• Aucun résultat trouvé

CHAPITRE 3 : APPLICATION DES TECHNIQUES DE SATISFACTION DE

1 Notions d’Analyse par intervalles

1.4 Fonctions d’inclusion

O espaço sempre foi uma fonte de inspiração para as ciências sociais, especialmente para algumas disciplinas, como geografia, história, antropologia, arquitetura, arqueologia, sem esquecer a sociologia e a psicologia. Essas disciplinas encaram o espaço na sua vertente social, mesmo se o interpretarmos através da nossa dimensão humana, de lhe atribuir sentido, transformando-o em lugar ou, por outro lado, impormos uma presença, um sentimento de pertença, se o apropriarmos, transformando-o em território. Lefèbvre, recordado por Barracho e Dias (2010) sempre olhou o espaço como um produto social, organizado e disposto de acordo com determinados valores e princípios. Os mesmos autores realçam que o espaço pode ser apreendido como “um modelo de organização das atividades, dado que desempenha o papel de um instrumento funcional e de um quadro simbólico – todo o espaço é um instrumento e um símbolo de uma dada coletividade, de um tipo específico de cultura” (Barracho e Dias, 2010: 20). Nesse sentido, o espaço assume-se como uma organização social, como unidade social instituída que realiza um conjunto de

atividades utilizando meios orientados para fins bem definidos. Ou seja, como um “sistema social definido, cujas dimensões podem ser reagrupadas num certo número de sistemas” (Barracho e Dias, 2010: 149). Sejam sistemas de controlo, de atividades, de interdependência, de autoridade ou qualquer outro sistema, a verdade é que passamos a vida em espaços sociais que mais não são do que organizações estruturadas. Nascemos, vivemos, estudamos, trabalhamos, brincamos e... morremos em organizações. Organizações que moldam os nossos comportamentos mediante o contexto para o qual somos remetidos no seio das nossas atribuições pessoais e sociais.“Toda a interação entre indivíduo e espaço se articula à volta de duas dimensões interdependentes: a espacialidade das estruturas sociais e a socialização das estruturas sociais” (Barracho, 2001: 21-22). Ou seja, a forma como ocupamos o espaço e a forma como relacionamos essas diferentes ocupações. Nesse sentido, embora sem abandonar os termos de lugar e território, ter-se-á que analisar o espaço como ambiente social, onde se desenrolam papéis e funções sociais. Consideramos ambiente como “a organização sistemática e complexa do espaço, tempo, significado e comunicação que ocorrem em simultâneo numa série de configurações” (Barracho e Dias, 2010: 28). Essa configuração atribui aos espaços caraterísticas singulares, que os diferenciam entre eles. O ambiente, caraterizado num espaço social, apresenta-se como “uma unidade composta de elementos físicos que interferem com os dados socioculturais consentâneos com os lugares e com os grupos que neles se movem e aí vivem” (Barracho e Dias, 2010: 34). Os mesmos autores lembram ainda que “o ambiente é sobretudo o espaço organizado e constitui o quadro social em que nos inserimos. Todo o espaço é construído socialmente e o termo social é (...) uma dimensão central.” (Barracho e Dias, 2010: 25).

Ao entender o espaço como fenómeno social, olhamos para o mesmo como uma apreensão pessoal por parte do indivíduo, onde se destaca a interação entre este e o meio social onde se insere. Ou seja, os comportamentos humanos podem ser caraterizados pelo tipo de espaço envolvente.

Para Proschansky et al (1970), recordados por Barracho (2001)

o ambiente físico que o homem constrói é tanto um fenómeno social como um fenómeno físico. O mundo construído, quer se trate de uma escola, de um hospital, de um apartamento ou de uma autoestrada, é a expressão particular de um sistema social que influencia as nossas atividades e as nossas relações com os outros (Barracho, 2001: 20).

Ou seja, “o ambiente induz um comportamento como se de um estímulo mecânico se tratasse” (Barracho, 2001: 20).Neste plano de análise, Barracho e Dias (2010) oferecem na sua obra algumas contribuições teóricas acerca do espaço, recolhidas ao longo do tempo,

Enquadramento teórico – A geografia do que somos no universo que habitamos

76

que contribuem para compreensão dos contextos sociais como agentes influentes do comportamento humano.

Do ponto de vista da fenomenologia, o homem não experiencia o mundo tal como ele é na realidade, pois a experiência que se tem do mundo é sempre resultado de uma interação. A intencionalidade é, assim, a chave que nos permite interpretar os estímulos que recebemos do mundo real. A teoria da Forma e do Campo defende que qualquer que seja o conhecimento, opinião ou crença que o sujeito tem do ambiente, de si mesmo ou do comportamento de outra pessoa, ele começa sempre pela perceção. Ou seja, a consciência do indivíduo é sempre o fator de primeira análise, antes de qualquer gesto ou comportamento.

