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Dans le document lles Futuna en (Page 44-47)

What is Gumbrecht doing among the fleshpots of philosophy, empty as they must necessarily be of the sustenance he desires?

Jerome McGann

Embora se possa dizer que há uma “arquitetura” subjacente às primeiras formulações da

a arquitetura teórica recede frente à contingência imputada ao fenômeno literário, e seu discurso se torna mais exploratório – para não dizer “barroco.” Não há já um método como o que medeia a relação entre proposições teóricas mais gerais e os objetos a que se aplicam mas, numa considerável parte dos casos, a produção e o recurso ad hoc a categorias analíticas com a única finalidade de produzir novos objetos. Se Iser falava em “instrumentos de aplicação” na qualidade de modelos, duma lógica ou esquema que organiza a relação mesma entre a teoria e seu objeto, a noção de “Presença,” entretanto, é bem mais do que um elemento de classificação ou lexema de um “catálogo descritivo.” Com a Presença e seu posterior desenvolvimento na noção de Atmosfera/Clima (Stimmung), Gumbrecht parece avançar com a intenção, anunciada nos anos das materialität, de afastar-se das economias mimética e instrumental dos conceitos (cf. supra I.4.2) e orientar seus esforços no sentido de promover, embora a expressão só possa ser retroativamente aplicada à sua obra, um “reencantamento secular,” outra forma de “atingir o não-conceitual” (cf. supra I.2.1).

Por economia mimética, entendemos a suposição algo generalizada de que a teoria e a crítica devem ser coextensivas à literatura, que se devem pautar em enunciados que correspondam a estados de coisas e ir “à coisa mesma” pela redução de fatores que atuam como ruído, isto é, tudo aquilo que Wellek e Warren chamavam de “extrínseco” (WARREN; WELLEK, 2003). Por instrumental, entendemos que o afastamento propiciado pelo método em relação ao objeto promove o seu recorte para um determinado propósito, sendo essa uma das acusações do próprio Gumbrecht à Estética da Recepção (1979; 1998a, p. 24 ss.; 2005, p. 91

ss.) e, nas mais variadas elaborações, aquela dirigida à theory nos Estados Unidos (cf. supra

I.1.4). Trata-se de ficar entre (o que hoje se entende como a ilusão de) descrever objetivamente a literatura e aí encontrar a tal “literariedade” e (a ansiedade de) mobilizar a literatura em conformidade com determinados interesses, como de praxe se diz dos cultural studies e seu legado. Se essa é uma diferença aparente nos usos de “teoria literária” e “teoria da literatura,” da mesma forma como a “materialidade” de seu programa refere-se ora a algo de material ora ao fenômeno cibernético da comunicação, Presença e Atmosfera seguramente já sequer dizem respeito à teoria.

Os escritos mais recentes de Gumbrecht são mais afins à doutrina, primeiro no sentido de que aquilo que ele nos apresenta é dificilmente verificável, e, de seguida, de que constituem intervenções discursivas sobre as práticas de “leitura” – se ainda podemos usar a expressão – no contexto acadêmico, isto é, de um teor mais preceptístico ou normativo do que “científico.” Nas palavras de Gumbrecht de uma década atrás, um teor “future-oriented” (2004b, p. 2). Isso

fica especialmente evidente se comparamos os prefácios de Stimmungen Lesen (2012a) e de

Production of Presence (2004b).

I believe that literary studies, as a site where intellectual forces combine, risks stagnation [gumbrechtês para “produção sem escoamento”] for as long as it remains stuck between these two positions [Desconstrução e Estudos Culturais, que se debatem em torno do estatuto representativo da literatura], whose contrasts and tensions can cancel each other out. To overcome such dangers – which have already materialized in part – we need “third positions.” The German word Stimmung (which is very difficult to translate) gives form to the “third position” I would like to advocate (GUMBRECHT, 2012a, p. 3)

A despeito de àquela altura o autor recusar a formulação de um “novo paradigma” (2004b, p. xvi), a terceira posição começara desde a Presença, que enfatiza justamente a dimensão não- conceitual, não semântica, não “representativa” de objetos culturais e fenômenos naturais. É preciso observar também o plural em “posições terceiras,” a que o conceito de Stimmung servirá de manifestação específica. Perceba-se a mesma inquietação com o estado-da-arte apresentada na década anterior:

