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Após a rodada de frequência de uso no GoldVarb 2001 – a qual nos mostrou apenas o percentual do padrão de distribuição de todas as variantes linguísticas competidoras para dativo de segunda pessoa, de acordo com cada variável independente apresentada ao longo deste capítulo – observamos, como mostrado por meio do gráfico 1, que enquanto a variante preposição + você sobe a produtividade no decorrer do tempo III, as demais concorrentes entram em declínio, o que aponta para uma mudança em curso na direção do você preposicionado.

Com base em tal constatação, fizemos uma nova rodada, confrontando a/para/de/em + você/tu (as formas preposicionadas) às demais variantes linguísticas concorrentes, buscando identificar quais variáveis atuavam como principais condicionadores da mudança. Para isso, tivemos de fazer alguns amálgamas para eliminar knockouts. Logo, levamos em conta apenas as seguintes variáveis para essa rodada binomial de regra variável: o tipo de complemento, se (CI) ou se (CO), expostos na tabela 3; a forma de tratamento na posição de sujeito – aqui tivemos de amalgamar os subsistemas pronominais “2” (usuários exclusivos ou majoritários do pronome tu) com o subsistema “3” (usuários de emprego misto dos pronomes tu e você), expostos na tabela 4, versus o subsistema 1 (usuários exclusivo ou majoritário do pronome você); o sexo do escrevente, expostos na tabela 6; os conteúdos presentes nas cartas – tivemos de amalgamar assuntos amorosos e familiares (A e F) e políticos e literários (P e L),

apresentados na tabela 7; a localidade, tabela 8; e a temporalidade, tabela 2. Feitos esses amálgamas e realizada a rodada “binomial’ up and down, o programa selecionou, por ordem de relevância, os seguintes condicionadores: 1º o tipo de complemento; 2º a forma de tratamento na posição de sujeito; 3º a temporalidade; e 4º o sexo dos escreventes. Passemos aos resultados.

1º Condicionador (linguístico): tipo de complemento.

Tabela 9: distribuição e peso relativo das ocorrências das formas em função do tipo de complemento.

Realização Não realização Total PR.

CI 41 – 7,7% 490 – 92,3% 531 0.37

CO 65 – 82,3% 14 – 17,7% 79 0.97

TOTAL 106 – 17,4% 504 – 82,6%

Log likelihood = - 181,288; Significance = 0,000

Fonte: Autoria própria

Por meio da tabela 9, fica ainda mais fácil de observar o condicionamento exercido pelo complemento oblíquo (CO) no uso da variante linguística a/para/de/em + você/tu. Quando o complemento dá-se por meio de CI (verdadeiro objeto indireto), aparecem apenas 41 dados, com a variante preposição + você, das 531 ocorrências neste tipo de relação gramatical. Esse contexto morfossintático restringidor da mudança em curso em favor do paradigma de você, encontrado nas cartas do Nordeste do Brasil, nesta pesquisa, está alinhado com o encontrado em pesquisas anteriores (cf. LOPES, 2011; LOPES; CAVALCANTE, 2011; MOURA, 2013; GALVES et AL, 2016), como podemos ver em Lopes (2011),

os contextos morfossintáticos favorecedores de formas relacionadas ao pronome original tu são: pronome-complemento sem preposição (te), verbo não-imperativo (sujeito nulo com marca desinencial de segunda pessoa) e determinante possessivo (teu/tua) (LOPES, 2011, p. 373). [grifo nosso].

Por seu turno, quando o tipo de complemento é um (CO), ocorrem 65 dados das 79 ocorrências. Ou seja, quando a complementação indireta dá-se por meio de (CO), registra-se PR. de (0.97) preposição + você. Este condicionamento também coincide com o atestado em outras pesquisas como em Lopes (2011),

observa-se ainda que os contextos favoráveis a formas relacionadas ao inovador você são: a forma imperativa subjuntiva (‘mande’, ‘escreva’) com (.90) ilustrado em (1), o pronome complemento preposicionado (.85) como em (2) e o pronome-sujeito pleno (.85) (LOPES, 2011, p. 373). [grifo nosso].

