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Forme normale de BOYCE-CODD

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3.2 Normalisation

3.2.5 Forme normale de BOYCE-CODD

Passamos agora a observar como se delineiam os papéis familiares de avó, mãe e filha, entendendo que esses perfis só podem ser entendidos de forma relacional. Os papéis de filha, mãe e neta surgem na inter-relação entre as personagens e na posição familiar de cada uma em relação à outra. Desde já, emerge dessa dinâmica a expectativa social de cuidado, acolhimento e carinho por parte das genitoras em relação às suas descendentes. Trata-se de um aprendizado sociocultural pelo qual se compreende que a maternidade está associada à proteção e ao amparo dos filhos. Por essa razão, é esperado que Teresinha aceite e console a filha que chega com a neta por ocasião do fim do casamento.

Como analisa Lins de Barros (1987, p. 58), a partir de pesquisas com gerações de mulheres, a ruptura de casamento na geração dos filhos é considerada uma situação de crise que faz com que as relações de afinidade aflorem. Nas narrativas trazidas pela autora, o processo de separação é tido como uma ameaça à vida familiar, que desestrutura as concepções básicas acerca de casamento e família e gera graves consequências não apenas ao casal envolvido, mas a todas as relações familiares (filhos, pais, parentes). No entanto, na trama, a solidariedade esperada entre as gerações não se estabelece.

Como exposto, o encontro entre as três gerações se dá no final do primeiro episódio (T01E01: “Vista para o mar”). As ações que acontecem até então são independentes, revelando um pouco do cotidiano de cada uma das Teresas. Como Ringo não deixa a casa da família como havia combinado previamente, Teresa resolve ir embora com a filha Tetê para a casa da mãe Teresinha, sem comunicar antes.

Ao abrir a porta e encontrar sua filha e neta, Teresinha se mostra surpresa, e percebemos que está alcoolizada. Trata-se da última cena do episódio inaugural: ela se passa na porta da casa, à noite, e retrata o encontro e o primeiro diálogo entre as três mulheres, o ponto de partida para o desenrolar da narrativa. Nas transcrições das enunciações a seguir, procuramos identificar também as marcações de corporalidade que contribuem para a composição do ethos discursivo.

TERESINHA [surpresa]: Que surpresa completamente inesperada! TERESA [séria]: Mãe, a gente veio morar com você.

TERESINHA [debochando]: Alucinação alcoólica?! Não tenho uma desde 1972. TETÊ [brava]: A gente não, [Tetê olha para a mãe] ela! Eu fico só essa noite. TERESINHA [alterada]: Chegaram numa hora ótima!!

TERESA [crítica]: Mãe, você tá bêbada?!

TERESINHA [alterada]: Sim [ri com os olhos arregalados].

Figura 18 – A chegada de Teresa e Tetê à casa de Teresinha

A postura séria de Teresa ao chegar e comunicar que está se mudando para a casa contrasta com o ar de deboche com o qual sua mãe alcoolizada a recebe. Teresa, que havia discutido com Ringo, chega tensa, arrastando a filha que resistia em deixar o apartamento. Tetê deixa claro que não pretende permanecer na casa da avó, embora, logo nos dias seguintes, acostume-se rapidamente e aprecie a mudança. Teresinha, nitidamente alterada, não leva a sério a situação, considerando que seria uma “alucinação alcoólica”, diante da chegada inusitada em virtude do pouco contato mantido pelas três até então. As personagens são mostradas em plano médio, muito utilizado para as cenas de diálogo. É noite, e os tons escuros predominam. Em seguida, a câmera abre para o plano geral, mostrando a fachada da casa e as personagens, e vemos que elas entram na casa e fecham a porta, enquanto surge o

lettering: “As três Teresas, segunda-feira, 20h13”. A trilha sonora inicia, a imagem escurece

(fade-out), e entram os créditos finais.

Figura 19 – Plano geral mostra a casa das três Teresas

Fonte: Frame de cena do episódio “Vista para o mar” (T01E01).

A saída do apartamento e a entrada na casa da mãe podem ser caracterizadas como cronotopo da soleira, conforme Bakhtin. A forte carga metafórica da soleira está associada à mudança e ao limiar. Trata-se também de um momento decisivo (GIDDENS, 2002), que abre novas perspectivas às personagens, como analisado no capítulo seguinte. A partir da entrada na casa, da mudança das personagens, a trajetória ganha novo direcionamento.

