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Como já mencionamos anteriormente, no que diz respeito à coleta de informações em sala de aula, o ciclo de avaliações formais, que acontece ao longo de uma semana ao final de cada bimestre, conhecido como “provão”, já é bem estabelecido como sistema de avaliação na tradição pedagógica da escola. Consiste em provas específicas de cada disciplina sobre o conteúdo desenvolvido, e ocorre apenas através de questões do tipo teste. Essas avaliações bimestrais têm um peso de 40% na nota final de cada disciplina, conforme estabelecido pela coordenação pedagógica.

No   período   em   que   o   pesquisador/professor   esteve   presente   na   escola,   as avaliações   das   disciplinas   ocorreram   duas   semanas   após   o   fechamento   da   unidade desenvolvida em sala de aula. Dentre um total de sete testes sobre os conteúdos de física trabalhados   no   bimestre,   duas   questões   foram   formuladas   pelo   pesquisador/professor referentes   às   leituras   propostas   na   unidade   de   ensino.   Essas   questões   dizem   respeito   ao fenômeno da radiação emitida por um corpo negro, investigado por Max Planck.

Embora, coerentemente com o referencial que pautou nossa abordagem teórica e metodológica, a maioria das análises nesta pesquisa tenham um caráter qualitativo, neste item apresentamos   essas   questões   e   também   o   número   e   porcentagem   de   estudantes   que   as responderam adequadamente.

As questões, dispostas na composição da avaliação da disciplina como os dois últimos testes, e cujos itens d) e e), respectivamente, eram os considerados corretos, foram:

6)  Na física,  um “corpo negro”  é um corpo que absorve toda a radiação que incide sobre ele. Outra característica importante do fenômeno que envolve a radiação de um corpo negro, estudado por Max Planck, é que ele: a) não emite nenhuma radiação eletromagnética; b) também emite radiação eletromagnética, mas que depende tanto da sua temperatura quanto do material de que é feito; c) também emite radiação eletromagnética, mas que depende apenas do material de que é feito e independe da sua temperatura; d) também emite radiação eletromagnética, mas que depende apenas da sua temperatura e independe do material de que é feito; e) também emite radiação eletromagnética, mas que independe tanto da   sua   temperatura   quanto   do   material   de   que   é   feito.   Depende apenas da radiação que incide sobre ele. 7)  Problemas existentes no confronto entre o eletromagnetismo e a termodinâmica fizeram parte do fenômeno da radiação de um corpo negro estudado por Max Planck. Dentre outras características, esses problemas se referiam ao fato de que: a) nenhuma dessas áreas da física previa a emissão de radiação pelo corpo negro;

b)  para   o   eletromagnetismo,   nenhuma   radiação   eletromagnética carregava energia;

c) para a termodinâmica, uma vez que a energia assumisse a forma de   calor,  seria   impossível  converter   alguma  parte  deste   calor  em outra forma de energia; d) há uma diferença entre a maneira com que a radiação é absorvida, que depende de sua energia, e como a termodinâmica esperava que a temperatura fosse diferente para cada parte do material de que é feito o corpo negro; e) há uma diferença entre a maneira com que a radiação é emitida, que   depende   de   sua   temperatura,   e   como   o   eletromagnetismo esperava que fosse a distribuição de energia dessa radiação.

Com essas questões buscamos verificar a produção de sentidos dos estudantes com relação a uma noção importante da FQ, a de corpo negro, e a um problema vivido

naquele   campo   específico   da   física   no   período   a   que   os   textos   se   referiam.   Ou   seja,   a referência   às   investigações   em   torno   da  compreensão   das  explicações   existentes   sobre  a natureza da radiação por ele emitida numa situação de equilíbrio. Deste modo, no que diz respeito a esses conteúdos, entendemos que o texto trabalhado na última aula da unidade, fechando os objetivos de ensino planejados, foi fundamental para que os estudantes pudessem elaborar uma interpretação que lhes possibilitasse responderem adequadamente às questões propostas.

Neste   sentido,   no   teste  6)  procuramos   delimitar   especificamente   o   objeto   de

estudo do fenômeno investigado, bem como uma propriedade, fundamentada em um resultado anterior crucial, sobre a qual se desenvolveram as investigações de Max Planck. A questão se referia   basicamente   a   discussões   baseadas   nos   trechos   abaixo,   os   quais   transcrevemos seguidos das respectivas mediações do pesquisador/professor durante a leitura conjunta:

Gustav Kirchhoff havia mostrado que a estrutura da radiação emitida no interior de um recipiente fechado, contendo um número qualquer de corpos e cuja temperatura é uniforme, independe da natureza desses corpos. (PLANCK, 2012d, p. 117) Pesquisador/Professor (P/P), para toda a turma: – “Quer dizer, já tinha um estudo de   um   outro   cientista   que   falava   que   a   radiação   emitida   no   interior   de   um recipiente independia da natureza. Quê que é natureza aí, dos corpos... do que o corpo era feito! Então podia ser qualquer material que a radiação emitida num recipiente fechado, se a temperatura fosse uniforme, isso é muito importante oh, se a   temperatura   fosse   uniforme,   a   estrutura   dessa   radiação   seria   a   mesma.   A distribuição da radiação que sairia seria exatamente a mesma.”