Além da freqência de uso, o peso relativo (PR.) de (0.97) contra (0.37) ratifica o quão significante é esse condicionamento do (CO) em favor da variante preposicionada (preposição + você). Assim, podemos afirmar que é por meio desse complemento que as formas linguísticas preposicionadas estão entrando na complementação indireta. Essa diferença entre os PRs. das formas também mostra que a relação gramatical de complemento indireto (CI) atua como um restringidor à mudança em curso na direção das formas preposicionadas. É nesse contexto sintático que as formas do paradgma de tu vão resistindo ao avanço das formas preposicionadas. Essa resistência se acentua quando o escrevente é integrante do subsistema 2, usuários majoritários ou exclusivos do pronome tu, o que faz das formas de tratamento na posição de sujeito o 2º condicionador mais relevante, como veremos a seguir.

2º condicionador (linguístico): a forma de tratamento na posição de sujeito

Tabela 10: distribuição e peso relativo das ocorrências das formas em função da forma de tratamento na posição de sujeito.

Realização Não realização Total PR.

V 102 – 21,1% 381 – 78,9% 483 0.61

M 4 – 3,1% 123 – 96,9% 127 0.16

TOTAL 106 – 17,4% 504 – 82,6%

Log likelihood = - 266,762; Significance = 0,000

Fonte: Autoria própria

Como já dissemos, para que pudéssemos realizar esta rodada mais específica, tivemos de fazer alguns amálgamas. Para elimiar o knockouts que ocorriam com esta variável independente, tivemos de amalgamar o subsistema 2 (usuários exclusivos ou majoritários de tu) e subsistema 3 (usuários que utilizam os dois paradigmas de segunda pessoa), isso porque a frequência atestada para os escreventes do subsistema 2 deu knockout em relação às variantes preposicionadas. Como vimos na tabela 4, estes escreventes fazem uso praticamente categórico das formas pronominais de segunda pessoa. Observando a relevante diferença entre os PRs. de (0.16 para M) para (0.61 para V), não nos restam dúvidas sobre a força

condicionadora exercida aqui. Isto é, a probabilidade de ocorrer a variante preposicionada entre escreventes do subsistema 1 é quase 4 (quatro) vezes maior do que a de ocorrer entre usuários do amálgama dos subsistemas 2 (T) e 3 (M) [T + M = M], aqui realizado, em cartas privadas nordestinas. Caso não houvesse tal amálgama, o peso relativo seria categórico, confrontando “T” versus “V”. Além disso, se essa disputa entre as formas ocorrerem na terceira faixa de tempo (tempo III), as chances de realização das variantes preposicionadas aumentam, como veremos em seguida.

3º Condicionador (não linguístico): fator temporalidade.

Tabela 11: distribuição e peso relativo das ocorrências das formas em função da temporalidade. Realização Não realização Total PR.

Tempo 3 73 – 34,4% 139 – 65,6% 212 0.59

Tempo 2 27 – 10,7% 226 – 89,3% 253 0.57

Tempo 1 6 – 4,1% 139 – 95,9% 145 0.27

TOTAL 106 – 17,45 504 – 82,6% 610

Log likelihood = - 247,404; Significance = 0,000

Fonte: Autoria própria

Sabemos que o ideal neste caso seria fazer rodadas para cada faixa de tempo aqui estabelecida, tempo I (1900 a 1930), tempo II (1931 a 1970) e tempo III (1971 a 1999). No entanto, dada à escassez de dados para determinadas faixas de tempo, como mostrado no capítulo 3, a rodada teve de levar em conta toda a extensão do século XX. Apesar de a temporalidade não se constituir, de fato, uma variável independente, este fator exerce relevante condicionamento na escolha das variantes preposicionadas. Isto é, à medida que o tempo passa, as formas a/para/de/em + você/tu vão avançando, ganhando o território das demais. Vejamos a escalada das formas preposicionadas, saindo de apenas 6 (seis) ocorrências no tempo I para 73 (setenta e três) no tempo III. Mais uma vez o PR. confirma a tendência probabilística de avanço dessas concorrentes preposicionadas, em relação às demais, registrando uma diferença de (0.30) entre o tempo I e o tempo II. Do tempo II para o tempo III, a fiferença é muito baixa, mas mostra que a probabilidade de ocorrerem formas preposicionadas vai crescendo ao passar dos anos.

Como vimos, essa ascensão vista na temporalidade se potencializa se as ocorrências forem produzidas por falantes do subsistema 1, com PR. de (0.61), e se houver emprego dos

complementos oblíquos, com PR. de (0.97). Além disso, se tais produções forem realizadas por homens, as chances da forma preposição + você ocorrerem ficam ainda maiores, como veremos a seguir.

