplicidade das luzes existentes; desejar intervir, retirar a insalubridade, mas sem diminuir a riqueza dessas ambiências.
46 Esse é um processo esquizofrênico presente na sociedade contemporânea que gera uma crise de forma generalizada e não só nas favelas, nas feiras livres, no Mercado Central em Belo Horizonte, na feira de São Joaquim em Salvador, nas banlieues32 mestiças da grande Paris. Então, como agir nos espaços opacos sem retirar dali sua diferença cultural? Essa questão nos faz pensar nas ações desencarnadas, pois, essas retiram a insalubridade da feira, do mercado assim como com frequência tendem a eliminar também as suas singularidades.
“[…] O jogo civilizatório presente nos agenciamentos ligados às ações de intervenção urbana retiram o rato que traz a doença junto com os beijos calorosos; retiram a sujeira junto com o sono no carrinho de mão ou no chão; acabam com os pés para cima do banco, a fala alta, a dança no meio da praça”. (PORTELA, 2007:87).
Acreditamos que no pano de fundo para possíveis respostas à essas questões estejam as ações desencarnadas praticadas por grande parte dos arquitetos urbanistas.
Milton Santos já apontava esse contexto:
“[…] Para os migrantes e para os pobres de um modo geral, o espaço inorgânico é um aliado da ação, a começar pela ação de pensar, enquanto a classe média e os ricos são envolvidos pelas próprias teias, que para seu conforto ajudaram a tecer: as teias de uma racionalidade invasora em todos os arcanos da vida, essas regulamentações, esses caminhos marcados que empobreceram e eliminam a orientação para o futuro. Por isso os espaços “luminosos” da metrópole, espaços da racionalidade é que são de fato os espaços opacos” (SANTOS, 1994:85).
O território brasileiro é esquizofrênico,
“[...] porque de um lado, recebendo esses insumos de modernização globalitária, ele se fragmenta, se fragiliza; de outro lado, descobre que esse processo não lhe convém. E talvez lhe falte descobrir qual é a lógica mais geral que permita a produção de um discurso novo. Primeiro acadêmico, quando possível também de mídia, e depois o discurso político.” (SANTOS, 1998).
Entretanto, como escolher entre ter um lugar salubre ou um lugar com vida? Por que cada vez que se busca um perde-se o outro? Não nos caberia então intervir nos espaços opacos? Nas periferias autoconstruídas das nossas cidades? Diante da não aplicação do padrão não nos restaria o que fazer? Não se trata, portanto, de um “não
32 Banlieues do francês que quer dizer subúrbios sendo comparados às periferias pobres economicamente das cidades brasileiras.
47 fazer”, mas sim de um fazer em um tempo necessário, que permitam que os afetos e desafetos, que os saberes molares e moleculares sejam compreendidos (porque senão caíremos novamente na esquizofernia de intervir de modo inadequado ao contexto); na cadência de tempos e ações possíveis para que os muitos homens lentos que vivem nos espaços opacos e os poucos que vivem nos espaços luminosos possam aprender outros caminhos, entre as ações afetivas e as ações civilizatórias.