A abordagem psicossociológica defende que são as relações sociais que influem na forma como o indivíduo encara o espaço, apropriando-o. Esse afrontamento será uma consequência direta de interações geradas no seio de grupos, de classes sociais ou ainda dentro da sociedade propriamente dita. Sendo o espaço algo organizado segundo valores, princípios modelos e sistemas de representação, o indivíduo ou está em harmonia ou em conflito com os outros. Isto, tendo em conta a especificidade de cada cultura e respetivo processo de socialização. Contudo, para que esse processo aconteça, é necessário que exista uma identificação dos espaços.

Na ótica do comportamentismo, entende-se que todo o comportamento aprendido é uma resposta ao estímulo de acordo com um comportamento anterior e torna-se num estímulo para o comportamento subsequente. Entende-se, portanto, que o comportamento humano é uma forma de adaptação ao ambiente. Todavia, o próprio ambiente é que condiciona o comportamento humano.

Por sua vez, o behaviorismo defende que o ser humano é maleável, pois altera o comportamento em função dos estímulos que recebe. Ou seja, o comportamento humano é influenciado pelo espaço, sem relação inversa.

O conjunto de todas estas teorias contribuem para uma breve análise acerca da relação entre o indivíduo e o espaço social. Essa análise pode ser elaborada com base em seis princípios, a saber: Intencionalidade, perceção, identificação, adaptação, estímulo e reprodução:

1. Intencionalidade, porque em todo o individuo existe uma intenção de se posicionar num determinado espaço.

2. Perceção, porque o indivíduo, antes de qualquer comportamento, procura compreender e percecionar o contexto onde está envolvido.

3. Identificação, porque é necessário haver um vínculo recíproco entre o espaço e o indivíduo para que ambos se considerem parte integrante um do outro.

4. Adaptação, porque a relação entre espaço e indivíduo é marcada por ajustes, cedências e regulações de ambas as partes.

5. Estímulo, porque o indivíduo age como resposta a estímulos que vêm do ambiente social onde está inserido.

6. Reprodução, porque, como ser social, o ser humano é instrumento reprodutor de uma cultura dominante num determinado espaço.

Qualquer destes princípios, em conjunto ou singularmente, orientam a relação entre o indivíduo e o espaço social e vice-versa. Como tal, cada ambiente é um ser vivo numa relação bidirecional com o ser humano.

Sem dúvida que o ambiente (...) é mais do que um mero pano de fundo para a nossa ação; antes a integra como um elemento fundamental; contudo, também o comportamento humano influencia o ambiente (...) Assim, a casualidade unidirecional dá lugar a uma causalidade bidirecional, a uma interação circular, na qual o Homem e o ambiente arquitetónico se formam, reciprocamente, num devir constante” (Barracho e Dias, 2010: 170).

Essa reciprocidade é sustentada em inúmeras particularidades, que estimulam o indivíduo para as mais diversas atitudes, pois “a reação a um meio não assenta apenas sobre as suas caraterísticas físicas mas, também, sobre os mais variados estímulos do ponto de vista psicológico e social” (Barracho e Dias, 2010: 27). A relação do Homem com o meio depende de três variáveis: física, pessoal e social. Na variável física, o Homem reage a impulsos materiais, tais como a forma ou a arquitetura do espaço. Do ponto de vista pessoal, o que se destaca é a forma como o ser humano interpreta e decifra determinado lugar e da forma como ele estilhaça os sentidos. Por último, a vertente social diz respeito à relação entre os atores sociais que em determinado espaço se cruzam e interagem.

Todas estas variáveis começam e terminam no indivíduo e dependem, essencialmente, de um fenómeno chamado identidade, que vai permitir ao ser humano transformar um espaço sem relevância alguma num ponto de referência e assinalá-lo em sintonia com a sua personalidade.

Bartolomeu Paiva associa esse fenómeno à dimensão simbólica que atribuímos ao espaço.

A dimensão simbólica, associada à identidade e logo, à singularidade dos contextos decorrentes de uma especificidade própria, tantas vezes responsável da atração que sobre nós exerce a cidade… afinal, um conjunto de aspetos simbólicos, capazes de afirmar a cultural da própria cidade (Bartolomeu Paiva, 2014: entrevista n.º 3).

Barracho e Dias lembram que

a quantidade de espaço disponível e a distância entre as pessoas é um elemento importante no conhecimento do meio, gerando importantes efeitos no comportamento das pessoas e que nos indica, também, como elas se sentem ao utilizar o espaço e ao entrar em interação com os seus semelhantes (Barracho e Dias, 2010: 36).

Enquadramento teórico – A geografia do que somos no universo que habitamos

78

A relação de proximidade entre sujeito e espaço desenha-se na forma de espiral e começa quando o primeiro transforma o segundo num ponto de referência. Depois, essa relação vai variando, numa transmutação constante definida por Barracho e Dias (2010) em quatro tipos de distância: íntima; pessoal; social e pública.

Podemos considerar estas distâncias do mais perto para o mais longínquo, sendo que a distância íntima é aquela em que o indivíduo se sente mais próximo do espaço. Essa proximidade vai diminuindo, desde a distância pessoal, social, até chegar à distância pública, em que, praticamente, a relação entre o espaço e o sujeito deixa de existir.

