A validação clínica da escala de avaliação do autocuidado de pacientes com insuficiência cardíaca realizada em três etapas possibilitou a realização das seguintes considerações:
A primeira etapa, pré-teste, foi realizado com 57 pacientes com IC, utilizando a segunda versão da EAAPIC composta por 20 itens, quais sejam: Controle dietético, Consumo de sal, Ingestão hídrica, Monitorização diário do peso corporal, Exercício físico regular, Atividade laboral, Atividade sexual, Conhecimento sobre a IC, Aceitação e adaptação da IC, Monitorização e reconhecimento de sintomas de descompensação da IC, Acompanhamento com profissionais de saúde, Abstenção do tabagismo, Abstenção de bebidas alcoólicas, Higiene pessoal, Esquema vacinal atualizado, Uso regular da medicação prescrita, Gerenciamento do estresse, Atividade de lazer, Procura ajuda quandoaparecem sintomas de descompensação e Rede de suporte familiar e social.
A segunda versão da EAAPIC foi reformulada conforme as sugestões dos juízes técnicos, quais sejam: junção dos itens Conhecimento sobre a IC e Aceitação e adaptação da IC e dos itens Monitorização e reconhecimento de sintomas de descompensação da IC e Procura ajuda quandoaparecem sintomas de descompensação; o item Atividade de lazer foi colocado como um sub-item do item Gerenciamento do estresse. Também foram acatadas as propostas relacionadas as respostas itens Controle do consumo de sal, Abstenção do tabagismo, Abstenção de bebidas alcóolicas. Além do acréscimo do item Sono e repouso preservados, o qual foi apontado como indicador de ausência de sintomas de descompensação. Assim, originou-se a terceira versão da escala, instrumento piloto aplicado no polo empírico.
A terceira versão da EAAPIC ficou composta por 18 itens correspondentes às práticas de autocuidado (Conhecimento e adapatação, Reconhecimento e procura de serviços de saúde na presença de sintomas de descompensação da IC, Controle dietético, Controle do consumo de sal, Ingestão hídrica adequada, Monitorização diário do peso corporal, Exercício físico regular, Adequação da atividade laboral, Adequação da atividade sexual, Sono e repouso preservados, Acompanhamento com profissionais de saúde, Abstenção do tabagismo, Abstenção de bebidas alcoólicas, Higiene pessoal, Esquema vacinal atualizado, Uso regular da medicação prescrita, Gerenciamento do estresse e Rede de suporte familiar e social) distribuídos em seis domínios. Cada item possuía subitens que se constituíram em aspectos para facilitar o julgamento de cada prática. A pontuação variou de 18 a 90.
Na segunda etapa do estudo, polo empírico, houve a aplicação da escala a 276 pacientes com IC atendidos em um ambulatório de IC.
Essa aplicação evidenciou predomínio das seguintes características sociodemográficas: sexo masculino (60,1%), idade de 40 a 59 anos (54,8%), menos de 8 anos de estudo (45,6%), casados ou em união estável (68,1%), procedentes de Fortaleza (51,1%), renda ≤ R$ 776,00 (47,1%), não brancos (75%), ausência de atividade laboral (78,2%) e católicos (64,5%). Sobre as características clínicas, a média de tempo de diagnóstico da IC foi de 6,9 + 6,06 anos, a etiologia mais comum foi a isquêmica, a maioria dos pacientes foi classificado na classe funcional II e encontraram-se como fatores de risco cardiovascular: antecedentes familiares (80,2%), hipertensão arterial (64%), dislipidemias (37%) e diabetes melitos (26,1%).
Em geral, percebe-se adequado perfil lipídico nos pacientes, com exceção dos níveis de HDL, já que 67,2% dos pacientes possuíam baixos valores. A média da FEVE foi de 39,9 + 13,3%, variando de 14-77%. O exame físico revelou pacientes com sobrepeso, com média de IMC de 27,2 + 5,07, níveis tensionais, frequência cradíaca e frequência respiratória dentro dos parâmetros de normalidade. A maioria dos pacientes (68,8%) não passou por internamentos hospitalares nos últimos seis meses, mas 26,4% tiveram atendimento em emergências hospitalares devido aos sintomas de descompensação, sendo os mais frequentes: dispneia (54%), edema (45,3%), fadiga (45,3%) e ortopneia (26,1%).
A terceira etapa, polo analítico, consistiu na avaliação das propriedades psicométricas, ou seja, na validação clínica propriamente dita.
A validade de construto foi medida pela realização da análise fatorial que revelou que a EAAPIC possui quatro fatores/domínios, quais sejam: percepção e cognição, nutrição, promoção da saúde e tolerância ao estresse, com dois, três, dois e quatro itens, respectivamente, totalizando 12 itens (Conhecimento e adapatação, Reconhecimento e procura de serviços de saúde na presença de sintomas de descompensação da IC, Controle dietético, Controle do consumo de sal, Ingestão hídrica adequada, Sono e repouso preservados, Abstenção do tabagismo, Abstenção de bebidas alcoólicas, Higiene pessoal, Esquema vacinal atualizado, Gerenciamento do estresse e Rede de suporte familiar e social).
A avaliação das propriedades psicométricas, em termos de confiabilidade, indicou baixa consistência interna por meio do alfa de Cronbach igual a 0,568, demonstrando que são necessários estudos posteriores para aprimorar o instrumento.
Para análise da estabilidade, utilizou-se o teste-reteste e o coeficiente de correlação intraclasse, o qual foi de 0,810, evidenciando existência de boa concordância entre
a primeira e segunda aplicação da escala e que a EAAPIC é um instrumento confiável, no que diz respeito à estabilidade.
O somatório da pontuação da quarta versão da EAAPIC varia de 12 a 60, já que a escala possui 12 itens com respostas variando de um a cinco. Para a normatização, ou seja, para padronização dos resultados da escala, estabeleceu-se que os pacientes com pontuação de 12 a 27 pontos devem ser classificados com grau de autocuidado ruim, de 28 a 43 pontos, grau de autocuidado regular e de 44 a 60, grau de autocuidado bom.
Ao correlacionar a EAAPIC com fatores condicionantes e algumas características clínicas dos pacientes e consequentes, verificou-se associação estatisticamente significante entre autocuidado e: sexo (p=0,015), idade (p=0,044), renda (p=0,000), escolaridade (p=0,001), classe funcional (p=0,041), fadiga (p=0,002), dispneia (p=0,000), ortopneia (p=0,036), atendimento na emergência (p=0,005), valores de LDL (p=0,018) e frequência respiratória (p=0,000).
Conclui-se que homens, pacientes com mais idade, maior renda e maior escolaridade realizam melhor o autocuidado. Ao contrário, pacientes que apresentam fadiga, dispneia, ortopneia, valores elevados de LDL e de FC possuem um grau de autocuidado ruim.
A Escala de avaliação do autocuidado de pacientes com insuficiência cardíaca permite mensurar o autocuidado dos pacientes e identificar os déficits de modo a direcionar o cuidado e otimizar a assistência e melhorar a qualidade de vida do paciente com IC. Pode ser aplicada nos diferentes níveis de atenção à saúde, bem como no âmbito da pesquisa.
Conclui-se, portanto, que a EAAPIC é um instrumento de medida válido e confiável em termos de estabilidade e capaz de avaliar o autocuidado de pacientes com IC e identificar suas necessidades. Contudo, sugere-se estudos posteriores com vistas a re-analisar a consistência interna do instrumento.