Qualificaremos ainda um cronotopo impregnado de intensidade, com forte valor emocional, como cronotopo da soleira; [...] é o cronotopo da crise e da mudança de vida. A própria palavra “soleira” já adquiriu, na vida da linguagem (juntamente com seu sentido real), um significado metafórico; uniu-se ao momento da mudança da vida, da crise, da decisão que muda a existência (ou da indecisão, do medo de ultrapassar o limiar). Na literatura, o cronotopo da soleira é sempre metafórico e simbólico. (BAKHTIN, 2010b, p. 354).

Além da surpresa da mudança repentina, podemos considerar que também é inesperado Teresinha se encontrar bêbada e agitada, na medida em que destoa do que se

espera do padrão tradicional da avó. Mas, como se percebe, Teresinha foge de muitos padrões. Nessa primeira cena analisada, Teresa está tensa, e Tetê, contrariada, ao passo que Teresinha não se contamina e nem esboça qualquer reação para consolar a filha, como se esperaria de uma mãe ao saber que a filha acabara de terminar um casamento. Não ocorre aqui a emergência da solidariedade e afinidade a partir do divórcio na geração dos filhos analisada por Lins de Barros (1987). Embora lúcida, a avó parece estar em um mundo à parte, buscando escapar da preocupação com a dívida da casa, situação que até então filha e neta desconhecem. O ar de deboche de Teresinha contrasta, dessa forma, com a seriedade de Teresa em meio à gravidade da situação da separação e da destruição do lar e dos sonhos depositados no casamento. A personagem lida com duas perdas: o marido (conforme seu desejo) e o seu lar, o apartamento da família (em desacordo do seu desejo).

O episódio seguinte (T01E02: “Temporariamente definitivo”) tem início com a continuação dessa cena. Como a anterior mostrava as três personagens entrando, somos levadas a entender que foram recebidas. No entanto, na sala da casa, Teresinha resiste em aceitar que filha e neta morem com ela. Para a produção de sentidos, é importante ressaltar que as três Teresas conversam de pé e têm dificuldade de se entender, falando alto e, muitas vezes, gritando.

TERESA: É provisório.

TETÊ: Definitivamente é provisório.

TERESINHA: Separar com essa idade?! Tava na merda, mas tava quentinho. TERESA: Alguma vez você me entendeu?

TETÊ: Sou eu que não entendo. O quê que meu pai fez? TERESINHA: O quê que vocês estão fazendo aqui?

TERESA: Seu pai não fez nada, como sempre. Quanto é que você bebeu?

TERESINHA: Quanta pergunta. Não se respeita mais uma senhora bêbada? Tenho que dar satisfação não. Moro sozinha!!

TERESA: Essa casa também é minha!

TERESINHA: Sua e do Rodolfo Jr. Quando eu morrer.

TERESA: Mãe, eu preciso, ok? Me ajuda? Só dessa vez. Ainda tem meu quarto aqui. TETÊ: Mãe, o nome daquilo é depósito.

TERESINHA: Ateliê! Dei meu quarto para quem merecia que é minha máquina de costura, que me completa a aposentadoria, me ajuda com o supermercado...Você vai ajudar?

TETÊ: Olha, tá muito agradável essa celebração de família, mas eu tô voltando pra casa!! TERESA: Você vai ficar aqui!! [puxa a filha pelo braço]

TETÊ: Saco!

TERESA: A gente pode ficar no quarto do Rodolfo. E sim!!! Eu faço mercado!!!

TERESINHA [fazendo careta]: Mas nem nos meus melhores dias eu tive uma alucinação alcoólica tão desagradável.

Nos enunciados, podemos perceber a “intenção discursiva de discurso ou a vontade discursiva do falante, que determina o todo do enunciado, o seu volume e as suas fronteiras” (BAKHTIN, 2010a, p. 281). No diálogo, as intenções discursivas das Teresas colidem, isto é, as vontades são incompatíveis a princípio. Teresa utiliza argumentos econômicos para atravessar a porta e ultrapassar o cronotopo da soleira, de tal forma que vai se delineando uma espécie de jogo no qual Teresa e Teresinha são antagonistas, e Tetê situa-se como coadjuvante.

