B. LA PORTÉE DES CRITIQUES FORMULÉES
2. Un manque de transparence dans un contexte d’influence des laboratoires
Conforme já se demonstrou no primeiro capítulo, o arrolamento da população de Fortaleza realizado no final da década de 1880, contabilizou cerca de 26.943 pessoas. Os livros que esta pesquisa teve acesso corresponde a um total de 19.280 habitantes, com algumas falhas e ausências. Apesar de não se dispor da totalidade da documentação, é possível, a partir das famílias arroladas, estabelecer uma aproximação com o mundo do trabalho nas oficinas e pequenas fábricas espalhadas pela cidade. Um panorama quantitativo na intenção de encontrar os pequenos trabalhadores de Fortaleza evidencia quais ocupações eram mais recorrentes entre os meninos e meninas empregados em estabelecimentos comerciais ou como aprendizes de ofícios variados.
Gráfico 1 – Crianças em Oficinas e Casas Comerciais em Fortaleza (1887)
Fonte: CEARÁ. SECRETARIA DE POLÍCIA. Arrolamento da População de Fortaleza – 1887. 12 54 3 78 12 16 1 8 80 2 1 1 3 21 1 11 2 15 14 4 1 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90
Para construção do gráfico acima foram excluídos aqueles que trabalhavam no serviço doméstico, a grande maioria das crianças pobres da cidade. O propósito foi perceber que tipos de profissionalização eram acessados pelos meninos (as) dentro de Fortaleza. Embora nesse período fossem consideradas menores de idade pessoas até 21 anos, os números apresentados aqui foram baseados numa seleção de crianças e jovens até 18 anos de idade. Com efeito, alguns jovens entre 20 e 21 anos já tinham filhos ou eram os principais provedores de suas casas. Outra categoria não considerada nesses números, mas que muito se repetiu na listagem da população, foi a de jornaleiro – aqueles que faziam trabalhos diversos, sem qualificação e recebiam por dia trabalhado – incluindo garotos entre 15 e 18 anos. Entre alguns artífices listados, o ofício era herdado da família, onde o pai ou outro parente afirmava ter a mesma profissão atribuída às crianças da casa. Mas essa não era a regra.
Vê-se assim que a maioria dos meninos que não estava no serviço doméstico nem na condição de jornaleiro trabalhava como caixeiro nos mais variados estabelecimentos existentes na cidade (lojas, armazéns, cafés, casas de secos e molhados, bodegas etc.). Isso porque, antes da década de 1880, as fábricas eram poucas. Em termos de manufaturas, o que predominavam eram as oficinas com diminuto número de empregados. Conforme demonstrou Margarida Andrade, ao longo do século XIX, o crescimento dos postos de trabalho (livre e escravo) na capital cearense esteve muito mais associado à implantação de estabelecimentos comerciais – incluindo as firmas de importação/exportação – do que ao setor industrial. Cruzando dados dos almanaques de Fortaleza, Junta Comercial e Arrolamento da população, Andrade concluiu que os principais investimentos e negócios na capital “caracterizavam-se pela predominância de pequenos estabelecimentos com baixo nível de mecanização, misturados com as residências”. 188 Utilizando tabelas para sistematizar as informações recolhidas, ela verificou
que em 1870 existiam em Fortaleza 39 pequenas fábricas (de chapéus, curtume, bebidas, fogos de artifício, meias, sabão, redes, tijolos etc.) No mesmo ano, havia 42 oficinas, entre as quais se destacavam 7 ourivesarias, 7 tipografias e 5 tornearias e 289 estabelecimentos de comércio varejista, incluindo armazéns, lojas e restaurantes. Mesmo com a expansão demográfica e espacial da cidade, tempos depois, em 1895, apenas 37 fábricas estavam registradas em Fortaleza, ao lado de 117 oficinas e 485 lojas comerciais. Assim, os trabalhadores com ocupações formais na segunda metade do século XIX, estavam majoritariamente espalhados em pequenos comércios.
188 ANDRADE, Margarida Julia Farias de Salles. Fortaleza em perspectiva histórica: poder público e iniciativa
privada na apropriação e produção material da cidade (1810-1933). 2012. 297 p. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012, p. 115.
