Uma bibliografia é uma (re)construção de um conjunto previamente deter- minado (reunir o que foi publicado sobre determinado assunto). Ao contrário de uma obra historiográfica, muito seletiva e sempre narrativa e, portanto, com uma consciência visível (no texto) de valores e ideologias, uma bibliografia é uma edificação relativamente asséptica que tende a ser exaustiva (no desejo de quem a faz e na expectativa de quem a lê!), idealmente visa mesmo esgo- tar a informação existente.6 Apesar da diferença de medium e da grandeza
do universo envolvido, o que Luís de Pina disse em meados dos anos 80 a propósito da Bibliografia Portuguesa de Cinema de Jorge Pelayo, vale, como princípio, para o nosso projeto: “O critério seguido quanto à inclusão das obras foi aquele que nos tem norteado e que Henri Langlois sempre defendeu para as cinematecas: tudo tem interesse.” (Pelayo s.d.: 7).7 É inevitável, contudo,
6 Em regimes ditatoriais de partido único, em que a informação é fortemente controlada e não
há liberdade de expressão e publicação, uma bibliografia tenderá a rasurar o que não se quer que a memória recorde.
7 Em relação ao desideratum da exaustividade, o próprio Boletim de Bibliografia Portuguesa,
no seu primeiro número, publicado em 1937, mas respeitante ao ano de 1935, escreve na sua Ad- vertência: “Deveria este volume registar toda a produção biblíaca dos prelos portugueses durante o ano de 1935. Não posso, porém, afirmar que assim suceda rigorosamente, pois suspeito de que, umas vezes por má compreensão das disposições que regulam o Serviço de Depósito Legal,
trod o a a bibliografia cr tica da trad o d lit rat ra que o imperativo da exequibilidade em tempo útil se tenha de sobrepor ao so- nho da completude. Neste sentido, expõem-se de seguida alguns princípios e critérios que definem o corpus a bibliografar.
Nem sempre o objeto a ser bibliografado é problemático, ou pelo menos nem sempre os autores das bibliografias revelam essa consciência. Assim, a
Bibliografia do Humanismo em Portugal no Século XVI, por Isaltina Martins
(1986), não procede a nenhuma problematização do corpus a incluir. Do mes- mo ano, a bibliografia de Correia Fernandes sobre a literatura portuguesa em Espanha entre 1890 e 1985 não parece ter um objeto problemático (Fernan- des 1986).
Ora, a tradução é um objeto verdadeiramente problemático, que carece de definição consensual.8 Mantendo-nos apenas no campo da tradução de
literatura, verifica-se a existência, entre outros, de “versões”, “versões livres”, “adaptações”, a que devemos acrescentar a modalidade muito comum entre nós da tradução indireta e, sobretudo, da pseudotradução, ou seja, daqueles textos que são apresentados e consumidos como traduções sem o serem ver- dadeiramente. Este termo foi difundido a partir de Anton Popovič nos anos 70, que o entendeu como “tradução fictícia”. Susan Bassnett, mais recentemente, tentou uma tipificação para o subcampo abrangido pela pergunta “When is a translation not a translation?”. Bassnett apresenta, para a cultura inglesa, exemplos de pseudotraduções propriamente ditas, traduções fictícias (que distingue daquelas), autotraduções, traduções inventadas, o caso da literatura de viagens e outros. Ou seja, mostra como as culturas, por razões e meca- nismos muito variados, leram como traduções textos (alguns muito influentes) que “tecnicamente” não o são (Bassnett 1998: 25-40). Mais uma vez, quanto a este ponto, julgamos que Gideon Toury propõe uma solução convincente, ao falar em “assumed translations”: “all utterances which are presented or regar- ded as such within the target culture, on no matter what grounds” (Toury 1995: 32). Ou seja, também nós consideraremos traduções de literatura aquelas outras por desleixo, algumas oficinas, confiando nas dificuldades da fiscalização, deixaram de remeter certas obras. Mas, apesar da contrariedade indicada, figura no Boletim a quase totalidade das espécies impressas em 1935.” (o diretor do Depósito Legal, que assina esta advertência, é C. A. Galvão Simões.)