Enquanto Teresa reclama que a mãe não a entende e pede acolhimento, Tetê ironiza a “celebração de família”, tentando convencer a mãe a deixá-la voltar para sua casa e seu quarto. A falta de apoio de Teresinha para sua filha é reforçada aqui quando pergunta “O quê que vocês estão fazendo aqui?”, ao tempo que condena a separação da filha depois dos 40 anos, menosprezando a infelicidade ao enunciar “Separar com essa idade?! Tava na merda, mas tava quentinho”. Sua atitude defensiva, na verdade, expõe a fragilidade da sua solidão, com a qual se acostumou: “Tenho que dar satisfação não. Moro sozinha. [...] Dei meu quarto para quem merecia que é minha máquina de costura, que me completa a aposentadoria, me ajuda com o supermercado. Você vai ajudar?” Na sua fala, a máquina de costura, o trabalho e o dinheiro advindo do trabalho são mais merecedores do espaço físico da casa do que a filha, que se apresenta como um peso adicional à instabilidade financeira da mãe, instaurando uma dialética entre a racionalidade de Teresinha e a emotividade de Teresa.

Como percebemos logo nas primeiras cenas em que as três estão reunidas, a relação mãe-filha ganha contornos que a diferem de outras produções que exploram o lado melodramático desse vínculo. A série subverte o ideal da mãe amorosa que abre mão da sua vida em função das necessidades da filha.

Com a viuvez, Teresinha reinventou a vida, preencheu o dia com atividades, mas sentia falta das descendentes que não mantinham contato com ela. Ao longo dos acontecimentos, vemos que ela vai “amolecendo” com a convivência e chega a admitir que não quer mais se afastar de Teresa e Tetê. No entanto, os primeiros tempos são bastante tumultuados, quando, como o próprio nome do episódio indica, a situação efêmera da mudança vai aos poucos tomando ares de duradoura.

Nesse quadro, a entrega de um colchão é motivo de muitos conflitos. Teresa havia comprado o produto para a nova fase de separada, acreditando que permaneceria no apartamento. Com a mudança de planos, decide que o colchão seja entregue na casa da mãe Teresinha, que não aceita a “invasão”, esbraveja e deixa a filha em um quarto pequeno para não instalá-la no quarto do filho Rodolfo, cômodo que permanece intocável mesmo com o

filho morando em outro estado há muitos anos. Teresa pede para ficar no antigo dormitório do irmão, mas a mãe intransigentemente não cede.

Assim, as duas discutem de pé na sala da casa, aos gritos: Teresa quer que o colchão fique na casa, Teresinha quer que a filha vá embora com o colchão. A cena alterna entre plano médio e plano de conjunto, no qual vemos a movimentação dos entregadores indecisos entre as duas mulheres que lhes dão ordens contraditórias. Essa situação revela a grande instabilidade emocional das personagens, ao mesmo tempo que há um borramento de fronteiras entre público e privado, na medida em que dois estranhos ouvem a tensa discussão entre mãe e filha.

TERESA: Repete isso.

TERESINHA: Quantas vezes você quiser. Você não é bem-vinda. TERESA: Ele [o colchão] não cabe lá. [no quarto onde ela está instalada] TERESINHA: E você não cabe aqui.

TERESA: Meu Deus, tudo isso só porque eu pedi para colocar o colchão no quarto do seu queridinho? TERESINHA: Não, tudo isso porque você invadiu a minha casa, queridinha.

TERESA: Ai, quer saber, se é assim, eu prefiro voltar pro apartamento.

TERESINHA [grita para os entregadores do colchão] Pode levar o colchão de volta pro caminhão!! TERESA: Detalhe: a reforma de 98 aqui fui eu que paguei. [grita para os entregadores] O colchão

fica!

TERESINHA: Porra, até minha família joga as minhas dívidas na cara?! TERESA: Como assim, minhas dívidas? Suas dívidas?!

TERESINHA: Você quer ficar, você fica. Volta o colchão!

TERESA: Que generosidade, não é Dona Teresinha... Não é isso que se espera de uma boa mãe? TERESINHA: Eu tenho mais o que fazer do que ser uma boa mãe. Se você não reparou, eu tenho uma

vida!

Os enunciados “Você não é bem-vinda”; “você não cabe aqui”; “você invadiu a minha casa, queridinha” mais uma vez evidenciam a distância entre o comportamento esperado de uma mãe, ou seja, o seu papel social, e a real atitude de Teresinha, como fruto das diferenças entre mãe e filha e da relação conflituosa estabelecida entre elas ao longo dos anos.

Sentindo sua rotina ameaçada e preocupada com os gastos relacionados à presença da filha e da neta, Teresinha permanece irredutível. No seu enunciado, o uso de uma palavra afetiva (“queridinha”) se reveste de ironia e responde ao “queridinho” (com que Teresa se referiu a Rodolfo Jr.). A ironia de uma é devolvida pela ironia da outra. Naquele momento, a filha Teresa não é querida, desejada, não há acolhimento, ao contrário. Ela quer que a filha vá embora e a sua vida continue como era antes, como fica claro quando ela manda os entregadores levarem o colchão para o antigo apartamento.