Em cada tipo de distância, existe a fase mais próxima e a fase mais afastada. Ou seja, a transição entre cada relação não é assumida de forma abrupta, mas sim de um modo ténue. Por exemplo, o indivíduo sente uma relação íntima com um determinado espaço. Porém, por qualquer motivo, essa intimidade vai desaparecendo, até sentir uma distância social. Passa, no entanto, pela distância íntima afastada; pessoal afastada; pessoal próxima e social afastada. A cada fase, obviamente, corresponde uma forma de interação social diferente, que irá definir a relação do Homem com o meio nas variáveis física, pessoal e social, tal como fora mencionado anteriormente.

Nesta lógica, cada espaço educativo será o ambiente social onde se processa a partilha de conhecimentos e/ou competências, que levam a determinados comportamentos, um espaço educativo é, necessariamente, um espaço organizado. Todo o espaço educativo é um “espaço normalizado que integra um certo número de elementos em termos de equipamentos, devendo o conjunto conferir uma grande estabilidade, no sentido de definir uma maior funcionalidade na relação espaço/ atividade/ indivíduo” (Barracho e Dias, 2010: 121). Para um espaço funcionar, isto é, para conseguir levar a cabo as suas funcionalidades, é necessário educar quem dele faz parte, no sentido de conhecer e cumprir o papel que deve desempenhar na relação com todos os elementos intervenientes.

Contudo, como defende Cunha (2008), “o espaço, então, sendo sempre potencial, abriga a possibilidade da existência de programas de formação (…), mas não garante a sua efetivação” (Cunha, 2008:184). Ou seja, nem sempre um espaço educativo é um espaço de educação. O autor recorre ao exemplo da universidade, mencionando que “tradicionalmente, a universidade é identificada como um espaço de formação docente, inclusive pelas prerrogativas legais que tem. Mas o facto de ser o espaço da formação não significa que, necessariamente, se constitua em um lugar onde ela aconteça” (Cunha, 2008:183-184).

Deste modo, realçam-se três caraterísticas de um espaço que se pretende educativo:

- Singularidade e distinção, pois um espaço educativo, pelas suas funções e caraterísticas, é diferente do outro;

- Legalidade, pois para um espaço educativo funcionar, terá de o fazer dentro das normas e imposições legais que o regem;

- Programação, relacionada, principalmente, com o tempo que o espaço ocupa. Assumir uma programação, ser distinto e cumprir a lei são os três principais pressupostos de um espaço educativo. Qualquer que seja a atividade desenvolvida em determinado espaço educativo, “que esta se faça numa instituição, num clube, numa família ou num bairro, requer tempo de preparação, de reflexão, de implementação, de empenho” (Capul e Lemay, 2005a: 149). Recuperando as suas três principais caraterísticas, um espaço educativo é único, programado e de acordo com as normas. Assim, podemos considerar qualquer espaço social um espaço educativo, até porque todo o contexto social tem poder para exercer a sua própria formação.

Apesar de reconhecermos a escola como espaço social e educativo dominante, compreendemos que a rua, quando encarada como um espaço de encontro entre as pessoas, pode ser considerado um espaço educativo, pois evidencia, transmite e relaciona os diferentes papéis que são assumidos por essas pessoas na sociedade. Por outro lado, também reconhecemos espaços que, na sua função, não surgiram para educar, mas que têm rasgos dessa natureza, como por exemplo um Centro Comercial que recebe uma exposição temporária ou um jardim que proporciona um concerto ao ar livre. Ou ainda espaços que, de forma muito subtil, transmitem uma mensagem associada a determinados valores, que irão resultar em determinados comportamentos.

Ao abordar o espaço social como espaço educativo, estamos a destacar a aprendizagem social. A aprendizagem social defende que a aquisição de conhecimentos se baseia na imitação de comportamentos. Defende também a observação e a reprodução como principais influentes do individuo, quando inserido num espaço social. Ou seja, há uma espécie de reprodução de comportamentos e condutas resultantes da interação das pessoas no espaço social. A aprendizagem social defende o espaço social como contexto educativo, ou, por outras palavras, a sociedade escolarizante (para além de escolarizada), a comunidade como um todo educativo. Como recorda Canastra,

a comunidade é, efetivamente, o lugar privilegiado a partir do qual se estabelece a articulação entre os vários espaços e tempos educativos. É na comunidade que se jogam os principais desafios em matéria de educação e formação ao longo da vida (Canastra, 2009: 2025).

Concluindo, é possível interpretar a própria sociedade como um espaço educativo, não só pela soma das partes que a compõem, mas como um todo. Por esse facto, iremos dedicar algumas páginas ao fenómeno das cidades educadoras, que, julgamos, vão ao encontro dos princípios educativos que prescrevem a comunidade como contextos educativos ao longo da vida.

Enquadramento teórico – A geografia do que somos no universo que habitamos

80

Documents relatifs