Uma pesquisa científica traz de forma implícita os pressupostos ontológicos e epistemológicos do pesquisador, os quais tendem a influenciar significativamente a maneira como o fenômeno é compreendido e analisado. Por isso, optou-se por explicitar alguns argumentos e crenças orientadores deste estudo, com o objetivo de esclarecer aspectos significativos sobre o processo dessa investigação e possibilitar melhor entendimento sobre o método, a análise e os resultados desta pesquisa.
De acordo com Burrel e Morgan (1994), é conveniente posicionar a ciência social em termos de quatro pressupostos relacionados com a ontologia, com a epistemologia, com a natureza humana e com a metodologia. Apoiando-se nesse modelo, serão esclarecidos esses posicionamentos.
Primeiro, o pólo ontológico refere-se à compreensão do pesquisador sobre a natureza da realidade investigada. Os cientistas sociais têm se preocupado com a questão central de como a realidade deve ser investigada; se é externa ao indivíduo ou se é produto da consciência e, portanto, se é objetiva ou subjetiva. Nesse caso, assume-se o pressuposto de que as tradições ontológicas decorrentes do positivismo não são adequadas para se entender fenômenos socialmente construídos e mediados pela percepção do investigador. A natureza do fenômeno pesquisado – a lógica organizacional e a postura alienada dos participantes do
programa de QVT – requerem metodologias que se fundem na interpretação, nos procedimentos críticos e na relação entre sujeito e objeto. Portanto, este estudo se volta para o pólo subjetivista de entendimento da realidade.
Em seguida, o pólo epistemológico, que diz respeito à forma como o conhecimento pode ser apreendido da realidade, referindo-se, portanto, ao relacionamento do pesquisador com o objeto pesquisado. Nesta pesquisa, a epistemologia norteadora apóia-se na fenomenologia, uma vez que é uma filosofia que questiona a veracidade de todo conhecimento aceito socialmente, até que seja inteiramente confirmado por um método que se fundamente na consciência dos pesquisadores. Assim, preocupa-se com objeções à visão tradicional da ciência, opondo-se ao conhecimento criado por métodos positivistas (CUPANI, 1985), partindo de um corpus de pesquisa que convirja para esse entendimento e que seja independente das amarras do cientificismo.
A fenomenologia consta, na verdade, de uma atitude reflexiva do pesquisador acerca da realidade, que ao contestar as aparências empíricas, acaba por explicá-las através da ruptura radical com a consciência do senso comum (BRUYNE; HERMAN; SCHOUEETE, 1982). Assim, o fazer desta pesquisa de bases fenomenológicas fundou-se num exercício constante de reflexão e contestação ao que estava socialmente aceito sobre a QVT dentro da organização pesquisada, assim como nos textos científicos e não científicos pesquisados.
Bruyne, Herman e Schoueete (1982) explicam que um dos aspectos mais centrais do método fenomenológico se manifesta na vontade de explicitar constantemente as camadas de sentido mais originárias, e é aí que a fenomenologia se torna assim a hermenêutica – a ciência da interpretação. Esta pesquisa, na medida em que buscou identificar os comportamentos inconscientes e os interesses velados, fundamentou sua abordagem de pesquisa nessas linhas metodológicas.
Também, a indissociabilidade entre sujeito e objeto e a intencionalidade da consciência são ideários da visão fenomenológica e hermenêutica de mundo. Creswell (1988) argumenta que um estudo fenomenológico descreve o significado das experiências vividas por vários indivíduos sobre um conceito do fenômeno. Ademais, a atitude crítica sobre os dados, o ceticismo sobre o discurso e a respeito dos fatos reforçam os traços do método hermenêutico utilizado.
A hermenêutica, trazida da fenomenologia hursserliana, rejeita a noção de que os significados podem ser objetiva e diretamente percebidos. A sua análise assume que os construtos organizacionais precisam ser interpretados como “representações simbólicas”, historicamente criadas, que apenas podem ser observadas através de uma análise de seu contexto histórico e situacional (STEFFY; GRIMES, 1986, p. 323).