Os meninos caixeiros listados no arrolamento da população muitas das vezes nem desempenhavam um trabalho especializado, podendo mesmo ser um carregador de fardos ou zelador das dependências. Muito trabalho pesado e pouca remuneração, tal qual contava Rodolpho Teóphilo em suas memórias de quando era um caixeiro-vassoura e tinha que limpar os excrementos que a burra de seu patrão deixava onde ele próprio dormia. Mesmo entre contrariedades, Teóphilo ainda mencionou que a casa onde estava empregado não era o pior lugar, “não fazia como outras, as portuguesas, que tratavam os caixeiros a pontapés, faziam deles carreteiros de mercadoria e muito mal os pagavam”.189
A vida do garoto Ercylio Gondim possivelmente não corria muito distante da descrição de Rodolpho Teóphilo. Aos dezessete anos, Ercylio era caixeiro do negociante português Antônio Coelho da Fonseca, irmão do comendador Francisco Coelho da Fonseca, negociante, traficante de escravos e, mais tarde, membro da Sociedade Cearense Libertadora. O caixeiro morava no sobrado de Antônio Coelho, que ficava na rua Formosa. Ali havia no térreo uma loja de molhados e no pavimento superior a residência da família.190 Não é possível assegurar se Ercylio enfrentava os pontapés que Teóphilo mencionou para dar conta da fama de maus pagadores e agressivos dos comerciantes portugueses. No entanto, sendo impossível separar casa e trabalho, o jovem caixeiro deve ter vivenciado muitos excessos dos proprietários. Assim como Rodolpho Teóphilo, vários caixeiros moravam nas propriedades de seus patrões, ficando disponíveis para qualquer ordem, num cotidiano de trabalho que não sistematizava carga horária e nem respeitava as folgas semanais.
O Arrolamento da população fortalezense mostrou que em grande parte dos estabelecimentos comerciais, principalmente em lojas de secos e molhados e nas padarias, os caixeiros eram agregados ou filhos de agregados, que comumente estavam envolvidos com os serviços domésticos. Ou seja, eram treinados desde a tenra infância para executar os trabalhos das lojas, ocupando-se em tarefas variadas de limpeza, organização, entregas, cobranças e, quando habilitados, contabilidade e guarda-livros. Tal composição dos empregados no comércio varejista da cidade pôde ser observada inúmeras vezes nas casas dos negociantes. A exemplo, tem-se a padaria do português Manoel Antônio de Magalhães – um dos fundadores da Sociedade Beneficente Dous de Fevereiro, que aglutinava a comunidade portuguesa da capital cearense. No endereço onde vivia o casal português e suas quatro filhas, todos os
189 THEOPHILO, Rodolpho. O Caixeiro: Reminiscências – (edição fac-similar). Fortaleza: Museu do Ceará,
2002, p. 57.
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padeiros e caixeiros eram agregados, incluindo Gregório Correia, padeiro cego de 37 anos e seus ajudantes Joaquim (14), José (12) e Francisco (12), além do caixeiro Francisco (18 anos), filho da cozinheira.191
Não muito longe dali, em uma casa da parte pavimentada da Rua Senador Pompeu, os meninos Francisco de Castro e Marcos Sampaio, ambos com 10 anos de idade, moravam e trabalhavam na casa do negociante Vicente Alves Nogueira Formiga, onde eram caixeiros. O negociante era casado e tinha quatro filhos – o mais velho de 19 anos era estudante e os demais ainda crianças. Além de Francisco e Marcos, Francisco Morais (22 anos) também era caixeiro de Vicente Formiga, em cuja casa outras duas agregadas executavam os serviços domésticos.192 De nenhum modo a condição desses pequenos caixeiros era excepcional. É certo que a maioria contabilizada nos livros do arrolamento tinha entre 15 e 16 anos, mas vários outros, como Marcos, havia iniciado essa labuta bem cedo.
Indícios da vida de meninos caixeiros também podem ser observados nos anúncios de jornais. Era comum a oferta de empregos para caixeiros. Mas numa cidade com tão poucas possibilidades de emprego formal, a procura por esses trabalhos também era significativa. Por isso, indicações e atestado de boa conduta poderiam gerar alguma vantagem.
Fonte: A Constituição, ed.127, p.3, 14 jul. 1872.
