P ARTIE 1 P LANIFICATION VS U RBANISATION
C HAPITRE 2 D ELHI : UNE VILLE PLANIFIÉE DÉPASSÉE
2. L ES COLONIES NON AUTORISÉES : L ’ ENTRE DEU
2.3. L A DIFFICILE CONSTRUCTION D ’ UNE POLITIQUE DE RÉGULARISATION
Já foram assinalados alguns dos elementos que constituem uma aproximação política à
KU. Fizemos referência à problemática da unicidade e da possibilidade da emergência de um
sentido a partir dela. Pareceu-nos interessante retomar a leitura de Baeumler por dois motivos. Primeiramente, nela se ressalta o fato de que na KU Kant não somente depara com a alogicidade do singular, mas tenta (e segundo o intérprete, consegue) lhe dar uma resposta dentro do marco do racionalismo. Kant pertenceria em sentido pleno ao século XVIII, quando o irracionalismo ainda era um problema. “O século XIX não conhece mais o irracionalismo: ele é puramente irracional. O século XVII não o conhece ainda: ele é puramente racionalista”64. O interessante, aqui, não é tanto a adequação da tese de Baeumler do ponto de vista da história das idéias65, mas o intuito de colocar na gênese da KU uma questão de extrema relevância ontológico-política: como pode uma instância que perdeu os laços que a fazem comum com outras integrar-se numa universalidade? Quando a ordem política ou o laço social já não é espelho de uma ordem ontológica, i.e., quando a mediação não é dada, mas aparece um indivíduo sem tradição – paradigmaticamente, o sujeito do Discurso sobre o
método de Descartes – enfrentado a um universal, a mediação entre particular e universal é
64BAEUMLER. Le problème de l’irrationalité, p. 28.
65 De fato, consideramos que por momentos Baeumler leva um pouco além do razoável sua intenção de ligar a
KU com a tradição alemã, retirando quase todo o valor à influência, por exemplo, da tradição inglesa, a qual
exerceu um papel não desprezível para a convicção kantiana de que o gosto não podia ser pensado como uma faculdade de conhecimento. Nesse sentido, “...a influência dos ingleses leva Kant a falar sempre do gosto como uma faculdade distinta da faculdade de conhecer...” DELBOS. La Critique de la faculté de juger, p. 512.
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uma questão política66. Em segundo lugar, como vimos, esse é o problema que Arendt levanta na sua aposta pela estetização do político, mas agora desde uma perspectiva pós- metafísica, ou melhor, uma ontologia des-essencializante. Uma das perguntas com as quais entraremos na terceira Crítica será, portanto: como, a partir do refletido aí por Kant, pode-se pensar uma mediação politicamente relevante entre particular e universal? Por que Arendt vê ali uma resposta original?
A abordagem da terceira Crítica é extremamente complexa. Não somente pela densidade filosófica da obra, que faz qualquer aproximação irremediavelmente incompleta, mas também porque se trata de uma obra cuja unidade é prima facie problemática. Qual é o tema próprio da KU é uma das mais controversas questões da fortuna crítica sobre este texto. Encontram-se abordagens genéticas que ressaltam como é a problemática do gosto que dá forma à obra67, e (às vezes baseadas nesse ponto, às vezes não) tendem a separar a problemática do juízo estético daquela do juízo teleológico. Outras ressaltam o enfoque epistemológico, afirmando que o problema principal que Kant formula é o do conhecimento científico, sendo a faculdade do juízo a formulação que permite a solução crítica do problema epistemológico68. Também se pode ler a obra a partir da intenção sistematizadora de Kant e procurando, portanto, compreender como esse texto permite uma mediação entre as duas Críticas anteriores. Imediatamente ligada a essa questão, encontra-se a problemática da
66 Paralelamente ao aparecimento de um indivíduo pensado sem tradição, pode-se pensar o momento fundador da problemática moderna na crise da mediação pontifical, única ponte entre o particular e a auto-mediação do universal na pessoa de Cristo.