Desde  então,  sabia­se que  existe uma função  universal  que  liga  temperaturas  e comprimentos de onda. (PLANCK, 2012d, p. 117)

P/P: – “Então tá aqui a importância de que conecta aquilo que a gente tava vendo do eletromagnetismo, aquele tipo de radiação, o como a energia tá no espaço, com a termodinâmica. Quer dizer, existe uma função, um tipo de equação matemática, que   liga   exclusivamente   temperatura   com   comprimentos   de   onda.   Quer   dizer, também a frequência da radiação que tá sendo emitida.”

Para   de   terminar   essa   função,   não   se   levam   em   consideração   as   propriedades específicas de nenhuma substância. (PLANCK, 2012d, p. 117)

P/P: – “Aquela coisa, não depende do corpo, não depende da natureza do corpo. Propriedades específicas da substância não importa.”

[…] Na física, um 'corpo negro' é um corpo que absorve toda a radiação que incide sobre   ele.   Quando   aquecido,   ele   também   emite   radiação   eletromagnética.   Uma aproximação de um corpo negro ideal é fornecida por uma cavidade extensa com uma pequena abertura. Quando aquecida, a cavidade emite radiação pela abertura; essa radiação independe do material de que é feita a cavidade. (Nota do Revisor Técnico em PLANCK, 2012b, p. 38) P/P: – “Então é um corpo especial, toda radiação que chegar vai ser absorvida e De novo não depende do material, pode ser qualquer material, se for um corpo negro, o que que ele vai emitir de radiação só vai depender da temperatura, não vai depender de quanto ele absorve, de que material ele é feito, só vai depender da temperatura. Um forno, de fogão, é quase um corpo negro. Por que que ele é escuro

lá por dentro? Pra ele absorver toda a radiação que incide sobre ele. E aí ele absorve toda a radiação e ele emite de volta dependendo da temperatura que ele tiver. É quase um corpo negro, só que pra radiação ficar lá dentro tem que ter só uma pequena cavidade, ele fala aqui uma pequena abertura, porque se cê tiver abertura muito grande a radiação escapa. Mas um forno é quase um corpo negro. Ele   absorve   tudo   que   incide   sobre   ele   e   emite   de   volta   dependendo   da   sua temperatura. Então vamos terminar o parágrafo. Ele queria entender a estrutura dessa radiação emitida pelo corpo negro. Qual que é a radiação que o corpo negro absorve? Toda a radiação! Por isso que ele é negro. Ele absorve tudo que chega nele. Que que ele emite? Ele emite de acordo com a temperatura. Como ele emite de acordo com a temperatura é que não se conhecia, o como acontecia esse fenômeno. O porquê dele emitir daquele jeito de acordo com a temperatura.” Assim, uma primeira compreensão que visamos referia­se à definição de corpo negro, que segundo a física absorve toda a radiação sobre ele incidente, como apresentado no enunciado   da   questão.   Mas   sobretudo   queríamos   que   os   estudantes   também   tivessem   se atentado   para   o   fato   de   que   ele   emite   radiação   eletromagnética,   refutando   a   primeira alternativa, a despeito de qualquer confusão, relativa a cor por exemplo, que o adjetivo negro de sua nomenclatura pudesse causar.

Em   seguida,   e   associada   a   este   entendimento   inicial,   buscamos   verificar, principalmente, uma compreensão no que se refere a que propriedade física do corpo negro está relacionada à emissão da radiação eletromagnética. Em termos específicos de conteúdo, diz respeito ao resultado já obtido pelo cientista Gustav Kirchhoff acerca da independência entre   a   natureza   (material)   deste   corpo   e   a   radiação   emitida,   e   também   à   ligação   entre temperatura e comprimento de onda desta radiação. Com isso notamos que os itens b), c), e e) possuem incorreções, sendo considerada correta a alternativa d).