“Metaphysics” refers to an attitude, both an everyday attitude and an academic perspective, that gives a higher value to the meaning of phenomena than to their material presence; the word thus points to a worldview that always wants to go “beyond” (or “below”) that which is “physical.” (2004b, p. xv)

E que também surge, de maneira menos tímida, em Powers of Philology (2002), quando a publicação de Production of Prensence (2004b) era entrevista:

What the philological practices conjure up as the philologist's multiple desires for presence, are, after all, reactions that hardly fit into any official self-reference of the academic humanities. In this sense, being as far away as possible from the disciplinary self-image of philology, even programmatically so, could become the beginning of the emergence (perhaps even of the creation) of a new intellectual style. This style would be capable of challenging the very limits of the humanities, which come from their inscription into the paradigm of hermeneutics (which also means into the metaphysical legacy of Western philosophy) during the decades around 1900. (2002, p. 8)

É prepóstero, da parte de Gumbrecht, falar da criação de um “estilo intelectual” que toma por base o espírito da filologia, como demonstraremos num outro capítulo (cf. infra II.2), e antes de tudo denota uma profunda alienação em relação às variadas discussões sobre a materialidade, em diversas formulações, em curso desde a incepção do estruturalismo nos estudos literários, mas especialmente relevantes na obra dum Jerome McGann, duma Johanna Drucker, dum Roger Chartier, dentre tantos outros tão atuantes durante as décadas de 1980 e

1990. Ou talvez o autor se refira tão só à sua linha de materialität, pelo que talvez devamos ler essa inusitada declaração como “a new intelectual style of mine.” A despeito disso, se em 2002 Gumbrecht fala em “estilo intelectual,” recuando da noção de “paradigma” em 2004, e mais tarde propõe seu percurso teórico como alternativa às abordagens vigentes no contexto americano desde os anos 90, não é difícil enxergar essa aparente instabilidade como formas de, a cada instante, modular os esforços que movem sua crítica às práticas interpretativas – e isso, como vimos, desde a época das materialidades da comunicação (cf. supra I.2.2).

Na primeira parte deste subcapítulo (II.1.2.1), discutiremos duas versões da Presença na obra de Gumbrecht, sem dar atenção ao pano de fundo “antropológico” de sua tipologia da cultura (cf. supra I.2.3), mas focando sobretudo a aporia contida na “oscilação” e enfatizando a negatividade que lhe espreita. É importante considerar a Presença como o núcleo duro da Estética de Gumbrecht. Na segunda parte (II.1.2.2), dedicar-nos-emos a pensar uma elaboração específica de Presença cuja contradição em relação ao programa de Gumbrecht, além da aporia interna da “oscilação,” aponta para seu redimensionamento. Na terceira parte (II.1.2.3), ainda considerando a aporia, esboçaremos a derivação da Stimmung a partir da versão mais “positiva” da Presença. Mais do que isso, a Stimmung depende uma avaliação das condições em que o fenômeno de Presença se dá, o que no primeiro programa surgia sob a rubrica das formas particulares de presentificação e é elevado a “categoria meta-histórica.” Na quarta parte (II.1.2.4), pensaremos o entrelaçamento das duas noções – o dentro e fora da Presença, com seus matizes – a partir do seu velho programa da “verdade” da literatura (cf. supra I.2.3) e do tema mais atual, que condensa e cristaliza muitas de suas intenções, do “reencantamento secular.” Toda nossa reconstrução do percurso teórico de Gumbrecht desdobrar-se-á no horizonte de uma crítica.

1.2.1. Presença, estética negativa

Já se disse que a experiência imediata é a fantasia retroativa de uma época mediada até sua fibra mais íntima. Será esse o caso do rejuvenescimento da ontologia, como dissemos, na “ressaca do construtivismo”? Será o caso de a reflexão estética ressurgir como esforço de romper com o feitiço das definições interoperantes, do nexo discursivo excessivo da teoria literária? À primeira vista, se levarmos a sério a intenção de Gumbrecht bem como de pensadores de outras áreas (Bryant et al., 2011) de afastarem-se da hermenêutica, do paradigma comunicacional e da “textolatria” (FLUSSER, 1985), sim. Mas importa notar que não há uma

precipitação numa noção enfática de substância ou quejandos, mesmo que por vezes alguns deslizes discursivos deem a entender algum tipo de neossubstancialismo. Se é possível que haja um pouco disso aqui e ali, é mais importante perceber, na Presença de Gumbrecht tal como nas formas de materialismo emergentes, uma tomada de partido por uma espécie de “imediatidade” de segundo grau, de uma ontologia que não transforma a linguagem num mero afastamento de um “Ser primeiro” mas se esforça por denunciar a generalização acrítica do construtivismo num “vale tudo” possibilitado pela ausência do referente. Não se trata já de um culto daquilo que não é mediado e cuja crítica urgente consistiria, com efeito, em tornar evidentes as mediações intrínsecas às coisas como modo de romper o encanto mítico; trata-se de romper com o próprio mito em que a infinita recursão das mediações declinou.

