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O Bailado é um dos muitos textos escritos por Flávio de Carvalho durante toda a sua vida. Formam uma continuidade produtiva e rompem com o estilo único, é um trabalho aprofundado dia a dia numa pesquisa que não se esgota.

São narrativas de viagens, ensaios, crônicas, teatro e crítica de arte, formando uns aos outros e sendo formados por outros textos, outras obras de arte e relações sociais, integrados num conjunto de informações que ajudam a explicar a complexidade de suas obras, através de interpenetrações, associações, citações e análises numa ampla rede de relações entre os objetos utilizados.84

Seus textos respondem às “cisões [...] daquilo que, com suas múltiplas faces, conhecemos como modernidade”,85

dando soluções efetivas para os temas e formas em questão. Entram nas fissuras do mundo moderno alargando-as e preenchendo este espaço com uma visão crítica e criativa.

Neles preocupa-se em resolver os problemas relativos às “intrincadas dicotomias [...] civilização/barbárie, racionalidade/irracionalidade, deus/homem, religião/lógica, vida/morte, humanidade/animalidade [e] arte/vida”,86

rompendo com as prisões criadas por elas e, conseqüentemente, batendo de frente contra as regras instituídas.

A crônica, praticamente diária nos jornais, é um dos mais vigorosos meios para sua ação. O texto não é uniforme, a linguagem é coloquial, os temas são complexos e não há uma descrição linear do cotidiano, integrando ao fato narrado impressões imediatas, análises sistêmicas e obras de arte. A narrativa deixa espaços em branco, como podemos ver na “Epopéia do Teatro da Experiência e o Bailado do Deus Morto” (ANEXO C).87

O quadro do objeto narrado não é completo, transparecendo o silêncio, do qual afloram os ruídos do mundo. O texto fica inteiro com a participação do leitor,88 que a cada vazio ou corte agita suas idéias para formar um quadro mais claro, criando figuras e imagens que comportem os gestos e os sons do que é contado ou lhe completem o ambiente. O não dito vai sendo esclarecido. As diversas partes do texto são unidas pela experiência do leitor para dar sentido à narrativa. O leitor aproxima-se da obra, por reconhecer-se nela, e dela toma distância, por compreender as diferenças que os separam. A interação entre as pessoas no mundo é mediada pela obra e sua explicação.89

A “Experiência nº 2”, um ensaio escrito a partir da experiência “realizada sobre uma procissão de Corpus Christi”, em que atacou frontalmente o mito e a mitificação, está na base de sua crítica contra deus. Envolvida pela crônica e enredada nas análises antropológicas e sociológicas sobre religiões e mitos, narra e analisa sua intervenção na procissão e a reação das pessoas, envolvendo o leitor na crítica contra o mito religioso, responsável por uma certa imobilidade do homem diante da vida.

Ribeiro pergunta se a “Experiência nº 2” é “brincadeira ou iconoclastia”.90

Aparentemente não responde dizendo que fica a ironia, mas esta é uma resposta, bastante provisória e provocativa. Na verdade Flávio de Carvalho tem uma relação muito clara com as religiões e isto é evidenciado quando, a respeito da “conferência-diálogo” na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo “Braz Cubas”, de Mogi das Cruzes, em 1972, diz a seu amigo: “Schaeffer, os estudantes não ficaram com a

84

Sobre a ampla rede que forma a obra de arte ver Becker e Panofsky.

85 Freitas. 1999. in Mattar. p. 60. 86 Chiarelli. 1999-a. p. 54. 87 Carvalho. 1973. p. 101-109. 88

A partir da discussão acumulada sobre o processo de produção, circulação e consumo e fruição da obra de arte, Jauss desenvolve o que ficou conhecido como teoria ou estética da recepção.

89

Cf. Macherey, p. 73-94.

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impressão que eu seja contra a igreja? Explique a eles, por favor, que pessoalmente sou ateu, mas respeito profundamente qualquer sentimento religioso e não desejei ofender ninguém.”91

Assim, fica respondida uma parte da pergunta, a experiência foi um ato de iconoclastia, com vistas a investigar o comportamento das massas religiosas diante da crítica contra seus mitos e ritos. Por debater crítica e publicamente o ícone, sua ação é respeitosa e mostra o compromisso social do artista. O respeito não comporta a ironia, embora não descarte a brincadeira, esta leveza necessária para a crítica séria.

O livro “Os Ossos do Mundo” é uma narrativa de viagem, com descrições e interpretações de povos e países, nas quais procura esclarecer as formas de convivência, os usos e costumes, as sensibilidades e as emoções.

“A moda e o novo homem” é uma série de artigos sobre a história da moda do vestuário92 e tem como parte integrante das discussões o “New Look”, e sua conferência sobre traje e trópicos. Neste conjunto analisa o papel do indivíduo que soluciona os problemas da moda. Mais que uma história e uma roupa, cria uma forma alternativa de pensar a roupa e suas relações com o corpo.

“A origem animal de deus” é um ensaio sobre desejos e instintos básicos do homem. Uma observação reflexiva sobre a natureza humana e seus condicionamentos sociais, na qual desenvolve a concepção do teísmo ser comodismo e paralisia contra o progresso, devendo ser resolvido pela vida, considerada uma tempestade de movimentos. Deus deve ser destruído, porque é um animal feroz e temido que impõe melancolia e paralisia, e a forma encontrada para isto é o sexo, fonte da vida, do prazer e da solução e liberação dos desejos e instintos.

Além destes textos, e à maneira do gráfico do “New Look”, Flávio de Carvalho faz panfletos curiosos para esclarecimento público. Para a inauguração das casas da Alameda Lorena, em São Paulo,

“a 6 de junho de 1937”, [...] convida a imprensa para um simpático coquetel, cujo resultado se mostra o mais eficiente meio de divulgação de seu recente trabalho. Para tanto, pragmático, manda confeccionar

um mirabolante panfleto explicativo sobre o ‘funcionamento’ de suas casas.”93

Trata-se de uma “bula” indicando suas qualidades e o modo de usá-las (ANEXO D).94 Em 1938, escreve “A história do pé...”, um panfleto que distribui nas ruas quando perguntado sobre uma “caixa-sapato” que usou no pé atropelado por um ônibus.95

No caso da “bula”, aproxima o universo comum das receitas ao mundo da arquitetura, estabelecendo uma outra maneira de ver a casa, possibilitando ao homem comum, não iniciado no mundo especializado das construções civis, o acesso à discussão sobre sua moradia. Com o panfleto da caixa-sapato transforma os acidentes diários em objetos relevantes para a história, que deve ser escrita e publicada.

91

Schaeffer. 1974. p. 4.

92

Ver história da moda de Renato Sigurtá, que tem muitos pontos convergentes com a história da moda de Flávio de Carvalho. Sigurtá. 1989. p. 21-35. 93 Toledo, 1994. p. 322. 94 Idem. p. 322-325. 95

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