Ao todo, levando em consideração as três turmas de terceiro ano do nível médio da escola em que desenvolvemos a unidade de ensino, 95 estudantes realizaram a avaliação bimestral   na   escola,   sendo   registrada   a   ausência   de   apenas   outros   quatro   dentre   os regularmente   matriculados   naquele   período.   Neste   espaço   amostral,   42   estudantes responderam adequadamente ao item  d), o que representa uma proporção 44% de acerto,

Figura 2: Porcentagem de resposta a cada item. Já com relação ao teste 7), buscamos colocar em pauta, em termos gerais, um dos problemas de fronteira entre concepções clássicas do eletromagnetismo e da termodinâmica no que se refere a características em torno da natureza da radiação emitida por um corpo negro. A questão se referia aos seguintes trechos do texto lido, seguidos das mediações a eles referentes realizadas pelo pesquisador/professor durante a leitura conjunta com a turma:

Pareceu­me   que   o   oscilador   linear   de   Heinrich   Hertz   poderia   ser   um   corpo particularmente apropriado ao meu objetivo. Hertz acabava de apresentar uma teoria completa das leis que ligam a emissão de seu ressonador à frequência das oscilações. (PLANCK, 2012d, p. 118)

P/P: – “Oscilador e ressonador dá pra gente pensar uma analogia com a acústica. Por exemplo, um violão. No violão, são as cordas que oscilam e o corpo do violão, a   caixa   de   madeira,   tem   o  papel   de   ressonador.  É   quem   vai   ampliar   aquelas oscilações sonoras. Então a corda oscila. A gente tange as cordas, toca as cordas e elas que vibram e oscilam. Mas é a caixa do violão que ressoa, ela é o ressonador, e de certa forma vai ampliar. Precisa desse regime estacionário, pra elas vibrarem e se ampliarem mantendo o som, pra gente escutar o som que sai do violão. Se fosse só a corda vibrando seria muito baixinho. O corpo do violão tem então esse papel de ressonador. Era isso que ele relacionou nas moléculas: a oscilação, de quem produz as vibrações, e o ressonador daquele que ressoa, de certa forma mantém vivas as oscilações e as ampliam.”

Suponhamos   agora   certo   número   desses   osciladores   situados   num   recipiente fechado, formado de paredes refletoras: eles emitirão e receberão simultaneamente ondas eletromagnéticas e, por analogia com o que ocorre em acústica no caso de ressonadores e de osciladores que trocam energia, deve se estabelecer um estado estacionário assimilável ao estado estacionário correspondente à radiação do corpo negro. (PLANCK, 2012d, p. 118)

P/P: – “Esse estado estacionário, quer dizer, tem que ter uma forma fixa pra poder vibrar e ampliar o som. O violão tem aquela forma física. Aquele desenho não é à toa. Se fosse uma caixa quadrada não ia ressoar. As ondas não iam ressoar e permanecer lá dentro. O ressonador tem a função de pegar a vibração e deixar ela permanecer vibrando nesse regime de forma que ela continua sempre vibrando, por isso que cê toca o violão e o som permanece, ecoando, ressonando lá dentro. E aqui ele   faz,   ele   fala:   'estabelecer   um   estado   assimilável   ao   estado   estacionário correspondente à radiação do corpo negro', aí tem a nota de rodapé dois, que ele vai explicar o quê que é um corpo negro, olha lá...”

Minha primeira  tentativa  fracassou.  Eu esperava  que uma caraterística  qualquer distinguisse a radiação do ressonador da radiação absorvida, de modo que fosse possível estabelecer uma equação diferencial; ora, o ressonador só reagia diante dos raios que ele emitia;  não se mostrava  sensível   às radiações  espectrais  vizinhas. (PLANCK, 2012d, p. 119) P/P: –  “Equação diferencial é um tipo de equação matemática... Quer dizer, ele tava tentando entender por que que o corpo absorvia toda a radiação que incidia sobre ele, mas na hora de emitir, emitia de um jeito especial a radiação. Que ele já falou lá começo que dependia da temperatura, só não sabia o porquê que dependia daquele jeito da temperatura. Quer dizer, um corpo negro absorve toda a radiação mas na hora de emitir, que toda radiação que ele absorve, ou emite, não depende do que era feito o corpo, vai depender só da temperatura. E era isso que ele queria entender.   Absorve   tudo   e   na   hora   de   emitir,   dependendo   de   certo   jeito   da temperatura.”

Para   uma  resposta  adequada  ao   item  e)  na segunda questão que elaboramos,

tivemos como objetivo que os estudantes pudessem estabelecer uma interpretação geral de que, nas investigações de Planck, a abordagem por meio das bases do eletromagnetismo não obteve êxito para que ele pudesse estabelecer uma relação coerente com a distribuição da radiação   emitida.   Associado   a   isto,   pautamos   também   o   resultado   da   termodinâmica,   já tratado na primeira questão, de que a radiação emitida está relacionada à temperatura.