Na obra Production of Presence: What Meaning Cannot Convey (2004b), esse passo epistemocrítico é absorvido em explicações demasiado lapidares e acaba um pouco atenuado por aquilo que Gumbrecht se refere como “efeito de Presença” por oposição a “efeito de Sentido” (2004b, p. xv), depois afundando no mar hiperteórico de seu livro. Nós criticamo-lo previamente sob a rubrica da oscilação como recauchutagem lexical (cf. supra I.2.3):

For us, presence phenomena always come as ‘presence effects’ because they are necessarily surrounded by, wrapped into, and perhaps even mediated by clouds and cushions of meaning. It is extremely difficult – if not impossible – for us not to ‘read,’ not to try and attribute meaning. (GUMBRECHT, 2004b, p. 106)

Por “efeito,” Gumbrecht entende que nenhuma Presença se dá de maneira imediata, depurada da condição intencional que permite a atribuição de sentido àquilo que está tangível, o que necessariamente concorre para uma amortização – por isso a metáfora das “almofadas de sentido” – dessa experiência. “Read” aí não é a leitura pura e simples, mas interpretação. Contudo, ao falar de “efeitos” contra uma (ao menos imaginária) pureza da Presença, Gumbrecht não apenas salvaguarda o seu conceito das predicações semânticas – porque doutra sorte a própria Presença poderia ter “efeitos de sentido” por contiguidade, recaindo em qualquer

livro do mundo cartesiano supostamente subtraído das letras – como acaba por hipostasiá-lo: a

radicalização dos polos é tal que dá a entender que pode existir algo que não seja material. Se quisermos ainda retomar o critério com que De Man descarta o pressuposto de abordar a literatura como algo empírico (cf. supra I.3.1), podemos dizer que a Presença é a pura positividade que precede qualquer proposição sobre os artefatos culturais, sobre a literatura – mas essa positividade permanece, justamente por isso, incognoscível e inexperienciável.

o contexto em que surge o seu conceito é “Form Without Matter vs. Form as Event” (1996). O argumento central aí, e que interessa à nossa discussão, é de que a noção de forma como autorrelação de uma dimensão imaterial (pense-se, e.g., na sintaxe ou, em certo sentido, no que acusamos em nossa exposição sobre a “mídia” literatura, cf. supra II.1.1.2) veta a dinâmica e a imprevisibilidade intrínseca à materialidade. Ou seja, apreende a contingência num mecanismo autorreferencial. Gumbrecht parte do problema do estatuto conferido à realidade na Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann, que entra em contradição, como lhe parece, com a intenção de tematizar a “emergência” das formas no medium. (Também apontamos que a Gumbrecht foi difícil tematizar essa passagem.) Forma-como-pura-sintaxe, em que ocorre autorrelação estritamente lógica e diferencial, é diferente da forma-substância em que a autorrelação dos elementos é promovida pela dinâmica própria da substância. A noção de medium servia, desse modo, à Teoria dos Sistemas para que não incorresse em qualquer substância imputável à realidade nem recaísse na combinatória imaterial. Haveria um sacrifício necessário da realidade em nome da estabilidade da dimensão cognitiva ou, talvez mais precisamente, uma domesticação da exterioridade. Nisso, entrementes, Gumbrecht aproxima seu argumento contra Luhmann ao de Jacques Derrida sobre o estatuto da fala na fenomenologia de Husserl em A voz

e o fenômeno (1994). Então continua:

I have elsewhere tried to argue that deconstruction’s rejection of presence refers exclusively to those versions of the concept which imply idealization in the double sense of interiorization (de-exteriorization) and stabilization of meanings (de- destabilization). Jean-Luc Nancy's book on The Birth to Presence goes a decisive step further by suggesting that the longing for a “delight of presence,” for “pure presence” (and “pure absence”), for a presence and an absence that constitute movement and are counter to representation, is one of the primary motivations behind deconstruction as an intellectual movement (1996, p. 586–7)