67 A tais leituras faremos referência mais adiante. Cf. infra, nota 102.
68 Uma leitura paradigmática nesse sentido pode ser encontrada em GARRONI. Estetica ed epistemologia. Apoiando sua leitura principalmente na Introdução Definitiva à KU (sobretudo no § IV), Garroni afirma que é a abordagem epistemológica a que possibilita uma visão mais íntegra das duas partes da obra. Assim, o “problema” principal da KU seria o da finalidade, entendido como o problema epistemológico aberto pela possibilidade de um conhecimento da natureza. “Não a sistematicidade (e tampouco, a rigor, o problema do
gosto ou da vida), mas o problema do conhecimento científico é a matriz teórica da CJ e de suas introduções” Ibid., p. 24. Os problemas estéticos e da finalidade da natureza seriam secundários (e derivados) em relação a
esse núcleo fundamental. Assim, a KU se ordenaria da seguinte maneira: 1) colocação do problema epistemológico da finalidade (duas introduções); 2) tratamento do princípio da finalidade enquanto se faz dele um uso exclusivo (Crítica do juízo estético); 3) tratamento do princípio de finalidade enquanto se faz dele um uso particular (Crítica do juízo teleológico). Cf. Ibid., p 18. Uma conclusão interessante, que apenas mencionamos aqui, à qual chega Garroni, é a afirmação das raízes estéticas de todo conhecimento científico. E mais, “assim é que um juízo de conhecimento não pode não ser em algum sentido também um juízo de gosto”
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mediação entre a natureza e a liberdade, pólos de uma dualidade que se tinha configurado naquelas obras69. Sem nenhuma intenção de exaustividade, não se pode deixar de mencionar a desembocadura metafísica da obra, a qual culmina com um esboço da possível metafísica prática que se fundamentaria no tratamento kantiano da faculdade do juízo70. Finalmente, tem-se afirmado também que a obra não é mais que um patchwork de temas que Kant tinha pendentes 71.
Todas essas leituras têm um apoio textual considerável e, mesmo se algumas se contrapõem em alguns momentos, não são todas elas excludentes. A ênfase, porém, em alguma das abordagens mencionadas, dá à obra kantiana uma face completamente diferente. Ante tal panorama, a nossa decisão interpretativa será abandonar desde o começo a intenção de dar inteligibilidade à obra como um todo. Não nos perguntaremos sobre a unidade da KU. Tampouco tentaremos abarcar na leitura todos os temas que Kant coloca para a reflexão. Nossa estratégia consistirá, antes, em analisar isoladamente algumas das problemáticas específicas tematizadas ali e as respostas kantianas a elas. Corremos o risco de desfigurar a letra ao isolar o problema, e de superpor leituras excludentes, dando por resultado uma visão esquizofrênica. Cientes disso, confiamos, porém, em poder escapar ao perigo contextualizando o problema quando for preciso.
Desta forma, pretendemos menos esclarecer o sentido (nem sequer o espírito) da obra do que somente recolher dela alguns elementos que sejam enriquecedores para pensar os dilemas filosófico-políticos que abordamos com a leitura de Arendt. Serão, portanto, algumas
69 Para uma leitura canônica apoiada neste enfoque e no resultante interesse prático da KU, cf. DELBOS. La
philosophie pratique de Kant, pp. 508-599 (cap. VI: “La Critique de la faculté de juger”).
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Dando um passo a mais, Lebrun chega a afirmar que o que outorga unidade à obra é a necessidade da metafísica para a efetividade da razão prática: “Se a faculdade de julgar é uma ponte lançada entre razão teórica e razão prática, é essencialmente porque ajuda a razão prática a construir a idéia de Deus, indispensável ao exercício desta.” LEBRUN. Sobre Kant, p. 108.
71 Embora a tese segundo a qual a KU seria um conjunto de “sobras” seja muito frágil, a patchwork theory, fortemente criticada, entre outros por Paton, tem, de fato, sustento em rigorosos estudos filológicos sobre os manuscritos de Kant. Para uma breve e interessante discussão sobre esse ponto cf. TERRA. Reflexão e sistema: as duas Introduções à Crítica do Juízo, 11-21.
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das indicações que a própria filósofa sugere as que servirão de balizas para nossa análise. Adentramo-nos então, finalmente, na análise da primeira parte da obra: a “Analítica do belo”.