4º Condicionador (social): sexo do escrevente

Chegamos ao quarto condicionador apontado pelo Goldvarb 2001, por ordem de relevância. O programa nos mostrou que o sexo do escrevente é bastante relevante com PR. de (0.56) para os homens e PR. de (0.24) para as mulheres – diferença de mais de (0.30), conforme resultados apresentados na Tabela 12.

Tabela 12: distribuição e peso relativo das ocorrências das formas em função do sexo do escrevente.

Realização Não realização Total PR.

Homem 99 – 19,6% 405 – 80,4% 504 0.56

Mulher 7 – 6,6% 99 – 93,4% 106 0.24

TOTAL 106 – 17,4% 504 – 82,6%

Log likelihood = - 275,474; Significance = 0,000

Fonte: Autoria própria

Essa matemática nos diz que as chances de ocorrerem a variante mais inovadora preposição + você são muito maiores nos textos produzidos por homens do que nos produzidos por mulheres. Isto é, os homens são mais abertos à mudança linguística em curso, produzindo mais formas preposicionadas. Enquanto isso, as mulheres aparecem como mais conservadoras no emprego das formas pronominais, empregando, portanto, mais as formas pronominais acusativas/dativas, em total consonância com o papel da mulher na mudança linguística, como esclarecem Coelho et al (2016, p. 44), retomando muitos estudos em sociolinguística variacionista:

sexo/gênero. Quanto à variação social relacionada ao sexo/gênero dos informantes, alguns estudos mostram que as mulheres são mais conservadoras do que os homens: em geral, elas preferem usar as variantes valorizadas socialmente. É como se as mulheres fossem mais receptivas à atuação normatizadora da escola. Esses resultados, no entanto, requerem cautela, afinal, os papéis feminino e masculino, nas diversas sociedades, estão, a todo momento, sofrendo transformações. [grifo dos autores].

4.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO

Em suma, pesquisamos como se deu a variação linguística entre as variantes concorrentes te/ti/vos/vós, lhe, elipse, você-tu preposicionados, ocorridas ao longo do século XX em cartas privadas do Nordeste do Brasil, a partir dos estados do RN, do PE e da BA. Investigando a variação, checamos se havia indícios de mudança linguística em curso, mapeando quais são as variáveis independentes que atuam como condicionadores favorecedores ou restringidores à mudança em curso. Para isso, identificamos e submetemos os dados a rodadas no programa GoldVarb 2001, o qual nos mostrou, por meio de frequência de uso e peso relativo, que nenhuma variação é desordenada ou aleatória. Podemos, então, sistematizar algumas constatações:

(i) A frequência de uso, de forma geral, mostrou-nos que o pronome lhe foi a forma mais produtiva no século XX entre as concorrentes, para expressar o dativo em contextos verbais de segunda pessoa.

(ii) Quando levamos em conta o tempo, o período dentro do século XX, a forma lhe vai perdendo sua hegemonia à medida que os anos vão passando. Na contra mão, surgem as formas preposicionadas, saindo de um patamar insignificante no tempo I para o patamar de mais produtiva ao final do século, tempo III.

(iii) Como constatado em pesquisas anteriores, a implementação do pronome você no paradigma de segunda pessoa não se dá da mesma forma e ao mesmo tempo. No ambiente de datividade, o você primeiro encontra espaço nas complementações oblíquas, ao passo que complementos indiretos “verdadeiros objetos indiretos” condicionam restringindo o avanço da mudança, apesar de não conseguirem freá- la.

(iv) O subsistema pronominal no tratamento do interlocutor também influencia na variação. Escreventes que utilizam exclusivamente ou majoritariamente o pronome tu na posição de sujeito utilizam os pronominais de tu na posição dativa. Já os escreventes que fazem uso exclusivo ou majoritário do pronome você na posição de sujeito utilizam com muito mais frequência as variantes mais inovadoras – as formas preposicionadas.

(v) A relação social entre os escreventes que se configuram como de maior proximidade, intimidade, informalidade, restringem a mudança, favorecendo a preservação dos pronominais de tu. Enquanto isso, as relações que denotam maior distanciamento entre os correspondentes favorecem as variantes linguísticas: elipse e pronome lhe.

(vi) Os homens estão mais abertos à mudança em curso, enquanto as mulheres fazem um maior emprego das variantes mais conservadoras, as formas te e também o lhe. (vii) O assunto predominate nas cartas também exerce influência na hora de empregar

uma ou outra variante. Assuntos mais íntimos (amorosos e familiares) favorecem a preservação das formas mais conservadoras, já constatado em outras pesquisas. A novidade aqui é que assuntos íntimos também se mostraram mais favoráveis à expansão das formas preposicionadas mais inovadoras.