Portanto, talvez mais do que uma dependência de um substrato material que se queira defender por convicção, como a crença em algo de “imediato” que asseguraria permanentemente a condição do sujeito como ser-no-mundo, o que importa de início na Presença é justamente a não-identidade da exterioridade com o aparato categorial do sujeito. Essa exterioridade torna-se “efeito positivo” quando se dá à cognição como resíduo não-filtrado de realidade e como evanescente nos limites de sua aparição e desaparição. Entretanto, é interessante notar por ora precisamente a ambivalência entre positividade e não-identidade, como momentos daquilo que excede a abstração e equivalência necessárias à cognição, as quais respectivamente operam a “de-exteriorization” e promovem a “de-destabilization” pelo nexo

em sistema. Nem representação, nem construção (dissemos, cf. supra I.4.2): é como se um excesso de positividade necessariamente fulgurasse como não-identidade ao “sistema fechado” do sentido.115 Essa é, também, a origem da figura da oscilação (cf. supra I.2.3) como recusa à

passagem/perlaboração dialética, que autorizaria o que De Man chamou de fenomenalismo,

isto é, o olhar fixado sobre o reenvio do texto literário ao referente.116

As ideias apresentadas num ensaio como “A Presença realizada na linguagem” (2009) enfatizam a positividade. Esse aspecto positivo é importante para elaborar o primado da estética na reorientação do fazer humanístico. Dos exemplos, no entanto, interessa salientar a situação do que Gumbrecht chama de “epifania,” outra figura de oscilação-em-si, que contradiz a ideia de uma presença através ou na linguagem.

A epifania é o sexto modo [dentre os sete que apresenta], quase “intrusivo”, de produzir presença na e pela linguagem. Em seu uso teológico, o conceito de epifania se refere ao aparecimento de uma coisa, que requer espaço, uma coisa que está tanto ausente quanto presente. (GUMBRECHT, 2009, p. 16)

Vejamos: epifania é a aparição e desaparição espontânea, isto é, sob uma dada temporalidade que perturba a função sintetizante do sujeito, (do efeito) da Presença. É o modo do ser-no-mundo, quando o sujeito não tenta impor coerência ao caráter difuso de sua experiência. Nesse quadro, a linguagem é encarada como medium no qual elementos pouco

acoplados atuam, enquanto a Presença é uma espécie de “emergência” de uma forma, de uma

sintaxe material espontânea desses elementos numa acoplagem forte (cf. supra nota de rodapé no. 99). É o caso da linguagem mística (2009, p. 15) como é o caso da linguagem que

presentifica a alteridade histórica (2009, p. 16), como é simplesmente o caso de todas as

poéticas formalistas antes da subsunção da forma-material à diferencialidade semiótica, antes da estruturalização do formalismo. Presença na linguagem considera a linguagem como

medium em que ocorre uma espécie de evento neguentrópico (cf. supra nota de rodapé no. 107),

um escalonamento de desordem que abre para outra coisa sem recair na metafísica (do sentido semiótico, exclusivamente). Mas qual é a validade e a extensão disso? É o Ser da linguagem

115 Mas não será possível, igualmente, dizer que é precisamente a negatividade radical da realidade em oposição à

(im)positividade do sujeito que provoca a desestabilização e o mais que Gumbrecht associa à Presença? A projeção de sentidos no mundo seria a única condição verdadeira, e o primeiro grande erro, para uma experiência da Presença como interrupção do fluxo de sentido – se pressupusermos que a matéria não é tabula rasa, haverá sempre negatividade em relação à expectativa. Discuti-lo-emos adiante (cf. infra II.1.2.2).

116 É de se aventar, reelaborando uma ideia prévia (cf. supra nota de rodapé no. 19), se a crítica de De Man ao

“fenomenalismo” não tem em vista, aliás, enfatizar a vacuidade do esforço de sustentar essa exterioridade evanescente, isto implicando que uma perlaboração não preocupada em render um produto estável poderia fazer jus àquilo que a desencadeou. Talvez “fenomenalismo” indique uma indesejável erradicação da contingência.

que se presentifica, sabe-se lá, nos versos de Jorge de Sena a Afrodite Anadiómena, “Dentífona apriuna a veste iguana \ de que se escalca auroma e tentavela”? Ou o passado se faz tangível nesses versos mais light: “pelo mar remoto navegamos \ que só dos feos focas se navega,” de Camões? Porque o que está em causa, nessas condições, não é nenhuma propriedade inerente à linguagem e espontânea, mas precisamente a dissonância cognitiva – isto é, subjetiva – que impede o “observador de primeira ordem” de assegurar-se de suas observações ou, inversamente, que o projeta desenfreadamente através do erro cognitivo. Se alguma coisa “aparece” é o fracasso do sujeito em sintetizar esses eventos numa cadeia coerente.