Portanto, enfatizar a dimensão histórica de pesquisa é assumir que o processo e os eventos só são revelados à luz da interação complexa entre o pesquisador e o domínio da pesquisa (STEFFY; GRIMES, 1986, p. 324). Desse modo, uma compreensão acerca da estrutura de fatos e do contexto sociohistórico do fenômeno pesquisado foram elementos centrais desta tese.
Nesta pesquisa, a dimensão histórica foi analisada a partir do contexto histórico do movimento de qualidade de vida no trabalho, tanto na literatura quanto na própria organização estudada. A busca pela compreensão das origens do movimento, suas causas e os interesses que representam esclareceram a sua funcionalidade, revelando através de fatos históricos o discurso organizacional pela qualidade de vida no trabalho.
No que se refere à dimensão da natureza humana, acredita-se que a realidade é mais fortemente definida pela estrutura social e pelo ambiente, deixando aos indivíduos poucas alternativas de escolha senão aquelas que lhes são impostas. Assim, volta-se para a visão
determinista de mundo, mesmo que ainda seja reconhecida a importância da tomada de consciência em busca de valores da vida em contraposição aos valores do mercado. Quanto a essa ponderação entre determinismo e voluntarismo por vezes assumida, Burrell e Morgan (1994) consideram que o cientista social apresenta inclinações sobre seus pontos de vista, adotando pontos intermediários, geralmente, influenciados pela atividade humana pesquisada.
Neste estudo, a abordagem teórica adotada, baseada em posicionamentos inspirados no marxismo e guiada pela perspectiva crítica de análise, estabelece-se mais claramente a partir de um posicionamento da natureza humana de forma mais determinista, uma vez que entende o indivíduo como parte oprimida pelo sistema dominante, não sendo a ele conferido poder suficiente de contestação e de libertação.
Ademais, a escola de Frankfurt, da qual emergiu a teoria crítica e que vem inspirando estudos de cunho crítico, formou-se com o propósito de denunciar a repressão e o controle social a partir da constatação de que uma sociedade sem exploração é a única alternativa para que se estabeleçam os fundamentos da justiça, da liberdade e da democracia (FARIA, 2004, p. 25).
O remonte teórico feito acerca da ciência administrativa e sobre o movimento de QVT discutido no capítulo anterior permitiu compreender o movimento como um instrumento criado e mantido pela lógica empresarial, assim como verificar nele uma imagem criada e desenvolvida pelo capitalismo com a finalidade de servir ao poder. Portanto, esse pressuposto teórico guiou a pesquisa no sentido de desvendar quando, como e porque esse movimento se deu.
Por último, o pólo metodológico fundou-se nos métodos ideográficos de pesquisa, ou seja, nos dados subjetivos gerados pela vivência e pelo envolvimento do pesquisador com o fenômeno. A descrição fenomenológica baseia-se no vivido, no real mais íntimo, através do
qual a vivência do pesquisador é a única condição de perscrutá-lo (BRUYNE; HERMAN; SCHOUEETE, 1982). Por isso, foram adotados métodos etnográficos, mais adiante detalhados. A principal definição metodológica deste trabalho foi, portanto, a de que a lógica subjacente ao discurso e às ações de QVT só pode ser revelada com o uso de uma análise profunda e imersa, buscando as incoerências entre o discurso e os interesses velados. Ademais, a postura alienada que se pressupõe nos sujeitos participantes necessita, para sua aferição, de uma vivência sucessiva, sem a qual não teria sido possível resultados rigorosos e confiáveis de pesquisa.
Ainda na definição metodológica deste trabalho, foi preciso estabelecer uma distinção entre a metodologia de estudo de caso e outras estratégias qualitativas de pesquisa que utilizam um ou vários casos como ferramental ilustrativo para os pressupostos teóricos da pesquisa. Pois, para esta pesquisa, o caso surge com o propósito de ilustrar os argumentos teóricos construídos e não seu contrário. O detalhamento sobre método e seu uso são realizados na subseção seguinte.