8 Sobre a dificuldade em definir tradução, Toury lembra as dificuldades em “fixing once and
for all the boundaries of an object which is characterized by its very variability: difference across cultures, variation within a culture and change over time” (Toury 1995: 31).
Misérias e Esplendores da Tradução no Portugal do Estado Novo
obras que foram postas no mercado como traduções (responsabilidade das editoras!) e como tal lidas pelos leitores. Dentro da orientação básica que Toury deu aos Estudos Descritivos de Tradução – a primazia concedida ao contexto da cultura de chegada para o estudo das traduções – é de sublinhar ainda a sua formulação expressa de que as traduções são “factos da cultura alvo” (Toury 1995: 23ss.). Adaptando a ideia à nossa bibliografia, consideraremos um livro um facto, ou seja, incluiremos apenas as traduções publicadas em livro (isto é, excluímos as surgidas em periódicos, ou textos para representa- ções teatrais não publicados em livro).9
Um segundo patamar de seleção diz respeito ao conceito de literatura a considerar. Não cabendo aqui uma discussão aprofundada do assunto, op- tou-se por um conceito funcional, e não ontológico, de literatura, o que signi- fica que a espécie de escrita que a literatura é não se distingue das outras por qualquer característica “essencial”, mas pela sua função cultural. Por outras palavras: “a piece of writing is ‘literature’ not because it possesses certain characteristics that other pieces lack, but because its readers regard it – for a variety of reasons – as literature.” (Patterson 1995: 256). Ou seja, há uma nítida convergência entre a proposta de Toury para a definição do objeto tradução e uma conceção funcional de literatura. Por que não falar em “assumed literatu- re”? De facto, as convenções da língua portuguesa já preveem que se fale em “literatura policial” ou “literatura de ficção científica”, “romance de capa e es- pada”, “romance de aventuras”, “literatura de cordel”, etc., sinalizando o facto de que a substância do produto é a literatura – o que subsiste na designação genérica de “paraliteratura”. É certo que a delimitação do nosso objeto não fica com isto inteiramente resolvida, pois que há que ter em conta subgéneros de grande ambiguidade como as biografias, ainda por cima muito populares. Para excluir a biografia do nosso corpus recorremos em primeira mão à Clas- sificação Universal Decimal, que diferencia numericamente a literatura e as biografias.
Com estes pressupostos foi já feita, no âmbito do referido projeto, uma primeira recolha de traduções de literatura entre 1935 e 1974, recorrendo às seguintes fontes principais: o Boletim de Bibliografia Portuguesa (cujo primei- ro volume saiu em 1937, sobre o ano de 1935), o Index Translationum (da
9 Sobre a problematização deste “facto” – um livro, uma tradução – ver infra sobre as conta-
trod o a a bibliografia cr tica da trad o d lit rat ra responsabilidade da UNESCO), alfarrabistas vários e algumas bibliotecas par- ticulares. Foram reunidos perto de 16 700 títulos de cerca de 3 800 autores e respetivos tradutores, sempre que foi possível apurar este dado. Estes nú- meros incluem cerca de 1500 títulos, a que se fez corresponder uma entrada, editados em 80 antologias temáticas.10
Se recordarmos que o V volume da obra de Gonçalves Rodrigues termina em 1930, verifica-se que o período de 1930 a 1935 estava por tratar. É a esta tarefa que o grupo de investigadores no nosso projeto se tem vindo a dedicar desde 2007. Carecendo o trabalho de fontes organizadas, a recolha está a ser feita a partir de fontes primárias como a PORBASE e periódicos (jornais e revistas, selecionados segundo critérios de representatividade na vida política e literária portuguesa).