À partida, note-se: “Presença” é uma expressão relativamente arbitrária – exceto por seu resíduo teológico ou eucarístico – para esse processo, porque ela é, como muitas vezes Gumbrecht tem de lembrar através das figuras da oscilação e da dinâmica da temporalidade da aparição, simplesmente comensurável com a ausência, a perda, a negatividade, a impossibilidade de ver uma coisa e não outra. Isso se torna perceptível sobretudo quando o mesmo ensaio de 2009 é publicado em 2014 com o título de “Presence in Language or Presence

Achieved Against Language?”, abrindo Our Broad Present (2014). Sendo o texto igual, o que

se põe em foco com a mudança do título (além de a hesitação conotar cautela) não é a estrutura medial da linguagem como dispersão de elementos e o fenômeno de seu ajuntamento, logo, Presença na linguagem-como-matéria, mas sobretudo a função comunicativa da linguagem, a linguagem-como-comunicação contra a qual a Presença é dotada de efeitos. Aqui se percebe o que quer dizer “forma como interferência” preconizado por Gumbrecht como único retorno possível da teoria (cf. supra I.1.3). Na segunda ideia de linguagem, a intransitividade linguística – o que quer dizer não somente “diferencialidade” estruturante mas negatividade radical em relação às expectativas semântico-pragmáticas da comunicação – é que conta como nome da Presença, a tangibilidade ou a substancialidade sendo um efeito secundário, um “fenomenalismo.” Trouxemos a mesma questão, via Gadamer (cf. supra nota de rodapé no. 90): “é a materialidade que, ao ser explorada, suspende a troca semântica ou a recusa à semântica é que isola a materialidade”? Gumbrecht precisava dialetizar, tornamos a dizer, as coisas, em lugar de insistir em separar ausência e presença, sentido e matéria,117 com a

117 Já foi mais de uma vez notado que Gumbrecht comete um erro ao propor que a poesia é o único tipo de discurso

que apresenta “simultaneamente” efeitos de sentido e efeitos de presença (2004b, p. 18). Em primeiro lugar, porque sua inferência depende de premissas cujas definições são circulares e mutuamente canceladas: “presença não é sentido,” “sentido não é presença,” “poesia é sentido e presença” – isto é, contém, como tudo no mundo, junto à sua materialidade aspectos cognitivos que são indissociáveis de sua condição cultural (cf. supra I.1.1.3). Em segundo lugar, porque para que a simultaneidade do sentido e da presença seja algo de admirável, foi primeiramente necessário hipostasiar as dimensões: não há uma “dimensão do sentido” senão como construto

finalidade de transformar o retorno à estética na gesta do século.

Antes de continuarmos com o lugar cômodo da oscilação como (potencial) recusa à especulação – isto é, da cognição agrilhoada, já nem tanto à moda schilleriana (cf. supra I.2.3), entre os limites estabelecidos pelas suas expectativas de “identificação de sentido” e sua disponibilização voluntária à exterioridade –, talvez seja interessante voltar ao título da obra. “Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir” põe em relação quatro termos que carecem de pormenorização. De um lado, associam-se as palavras “produção” e “presença.” Se já discorremos bastante sobre a Presença, fica a noção de “produção” a que ela surge subordinada. Como ponto de partida, sigamos Gumbrecht na aproximação entre “pro-ducere” e “prae-esse” [“prae-esens,” análogo ao alemão “Da-sein,” ser-aí], que dão origem a “produzir” e “presente” respectivamente, como uma situação de tangibilidade:

If producere means, literally, “to bring forth,” “to put forth,” then the phrase “production of presence” would emphasize that the effect of tangibility that comes from the materialities of communication is also an effect in constant movement. In other words, to speak of “production of presence” implies that the (spatial) tangibility effect coming from the communication media is subjected, in space, to movements of

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