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Lumina Configuration Utility

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6.9 Lumina

6.9.3 Lumina Configuration Utility

Se considerarmos as três dimensões da sedução proposta por Renato Mezan (1988), a ética, a estética e a política, o D. João de Molière, mais uma vez, cumpre integralmente estas acepções, pois assume-se como um embusteiro, vil, hipócrita, maquiavélico, ainda que sem a premeditação e o racionalismo que encontramos por exemplo no protagonista d´O Diário de um Sedutor de Kierkegaard ou do Burlador de Sevilha de Gabriel de Lima. Por outro lado, a dimensão estética da sedução leva a mulher seduzida a descobrir, como resultado do fascínio que o sedutor lhe desperta, experiências positivas e sensações agradáveis que até então ela desconhecia. Ultrapassado o enquadramento político-religioso da Contra- Reforma e a obediência a uma moral ajustada ao meio social e temperamento mediterrânicos, que encontramos na versão fundadora de Tirso de Molina, o sedutor de Molière assume também uma dimensão política. D.João protagoniza o papel do libertino que se insurge contra as leis dos homens e de Deus, numa ambição desmedida e de permanente desafio, sem nunca manifestar qualquer indício de arrependimento (ao contrário do D.João de Tirso que acredita que todos os pecados serão

redimidos por um Deus misericordioso que ele, contudo, e conscientemente, desafia).

No seu ensaio A sombra de Don Juan: a sedução como mentira e como iniciação, Renato Mezan (1988), partindo dos sentidos do verbo seduzir, derivado do latim «seducere», dado pelo Dicionário Aurélio, apresenta as diferentes acepções do termo, «desencaminhar», «enganar ardilosamente», que significa no fundo desviar do caminho que conduziria ao Bem e à Verdade, e ainda seduzir com o sentido de «desonrar», «recorrendo a promessas e encantos» que pressupõe a ideia de algum calculismo na burla e no engodo. Assim, a mulher seduzida deveria acreditar na promessa do galante conquistador, autêntico mestre da palavra. Uma vez descoberta a tramóia, já só resta à vítima a desonra ou a morte. É de realçar que da única vez em que D.João arquitecta um plano de conquista que passa pela acção e pela força, e já não pela palavra, esse intento sai-lhe gorado, quase morrendo afogado com o seu criado:

D.João: Falhámos o nosso golpe, Esganarelo, e esta borrasca imprevista afundou-nos com o barco o projecto que

tínhamos planeado; mas, para dizer a verdade, a camponesa que acabo de deixar conserta esta desgraça, e descobri nela encantos que apagam do meu espírito toda a pena que me fazia o mau sucesso da nossa empresa. Esse coração não me pode escapar, e já fiz disposições para não ter de sofrer

muito tempo com os suspiros que deito.

Esganarelo: Senhor, confesso que me espantais. Mal nos livrámos de um perigo de morte, em vez de agradecer ao Céu pela compaixão que mostrou para convosco, logo voltais a trabalhar para atrair a sua cólera com as vossas fantasias habituais e os vossos amores crim...Paz! Que patife tu és! Não sabes o que dizes, e o amo sabe o que faz. Vamos.

(Molière, 2006: 46-47)

Não deixa de ser curioso o aparte do fiel servidor, Esganarelo, autêntico representante da consciência e dos valores morais da sociedade burguesa do século XVII que, deslumbrado com o atrevimento do amo, o alerta para as consequências de uma possível punição divina, e só a auto-censura o impede de prosseguir nos seus juízos de valores, que são actos assertivos de condenação relativamente ao comportamento sedicioso e ao carácter malévolo, diríamos mesmo demoníaco, de D.João.

Na dimensão estética, a sedução, vista genericamente como uma forma ardilosa de iludir, concebida, como já dissemos, como uma forma de desviar de um caminho que supostamente conduziria ao Bem e à Verdade, é ainda designada no referido Dicionário Aurélio pelos termos «atrair», «deslumbrar», «fascinar», «encantar», verbos que encerram em si significados positivos, pois sugerem o prazer extremo, sensações corporais e sentimentos ignorados pelas mulheres seduzidas. Ainda que o fascínio e o encantamento possa envolver experiências de medo ou de angústia perante o perigo de se sentirem seduzidas. Mezan dá como exemplos antagónicos o efeito de encantamento e perdição que a sereia provoca nos marinheiros e, por outro lado, o som emitido pelas ambulâncias, ou outros carros de emergência, a polícia ou a “sereia” dos faróis e dos portos que orientam os navios que são, indubitavelmente, vistos como algo de positivo:

Tanto é forte esta ambiguidade constitutiva da sedução, que sua dimensão estética a aparenta por um lado à sexualidade e por outro à morte, por um lado ao prazer e deleite, por outro ao risco da indiferenciação inerente a todo prazer forte demais.

(Mezan, 1988: 89)

A acepção política de seduzir tem em conta os outros sentidos do verbo, ou seja, «levar à rebelião e subornar para fins ilícitos sediciosos», práticas que a personagem que Molière criou bem conhece. De facto, D. João assume-se como uma figura libertina e subversiva que desafia o status quo da sua época, a ordem social e religiosa. Como nenhuma outra, ele associa sedução à perversão e à hipocrisia:

D.João: Como? Parece que ainda duvidais da minha sinceridade! Quereis que faça promessas terríveis? Que o Céu...

Carlota: Meu Deus, qu´eu não preciso de jures, bou acuarditar´em bós. D.João: Dai-me então um beijinho por penhor da vossa palavra.

Carlota: Oh! Sinhore, esperainde por adepois de nos casar-nos; adepois Atão bou-bos beijar à bossa buntade.

D.João: Pois bem! Bela Carlota, quero tudo o que quiserdes; entregai-me só A vossa mão, e suportai que, por mil beijos, lhe manifeste o êxtase Em que estou...”

(Molière, 2006: 52-53)

Como bem observa Otto Rank (1932), o mito de Anfitrião revela-se na acção de D.João que, afirmando-se como ser superior, equiparando-se inclusive a Deus, tem a plena convicção da sua vitória face aos adversários, simples mortais. D.João não elimina os homens para lhes conquistar as mulheres, antes pelo contrário, compraz-se num prazer maquiavélico e sem escrúpulos, ao reivindicá-las como suas, de direito. Isso faz dele, na opinião de Rank, uma adaptação moderna de um mito muito antigo, uma espécie

de «Totem Fecundador», mas também o aproxima de um vulgar criminoso.

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