O anúncio, além de entrever a circulação de meninos caixeiros por várias casas comerciais na cidade, mostrava que aos 14 anos, o caixeiro que oferecia seus serviços já tinha experiência no ramo e considerava oportuno atestar sua honestidade. Ter um proprietário que afiançasse a fidelidade do caixeiro foi uma preocupação recorrente nos anúncios encontrados. Afinal, eram empregados que sabiam da situação financeira do patrão, da circulação de dinheiro e mercadorias, além de conhecerem os fornecedores e credores. Comumente, quando um caixeiro se desligava de algum comércio de maior porte, era publicado um aviso nos jornais para que todos soubessem que aquela pessoa não estava mais autorizada a tratar de negócios
191 CEARÁ. SECRETARIA DE POLÍCIA. Arrolamento da População de Fortaleza. Freguesia de Nossa
Senhora do Patrocínio – Fortaleza, 1887, Livro 355, p. 22.
192 CEARÁ. SECRETARIA DE POLÍCIA. Arrolamento da População de Fortaleza. Freguesia de Nossa
em nome do patrão. Ou ainda, o próprio caixeiro que deixava o estabelecimento avisava de seu desligamento ou mudança para outro comércio.
Estas informações sobre a procedência dos caixeiros e pedidos de recomendação eram tão importantes que, na impossibilidade de conferência, mesmo habilitados para o emprego, recaia sobre os caixeiros sem registro de abonação grande desconfiança. No final da década de 1880, um negociante pedia mais informações sobre um moço que desejava contratar para ser seu caixeiro. No anúncio intitulado “A quem souber”, perguntava se alguém tinha queixas contra João Antônio Fernandes, que dizia ser filho do dono do Comercial Corsário Negro, situado em Olinda. João Antônio dizia ter bastante experiência, pois havia trabalhado no comércio do pai, em uma famosa padaria do Recife e tinha estudado em colégio daquela cidade até que resolveu fixar moradia no Ceará. Porém, como não trazia consigo qualquer carta de recomendação, o comerciante pedia “exatas informações desse moço para evitar-se qualquer comprometimento em protegê-lo”.193
Dos 78 caixeiros com idade até 18 anos, apenas 4 não sabiam ler, segundo as informações do Arrolamento de 1887. Mesmo assim, é difícil dizer que assumiram, posteriormente, um trabalho mais qualificado ou com funções que os distinguiam de outros trabalhadores manuais.194 É preciso também pontuar que a categoria “caixeiro” era, nesse
período, marcada por grande heterogeneidade de funções – contabilidade, encomendas, serviços de cobranças e entregas, atendente de balcão e até garçom. Em diálogo com as expectativas de ganhos salariais, maior qualificação e esforços desses trabalhadores em sua valorização profissional, tais diferenças passaram a assumir caráter cada vez mais hierárquico, demarcando espaços de distinção para caixeiros mais qualificados (empregados em escritórios e firmas de exportação, por exemplo). No Ceará, a criação da Phenix Caixeiral – associação
193 A quem souber. Pedro II, ed. 17, p. 2, 8 fev. 1889.
194 Em estudo sobre os caixeiros no Rio de Janeiro, Popinigis destacou a trajetória de luta e negociações que os
trabalhadores do comércio empreenderam na construção de direitos, muitas vezes, pressionando o poder público para garantirem melhores condições de trabalho. O percurso de organização dessa categoria em busca de regulamentação do trabalho no comércio, mostrou que durante o Império a cultura associativa dos caixeiros contribuiu para ampliar seus meios de reivindicação. A autora defendeu a tese de que, no século XIX, as reivindicações dos caixeiros dialogavam com o paternalismo e a as possibilidades de troca com os patrões. A partir da década de 1880, teria se processado uma ruptura com o ambiente paternalista e as lutas caixeirais passaram a ser mais públicas, implicando em disputas e maiores resistências. Para a autora, a segunda metade dos oitocentos e os primeiros anos do século XX foram fundamentais para a formação de uma identidade de classe dos trabalhadores do comércio. A preocupação com a profissionalização, o respeito ao trabalho qualificado e os sonhos de ascensão profissional marcaram as reivindicações caixeirais. Ver: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Unicamp, 2007.