Teresa, então, lembra que custeou uma reforma longínqua, o que ocasiona uma virada na discussão entre as duas. Teresinha se enfurece ainda mais (“Porra, até minha família joga

as minhas dívidas na cara?!”), mas quando Teresa questiona sobre o assunto, Teresinha transforma-se, ao que parece para esconder a dívida da casa e vislumbrando a possibilidade de uma ajuda financeira para solucionar a questão. O tom de voz diminui, tornando-se mais moderado, embora não por muito tempo. Logo, Teresinha mostra-se novamente na defensiva ao enunciar: “Eu tenho mais o que fazer do que ser uma boa mãe”.

Bastante representativa da personagem, com esse enunciado, Teresinha procura se desobrigar de ser uma boa mãe, fugindo da necessidade de seguir padrões convencionais de maternidade responsável, acolhimento e generosidade – como espera Teresa. De fato, a expectativa social da mãe zelosa que faz tudo pelos filhos não se realiza na personagem. No entanto, a preocupação com o bem da filha, o encaminhamento dos problemas e o afeto vai surgindo de outras formas que não a esperada. Assim, a personagem vai sendo construída no distanciamento entre o ethos discursivo e o ethos pré-discursivo (MAINGUENEAU, 2008), pois o público constrói representações do ethos do enunciador antes mesmo que ele fale. No seu papel de mãe, espera-se que Teresinha se manifeste acolhedora e amorosa, conforme o dever-ser. Não é o que acontece; vemos se anunciar aqui a “recusa do papel” (HELLER, 1972). Assim, a discrepância entre o ethos esperado e o real é produtora de significações para que o espectador possa ingressar no mundo conflituoso das duas Teresas. Além disso, fica evidente o princípio dialógico de constituição da interação verbal, entendida de maneira ampla como princípio constituinte do ser humano pensante e consciente (BAKHTIN, 2010a).

Embora possa parecer que Teresinha não se importe em ser uma boa mãe, como evidencia a sua enunciação, no nono episódio da primeira temporada (T01E09: “Como nossos pais”), vemos uma brecha no sentido contrário. Na cena em questão, Teresa confronta Tetê pelo seu fraco desempenho escolar, culpando-se por ter outro relacionamento logo depois da separação.

TERESA: Você pode me explicar o que tá acontecendo com todas as vírgulas? TETÊ: Não precisa se fazer de boa mãe. Ninguém tá vendo!

TERESA: Quando você crescer, você vai entender que quando um casal se separa...

TETÊ [interrompendo]: A filha passa a ter dois quartos e como, por sorte, hoje é sexta, eu vou dormir na casa do meu pai!!

TERESINHA: Não faz a Teresa, Tetê!!!

[Tetê caminha em direção à porta da entrada e abre-a.] TERESA: Teresa, você não vai sozinha... Teresa...

[Tetê sai de casa batendo a porta. Teresa abre a porta e grita.] TERESA: Teresa, eu ainda não acabei!!!

TERESINHA: Deixa, deixa. Você era igualzinha.

TERESA [fecha a porta irritada]: [...] Será que ter saído com o Arthur foi um erro? Eu quero ser uma boa mãe.

TERESA: Por que que a gente não conseguiu? TERESINHA: A gente?? Eu consegui.

TERESA: ah... [com descaso]

Figura 20 – Discussão das três Teresas na sala da casa

Fonte: Frames de cena do episódio “Como nossos pais” (T01E09).

Em plano geral, vemos mãe e filha discutindo de pé, no ambiente da sala da casa, enquanto Teresinha observa da sala de jantar, emoldurada por uma estante que faz com que sua figura pareça um quadro em um rápido lance de vista. A figura emoldurada pelo nicho de uma estante antiga – decorada com um retrato também antigo e livros amarelados – remete a um tempo passado, a um retrato (sobretudo quando vemos o sorriso mais convencional pouco comum à personagem) e com a mão direita mostrada como se fosse um aceno tímido a um possível observador. Em outra perspectiva, pode-se imaginar que é Teresa que observa a cena da discussão entre Teresa e Tetê. Dessa forma, a mise-en-scène e a cenografia possibilitam uma cenografia discursiva que configura os enunciadores e os coloca em campos diferentes. Dessa forma, pode-se dizer que a imagem emoldurada de Teresa a reconfigura em outra dimensão espaço-temporal dentro do discurso; possibilitando-lhe, talvez, uma espécie de reexame de suas atitudes passadas e presentes como mãe.