(viii) Dentre os Estados participantes da pesquisa, apesar de haver equilíbrio no padrão de distribuição das formas concorrentes, o RN mostrou-se mais flexível à mudança em curso.

(ix) O tipo de preposição e o item lexical não apresentaram ação condicionante para as ocorrências das variantes.

(x) O avanço da variante mais inovadora preposição + você segue uma direção diatópica na escrita do Brasil. Essa variante, muito provavelmente, surge no Nordeste do Brasil, de onde segue seu espraiamento na direção do Sul do País.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base no exposto e discutido ao longo da pesquisa realizada sobre as formas dativas de segunda pessoa do singular e plural (P2), investigando a variação existente entre as variantes linguísticas concorrentes te/ti/vos/vós, lhe, elipse, você-tu/ preposicionados, ocorridas ao longo do século XX em cartas privadas do Nordeste do Brasil, podemos, finalmente, responder aos questionamentos norteadores deste trabalho.

Na diacronia do Português escrito no Brasil do século XX, levando em conta cartas de 3 Estados do Nordeste brasileiro (RN, PE e BA), as formas pronominais de P2, te/ti e vos/vós, resquícios do caso morfológico acusativo/dativo de segunda pessoa, ainda desfrutam de razoável produtividade, em contextos específicos, apesar da forte concorrência exercida pelas formas linguísticas que competem para este contexto sintático. Como vimos ao longo da análise, esses pronomes originais de P2 dispõem do favorecimento de algumas variáveis independentes linguísticas e sociais, restringindo, “atrasando”, o avanço das demais concorrentes, principalmente das formas preposicionadas.

A frequência de uso e o peso relativo (P.R.) comprovaram que a forma preposição + você tem um aumento significativo em sua distribuição no decorrer do século XX, nos complementos oblíquos e no subsistema 1 (usuários exclusivos ou majoritários do pronome você no tratamento pronominal do sujeito). No entanto, ficou clara a razoável produtividade existente das formas pronominais de P2 em contextos específicos, como, por exemplo, o tipo de complemento, quando (CI); as relações sociais de maior proximidade e os assuntos temáticos de maior intimidade. Isto é, nesses contextos, os pronomes de segunda pessoa com caso morfológico te/ti ou vos/vós, ainda, encontram um “abrigo” para continuarem resistindo à mudança que segue avançando.

Além de essa variável linguística independente, relação gramatical de (CI), agir como condicionadora para preservar essas formas morfológicas, outras três variáveis mostraram-se bastante relevantes no condicionamento em seu favor. Um deles é a inserção em um dos três subsistemas existentes no Brasil (cf. LOPES; CAVALCANTE, 2011), quando do tratamento pronominal do interlocutor. Isto é, na análise ficou constatado que escreventes que fazem uso exclusivo ou majoritário do pronome tu na posição de sujeito quase sempre empregam os pronomes morfológicos de segunda pessoa também no ambiente de datividade,

configurando-se assim como mais um ambiente de resistência dessas formas para enfrentar as demais variantes competidoras e garantindo a sua produtividade, ainda que baixa.

Para auxiliar que as formas pronominais de P2 ainda permaneçam vivas, outras duas variáveis sociais independentes condicionam o seu uso. Uma é o sexo do escrevente, a outra é o período temporal em que se emprega. As mulheres tendem a empregar mais as formas pronominais morfológicas originais de segunda pessoa. Elas são responsáveis por ajudarem a preservar essas formas pronominais. Em relação ao tempo, apesar de as formas pronominais terem sofrido uma pequena queda do tempo II para o tempo III, experimentaram um aumento significativo do tempo I para o tempo II, como visto por meio do gráfico 1. Infere-se, portanto, que apesar de as formas preposicionadas virem ganhando terreno nesta competição, as formas pronominais de tu continuaram desfrutando de espaço por meio desses condicionadores: emprego em complemento indireto – (CI), empregado por usuários do subsistema 2 (TU), e no emprego realizado por mulheres.