mutualista dos caixeiros – evidenciou bem o propósito de organização da categoria em prol da qualificação e valorização profissional desses trabalhadores.195
Eylo Fagner Rodrigues também utilizou o Arrolamento de Fortaleza para espacializar as categorias socioprofissionais dentro da cidade, indicando as oficinas e estabelecimentos comerciais. Nesse exercício de reconstrução, encontrou os caixeiros, entre eles os caixeiros-vassoura, que pouco se apartavam, em termos de serviços e responsabilidades, dos criados de servir. Conforme assinalou, a maioria dos caixeiros estabelecia com seus patrões contratos verbais e o salário era inconstante, ficando a cargo do julgamento dos empregadores. Entretanto, ainda que diminutas as chances de ascensão social, os caixeiros conseguiram, conforme demonstrou Rodrigues, estabelecer redes de amizades, apadrinhamento e favores que foram fundamentais para conquistar melhores condições de trabalho, bem como ganhos individuais e coletivos.196 Isso explica a preocupação de alguns caixeiros em publicar notas de agradecimento quando de seu desligamento de alguma casa comercial, como fez Júlio Aquiles Barata ao deixar a firma Inocêncio & Irmão. O caixeiro explicou que deixava o emprego espontaneamente e não por motivos que o forçaram a tomar tal resolução, por isso agradecia “aos mesmos senhores, principalmente ao digno sócio José Inocêncio, as maneiras delicadas com que sempre [o] tratou”.197 Esta declaração indica dois aspectos importantes do cotidiano
dos caixeiros: O primeiro se refere ao cuidado de não romper com os patrões. Ou seja, ao menos publicamente, não se fechava nenhuma porta, por assim dizer. Pelo contrário, houve por parte de Júlio Barata a intenção de mostrar que havia construído com os patrões uma relação de trabalho tranquila durante os sete anos que permaneceu como caixeiro daquela casa. Fez questão de dizer que saía voluntariamente, sem motivos, uma vez que isso poderia atestar a sua própria competência e cordialidade. Aqui não há o entendimento de que os caixeiros eram trabalhadores resignados ou que não se indispunham com os patrões. Destacam-se, outrossim, as formas múltiplas de tentar construir ascensão profissional e social numa cidade pequena, majoritariamente comercial, com poucas chances de qualificação profissional. O segundo aspecto que se destaca da publicação é a ênfase no bom tratamento que recebeu dos patrões, mencionando “maneiras delicadas”. Indiretamente isso se confrontava com os modos arbitrários tão usuais no trato com os empregados livres e com os cativos no século XIX.
195 OLIVEIRA, Francisco de Assis Santos de. Os Caixeiros no Ceará: Trabalho e Educação na Revista Phenix
– 1891-1916. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005.
196 RODRIGUES, Eylo Fagner Silva. Os Párias da Modernidade na Terra da Luz: “a gente ínfima de Fortaleza
no processo de regulação da mão de obra urbana (1877-1912). 2018. 402 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2018.
Outra indagação deste trabalho diante do Arrolamento foi quanto à profissionalização de meninas. Agregadas, assoldadadas, adotadas ou criadas, as meninas e moças eram amplamente encontradas no serviço doméstico. Mais ainda que não seguissem a mesma escala, outras atividades fora do trabalho da casa ou a este atrelado também empregavam as crianças pobres da segunda metade do século XIX. Uma dessas profissões que se mostrou significativa foi a de costureira. Com base no arrolamento, 80 meninas menores de 18 anos apareceram como costureiras em 1887, excluídas as garotas apontadas como modistas. Fazia parte da boa formação de uma mulher os trabalhos que envolviam costura, bordados e outras “prendas” femininas nos oitocentos – a exemplo do que era ensinado pelas irmãs vicentinas às educandas e às órfãs do Colégio da Imaculada Conceição. Entretanto, muitas vezes essa atividade não ganhava caráter profissional; representava, no caso das famílias pobres, uma tática de fazer durar mais as vestimentas com consertos, emendas ou ajustes em roupas doadas, geralmente feitos à mão. Quando, porém, esse ofício passou a constar como profissão entre meninas pobres, verificou-se uma possibilidade de qualificação e de ganhos – ainda que modestos – monetários e simbólicos. Obviamente, grande parte dessas garotas jamais chegaria a modistas de seu tempo e nem abriria seu próprio ateliê, mas seus saberes e técnicas as distinguiam – como no caso dos caixeiros – de outras trabalhadoras consumidas pelo emprego doméstico. Não é possível precisar os locais de trabalho dessas meninas, mas por alguns indícios, pode-se supor que nem todas trabalhavam em sua própria casa. Leopoldina tinha 16 anos e era a única costureira de sua família. Ela era filha de criação do pedreiro Francisco das Chagas, casado com Rozalina Pereira, que não trabalhava, ao menos naquele momento. Na choupana localizada na parte sem calçamento da rua Senador Pompeu, havia outras quatro crianças: os filhos do casal – Severino (3 anos) e Maria (3 meses) – e dois sobrinhos – Vivência (uns 11 anos) e Otero (7 anos).198 De todos eles, a única que sabia ler era Vivência. Estaria a menina na escola pública? Leopoldina não sabia ler porque tivera de se ausentar da escola para ajudar no sustento de seus irmãos e primos? Nessa choupana com crianças tão pequenas e somente duas pessoas trabalhando, fica fácil imaginar que a jovem Leopoldina não tinha sua própria freguesia de costuras e prestava seus serviços para outra costureira ou modista da cidade.