Cabe destacarmos que no item d), apesar das afirmações ali contidas não serem incorretas do ponto de vista da física, tais fundamentos não estavam diretamente em jogo nos problemas de fronteira das duas áreas clássicas com que Planck lidou em seus trabalhos. Conforme vimos no capítulo anterior, segundo Paty (2008, p. 42) a concepção de Planck se sustentava   na   continuidade   da   distribuição   de   energia   carregada   pela   radiação,   em conformidade com a teoria eletromagnética clássica, sem assumir que uma descontinuidade era inerente à própria natureza da radiação. Já os demais itens, a), b) e c), deste último teste, possuem   incorreções   segundo   alguns   fundamentos   clássicos   do   eletromagnetismo   e   da termodinâmica, trabalhados nos textos de Maxwell e Boltzmann que integraram a unidade de ensino.

Figura 3: Porcentagem de resposta a cada item.

Com relação ao número de respostas ao item e) consideradas corretas na segunda

questão que propusemos, houve um pequeno aumento com relação ao índice  da questão anterior.   Desta   vez   foram   45   acertos,   que   representam   um   aproveitamento   positivo   de aproximadamente   47%   no   teste  7),   levando   em   conta   o   mesmo   espaço   amostral   de   95

estudantes.

Podemos   tomar   esses   desempenhos   como   sendo   bastante   relevantes   se considerarmos   que   a   física   é   recorrentemente   considerada   de   difícil   compreensão   pelos estudantes em geral, juntamente com a matemática, dentre as disciplinas escolares de nível médio. Em vias de termos subsídios que fundamentem a relevância desses resultados, uma comparação  possível, ainda que simplista e sem pretensão de qualquer análise estatística aprofundada,   diz   respeito   à   proporção   geral   de   acertos   em   cada   um   dos   demais   testes presentes na mesma avaliação bimestral realizada por estes estudantes, que foram elaborados pelo professor responsável das classes. Os três primeiros testes da avaliação também possuíam um caráter qualitativo no qual não era solicitado o uso de linguagem matemática em suas questões. Neles havia a predominância de uma compreensão conceitual da física no que se refere, respectivamente, à constituição atômica segundo o modelo de Rutherford, a algumas propriedades do átomo

segundo o modelo de Bohr e à emissão ou absorção de fótons em transições eletrônicas entre diferentes   níveis   de   energia.   Os   índices   de   acertos   nestes   primeiros   testes   foram, aproximadamente: 1) 56%, 2) 49% e 3) 12%.

Por   outro   lado,   os   demais   testes   se   fundamentavam   no   uso   da   linguagem matemática para possibilitar uma resposta, sendo que em termos de conteúdos abordados se referiam,  respectivamente:  à energia emitida  ou absorvida por um fóton em determinada transição eletrônica no átomo de hidrogênio; ao número de partículas    e  –  emitidas num

processo específico de transformação nuclear do elemento químico urânio. Nestes outros dois testes, os índices de acertos foram, aproximadamente: 4) 42% e 5) 19%.

Figura 4: Porcentagem de acerto em cada questão.

É evidente que o fato de se tratar de uma atividade realizada em condições de produção   diferenciadas,  a   saber,  pouco  presente   na  rotina   escolar   da  disciplina  e   de  ser desenvolvida  pelo pesquisador/professor, alguém  externo  à comunidade,  novos elementos específicos podem ter acarretado uma mobilização e/ou um envolvimento particulares com os conteúdos trabalhados na unidade de ensino. Outro ponto importante é que, dentro de todo conteúdo programático da avaliação bimestral, os assuntos da unidade de ensino fizeram parte das   últimas   aulas   que   antecederam   sua   aplicação   aos   estudantes,   de   modo   que   essa proximidade temporal pode ter contribuído para o desempenho dos estudantes.

Porém, parece­nos significante que os índices de acerto de 44% no teste 6) e de 47% no teste 7) possam apontar para uma produção de sentidos, por boa parte dos estudantes, coerentes com conhecimentos acerca de algumas das primeiras noções da FQ, trabalhadas a partir dos objetivos e estratégias de ensino da unidade que desenvolvemos. Neste sentido, dentre os grupos de 42 e de 45 estudantes que responderam adequadamente tais testes, 26 deles conseguiram também responder adequadamente a ambos. Isto indica que 62% daqueles que acertaram o teste 6) também acertaram o teste 7), e que 58% daqueles que acertaram o teste   7)   também   acertaram   o   teste   6),   aproximadamente.   Em   termos   gerais,   ou   seja, considerando   todo   o   espaço   amostral,   27%   dos   estudantes   que   realizaram   a   avaliação bimestral   acertaram   ambos   os   testes   propostos.   Em   contrapartida,   34   estudantes   não responderam   adequadamente   nenhuma   dessas   questões   que   propusemos,   número   que representa 36% de todos os estudantes de tal avaliação.

4   ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES COLETADAS