Em relação ao percurso diacrônico seguido por essas formas, com base na distribuição ao longo do século XX, vimos que a variação não se deu nem se dá de forma desordenada, de forma aleatória, a implementação do paradigma do “você” na escrita empregada nas cartas, muito provavelmente na fala potiguar, “não se deu da mesma forma em todas as subclasses de pronomes.” (Cf. GALVES et AL, 2016, p. 132). O percurso seguiu a transição encontrada e atestada em todo o PB, em que o

você se instaurou no quadro de pronomes como pronome sujeito preenchido e complemento regido por preposição. As formas relacionadas a tu, contudo, não se perderam. O paradigma pronominal de 2ª pessoa manteve o te complemento direto (acusativo “você sabe que te amo” e dativo “você viu que te enviei algo”) ao lado de formas alternantes relacionadas a você (lhe e a você) que já eram pouquíssimo frequentes no século XIX. (LOPES, 2011, p. 362). [grifo nosso].

Tomando como base e ponto de partida o quadro pronominal dos casos morfológicos latinos apresentados no capítulo 2, e a inserção gradativa do pronome você no paradigma de P2, inferimos que as formas concorrentes preposicionadas mais inovadoras entram no ambiente de datividade pelas formas oblíquas, seja na adjunção (relação gramatical deixada de lado nesta pesquisa por questões de recorte e delimitação) ou na complementação oblíqua (CO). Como vimos, nesta relação sintática, o emprego da variante preposição + você é

categórica. No entanto, como já dito, as formas pronominais de tu se mantêm na diacronia do século XX, nos contextos favorecedores a sua realização, como mostrado.

A análise da variável linguística aqui pesquisada aponta para uma mudança em curso a favor das formas preposicionadas. O gráfico/figura 4, o qual versa sobre a distribuição das formas na temporalidade do século XX, mostrou que enquanto a variante linguística preposicionada segue aumentando sua produtividade, as demais concorrentes seguem tornando-se menos produtivas, em linhas gerais. Além disso, a tabela 4 deixou clara a grande quantidade de escreventes inseridos no subsistema 1, usuários exclusivos ou majoritários do pronome você na posição de sujeito, um dos condicionadores mais relevantes no favorecimento à mudança em curso. Esse predomínio de escreventes no subsistema 1 chega a 80% do total de 610, contra apenas pouco mais de 8% dos escreventes do subsistema 2, desconsiderando o percentual do subsistema 3.

Ficou constatado que as ocorrências do pronome lhe são favorecidas pela hierarquia social. Relações sociais que denotam maior distanciamento entre os escreventes, ou correspondências que veiculam assuntos como comércio ou política favorecem o emprego do pronome lhe e o emprego da elipse.

No que concerne às relações gramaticais de complemento indireto (CI) ou complementação oblíqua (CO), ficou provado por meio da frequência de uso e do PR. que o tipo de complemento verbal não só condiciona a mudança em curso, como foi selecionado como o condicionante mais relevante. Com Log likelihood = -181,288 e significance = 0,000, esta variável independente apresentou-se como a mais condicionadora. A diferença entre PR. de (CI) e (CO), como já visto, ficou na casa de (0.60), diferença muito significativa. Quando o complemento se dá por meio de (CO), a probabilidade de ocorrer uma forma preposicionada é categórica com (0.97) de PR.. Os contextos gramaticais de complementação verbal são tidos como os ambientes de resistência das formas pronominais de tu. O pronome te como acusativo é mais resistente à mudança em curso observada. Em seguida, o te com emprego de (CI) (dativo) também se mostra como resistente. No entanto, como a relação entre (CI) e (CO) pode ser facilmente confundida pelo escrevente, a relação gramatical de (CO) apresenta-se como porta de entrada das variantes preposicionadas para a variante mais inovadora.

Nesta pesquisa, não fazia parte dos nossos objetivos observar o espraiamento da variante preposição + você no Brasil. Objetivávamos apenas, como um dos objetivos, mapear

o seu percurso nas cartas escritas no século XX no Nordeste brasileiro, a partir dos estados RN, PE e BA.

No entanto, traçando um comparativo entre representantes das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, constatamos que possivelmente a mudança em curso em favor da variante preposição + você, em contexto de dativo de segunda pessoa, siga um roteiro diatópico, espraiando-se a partir do NE em direção ao Sul do país. Esta hipótese aqui levantada pode vir a ser investigada em pesquisa futura, como um possível doutorado, dando continuidade à investigação das formas dativas no Protuguês Brasileiro. Oportunidade em que podemos buscar explicações mais teóricas para a mudança em curso que aqui se mostrou evidente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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