Difícil encontrar costureiras do século XIX na historiografia nacional, sua visibilidade se relaciona ao momento de ingresso nas fábricas no século seguinte. Os trabalhos
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de pesquisa que mencionam essas profissionais nos anos de 1800 estão, na maioria das vezes, centrados na história da indumentária, na modernização das cidades em belle époque e no consumo. Entretanto, a apreciação de alguns eventos históricos oportuniza o começo de uma reflexão sobre esses trabalhos miúdos, que, como ocorre com o trabalho doméstico, é pouco visitado. Foram as transformações na moda, ou melhor, nos códigos de comportamento, sociabilidades e usos do espaço público no século XIX que fizeram ampliar a demanda por costureiras e alfaiates. A preocupação com a indumentária – traço inequívoco de distinção social – ampliou um comércio de roupas e acessórios de beleza, no qual a influência francesa no Brasil se fez evidente. Com a instalação da Corte no Rio de Janeiro, uma série de transformações nas manifestações culturais e espaços de entretenimento da elite imperial atraiu modistas francesas, pintores, alfaiates renomados. O comércio da moda na capital do Brasil repercutiu nas demais cidades, incentivando a produção de vestimentas e a importação de tecidos e modelos europeus.199
Ao passo que aumentava a demanda por roupas e acessórios, cujo consumo fora bem estimulado pela imprensa, o trabalho de modistas e alfaiates mais requintados foi sendo cada vez mais valorizado. Entretanto, o consumo desses produtos atendia a uma parcela muito pequena da população brasileira. Mas o consumo não se restringe à aquisição de peças caras, fora do alcance daqueles de ganho moderado. A circulação e o desejo por esses produtos estão intrinsecamente ligados à sua importância e distinção. Com isso, réplicas mais baratas e matéria-prima mais modesta passaram a acompanhar, ou tentar acompanhar, os padrões mais elevados do “bem vestir”. Era aí que entravam as costureiras. Seu trabalho atendia, longe dos ateliês badalados das modistas registradas, uma camada remediada da população. Obviamente, os pobres ainda ficavam bem distantes desse tipo de consumo, ao menos materialmente falando.
Valéria Brandini, em estudo que abordou a moda enquanto “corpus comunicacional”, apresentou uma reflexão sobre as modificações materiais impulsionadas pelo capitalismo que implicaram em novos códigos de moda e padrões de feminilidade ao longo do século XIX. Dialogando com Richard Senett, a autora indicou as mudanças da vida em público, que de alguma forma, representaram certa “despersonalização dos trajes”. Esse fenômeno de massificação das vestimentas, paradoxalmente, forjava o luxo e fazia emergir a alta costura, cuja finalidade era oferecer unicidade e autossatisfação à elite, numa demanda veemente de se distanciar do proletariado. No final do século XIX, o crescimento da Alta Costura na Europa
199 CINTRA, Mariana de Paula. Modas e modistas: o comércio de roupas francesas no Rio de Janeiro na primeira
(peças assinadas, técnicas, preços altos, renome, objetivos) ocorreu concomitantemente a produção fabril de roupas para trabalhadores, especialmente na Inglaterra, França e Estados Unidos. Ainda segundo Brandini, a ideia de modernidade e vida urbana – momento em que as mulheres ricas ganharam vida pública – inferiu no vestuário feminino, reformulando os gostos e criando tensões em torno da ideia de moralidade no vestir. Sobre isso, ela apontou o advento das crinolinas de metal como marco da moda urbana europeia na década de 1860. A armação de metal era usada para dar mais volume às saias, sem a necessidade de muitas anáguas por baixo. Sem delongas sobre os efeitos estéticos ou preferências femininas nesse período, o interessante é observar outro fenômeno que acompanhou as mudanças na moda: o aparecimento