O significado de ser uma boa mãe é tematizado entre as três gerações. Furiosa com o confronto, Tetê acusa Teresa de só tentar ser uma “boa mãe” para impressionar os outros e foge para a casa do pai. Teresa parte do pressuposto de que fracassou no papel de mãe, juntamente com Teresinha (“a gente não conseguiu”), mas esta personagem exclui-se, ponderando que conseguiu, sim, ser uma boa mãe, ao que Teresa parece duvidar a partir de sua experiência de filha, por um gesto que mostra desconfiança e descaso.

Disso decorrem os diversos significados imbricados em “ser uma boa mãe” que podem contemplar desde a concepção e dar à luz, como a noção mais ampla de cuidar ao longo da vida, envolvendo proteção e zelo nos primeiros anos, a subsistência com alimentação,

vestimenta, dedicação com a saúde, educação e encaminhamento. Abrange, assim, uma construção social marcada por doação e dedicação às necessidades do filho, tratando-se, dessa forma, de uma grande empreitada, na qual Teresa considera – ou enuncia – que Teresinha fracassou, muito embora ela e seu irmão estejam criados e, de certa forma, tenham conquistado uma vida tranquila. O discurso de Teresinha na chegada de Teresa pode ter contribuído para esta não caracterizá-la como uma boa mãe, muito embora aquilo que é dito na discussão nem sempre signifique a verdade de cada um.

A atribuição de significados sociais ao papel de mãe é culturalmente reforçada, fazendo parte do manual de instruções que a cultura, com suas normas e posições, constrói. A maternidade é tida como símbolo de amor verdadeiro, ternura, cuidado, segurança. Todos esses valores não precisam ser explicitados, são intrinsecamente associados às mães. E é a recusa desse papel por parte de Teresinha que causa estranhamento, curiosidade e interesse pela trama narrativa.

De toda forma, Teresa só consegue persuadir sua mãe a aceitá-la na casa quando evoca seu capital financeiro, informando que ajudará nas despesas, embora ainda não saiba da dívida. Assim, Teresa permanece na casa, mas não no quarto de Rodolfo Jr., que acaba ficando para Tetê. A relação desta com sua avó Teresinha é distinta, amistosa. As duas se entendem bem e dividem mais confidências entre si do que com a geração intermediária de Teresa. Essa relação emocional entre avós e netos parece ser uma constante, como identifica Andréa Alves na sua investigação sobre Família, sexualidade e velhice feminina (2005). Tal vínculo é movido sobretudo pelo afeto, ao passo que a função paterna e materna se fundamenta em autoridade, de tal forma que “autoridade e afeto constituem-se como eixos orientadores das relações e das posições das gerações dentro de uma família” (ALVES, 2005, p. 28).

Ao conversar com Tetê, a avó assume uma voz doce e gestos ternos, por exemplo, quando ela se desculpa com Tetê, no episódio “Temporariamente definitivo” (T01E02), pelo jeito como as recebeu.

TERESINHA: Desculpa, viu? Se eu fui meio assim, é que eu queria deixar tudo como era. Esse quarto aqui, do jeito que ele tá, me dá a sensação de que as coisas são as mesmas. Sua mãe casou. Rodolfinho foi lá pra Juiz de Fora, seu avô... eu fui ficando sozinha. Comecei a não saber mais quem eu sou...

TETÊ: Mas você é a pessoa que mais sabe quem é. No mundo! TERESINHA: Sou, não sou? [ri]

A busca por “deixar tudo como era” aponta para uma marca comum nas narrativas dos idosos. Trata-se da busca de sentido a partir dos objetos e dos ambientes da casa, como local seguro de referência familiar. Como “lugar dos ritos que aglutinam os membros” (FERREIRA, 2006, p. 215), a casa51 evoca memórias, transmitindo lembranças de um passado às vezes mais feliz, marcado pela convivência com vizinhos e parentes, atrelada, assim, à sociabilidade.

A cumplicidade entre avó e neta vai se ampliando com o avanço dos episódios. Apesar da distância etária, há uma crescente proximidade afetiva entre as duas, muitas vezes com borramento de fronteiras. Assim é que vemos, por exemplo, Teresinha confidenciar à neta sobre a dívida da casa e, mais adiante, pedir conselhos sobre seu primeiro encontro amoroso pós-viuvez no episódio “Dinâmica de grupo” (T02E06). Tetê vibra com essa novidade da avó e, com naturalidade, numa conversa entre iguais, faz recomendações à avó sobre o que é

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