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Para iniciar o processo dos diálogos descodificadores a partir das codificações identificadas na etapa anterior, da importância da valorização da cultura local e o resgate identitário produzido nos professores, foi organizada uma oficina didático-pedagógica a relacionar os aspectos históricos, sociais, políticos que giram em torno da problemática do tais. Este momento foi singular para os envolvidos neste trabalho, pois contou com a participação de dois docentes36 da UFSC, além de mim, o que enriqueceu e contribuiu na análise da situação existencial concreta. As etapas de realização da oficina são apresentadas no APÊNDICE D – Oficina Sobre o Tais.

36 Profa Dra Suzani Cassiani do Departamento de Metodologia de Ensino e

Educação e Prof. Dr Irlan Von Linsingen do Departamento de Engenharia Mecânica, ambos do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica e coordenadores do PQLP.

É interessante esclarecer que, neste caso em especial, os professores timorenses eram oriundos de comunidades diferentes. Para efeito da investigação dos dialógos descodificadores dos “círculos de investigação temática”, realizados na oficina didática, consideramos que a participação mediada pela comunidade estava representada por estes sujeitos.

Uma vez que estes professores são uma parcela representativa de suas comunidades, conforme apresentado no Gráfico 3, no nosso caso específico consideramos também estes professores uma equipe interdisciplinar, pois como apresentado no Gráfico 6, estes professores são de áreas disciplinares e de níveis de ensino diferentes. Isto colaborou para conseguir um fluxo de informações que atuasse como mediador no processo de descodificação. Também foram convidados os docente da UFSC para participarem na problematização da situação-problema escolhida, para a produção de material e diálogo entre os sujeitos durante esta etapa. A minha participação como orientadora do diálogo na investigação temática, propiciou um ambiente em que os participantes se sentiram à vontade para expressarem-se sobre a codificação escolhida.

Inicialmente, foi realizada uma “conversa” sobre a importância do tema no ensino de ciências, realizada pela docente da UFSC, e a importância de desenvolver temas cotidianos na escola sobre temáticas vivenciadas pela comunidade escolar.

A descodificação da situação existencial provoca esta postura normal, que implica um partir abstratamente até o concreto; que implica uma ida das partes ao todo e uma volta deste às partes, que implica no reconhecimento do sujeito no objeto (a situação existencial concreta) e do objeto como situação em que está o sujeito (FREIRE, 1987, p. 97).

Assim, os professores se reconhecem na representação da sua situação existencial “codificada”, no caso a valorização da cultura local, ao mesmo tempo que conseguem reconhecer o objeto de sua reflexão, que seria a delimitação, aparentemente representada pelo tais, e todas as reflexões históricas, políticas, sociais e culturais, possíveis de interpretação, condicionadas aos outros sujeitos.

Em seguida foram colocadas aos professores algumas questões para a discussão em grupo, que são as seguintes:

 O que se entende por ciência e tecnologia?

 Quais os temas que são relevantes para sua comunidade e para Timor-Leste?

 Como trabalhar numa perspectiva em que os seres humanos também fazem parte do “ambiente”?

 Como fazer uma discussão de forma problematizadora? O que é um problema?

A dinâmica escolhida foi de formar grupos e a partir de seus posicionamentos socializar as impressões de cada um para que isso pudesse abrir caminhos para uma discussão mais ampla, que viesse a mostrar as concepções e entendimentos dos professores em relação a educação CTS. Os professores já haviam participado de algumas discussões em aula sobre as questões que englobam a ciência e tecnologia, principalmente porque os Programa de Ciências Físico-Naturais - 3º ciclo do EB e o Plano de Reestruturação Curricular do ESG de Timor-Leste apresentam essa terminologia, que era totalmente desconhecida para os professores e profissionais da educação timorenses. Também houve um momento em que o docente da UFSC teve um diálogo com os professores problematizando essa questão, quando ficou evidente que ingenuamente os professores tinham a percepção que tecnologia está relacionada à aparatos tecnológicos de ponta, não fazendo a ligação deste movimento com a formação da cidadania e as inter-relacões de CTS com o meio natural, meio artificial e meio social.

Relativamente, a segunda questão os posicionamentos apresentados pelos professores enriqueceram muito a atividade. Alguns dos temas evidenciados foram: a identidade cultural; o caráter histórico: o traje dos reis; o símbolo da unidade da família; o econômico; e o político.

Na terceira questão, é importante relembrar que existem alguns fatores que fazem com que a relação dos timorenses com o ambiente seja muito particular, porque apesar do país estar localizado na parte leste da ilha de Timor, no continente Asiático, este sofreu muitas influências tanto da cultura oriental como da ocidental, com as diversas invasões de que foi vítima. A relação dos timorenses com o ambiente e com a natureza em si é interessante porque tendem mais a não realizar grandes intervenções no meio.

Considerando, a relação dialética que existe entre o ser humano e natureza, isso implica numa existência e na sua sobrevivência, estabelecendo ao longo da história a relação de transformações do meio ambiente. A relação de transformação e modificação do habitat que o homem exerce no meio em que vive, pode ser observada em Díli e cidades chaves que estão sendo desenvolvidas devido a existência de petróleo e gás natural no mar de Timor-Leste. As outras regiões ainda apresentam

um nível de desenvolvimento de subsistência básico muito relacionado as crenças culturais e o animismo, embora atualmente quase 85% da população timorense se declare católica, conforme censo de 2010, as festividades e rituais realizados em uma lulik37 demonstram que a população esta muito ligada a essa crença e convive sem muitos conflitos com as crenças tradicionais e o catolicismo.

Para fazer a discussão da última questão, recorremos a situação-problema que havíamos começado a desenvolver com os professores anteriormente. Propusemos a elaboração de um esquema do caminho de confecção do tais tradicional, onde todo o processo é artesanal, inclusive a fabricação do fio. A turma foi organizada em grupos menores para que os professores pudessem elaborar a síntese que seria posteriormente discutida no grande grupo. Cabe aqui destacar que neste momento, uma das professoras que já havia demonstrado profunda identificação com o tema, por ser tecelã de tais em sua comunidade, quis fazer a esquematização no quadro, a partir das sugestões dos colegas, conforme o esquema apresentado na Figura 4.

Figura 4 - Síntese sobre “O caminho do tais”

Após estruturação do quadro síntese foi decidido elaborar questionários que seriam implementados nas saídas de campo que os professores e a docente iriam realizar depois da oficina didática. Os

37 Tradução para o português como “casa sagrada”, lugar em que são realizados

os cerimoniais de colheita, casamento, morte entre outras manifestações que envolve toda a comunidade. Nos sucos de todo o território nacional são identificadas uma lulik com diferentes estruturas físicas.

lugares escolhidos foram: Ilha de Ataúro, mercado do tais e comunidades onde os professores viviam. Os questionários seriam aplicados com as seguintes pessoas: soru tais (tecedeira), comerciante, comprador, anciãos e outros professores das escolas de origem. Estes questionários constam no APÊNDICE D – Oficina Sobre o Tais.

As saídas de campo puderam ser realizadas logo a seguir a oficina, pois fizemos a viagem a ilha de Ataúro na semana seguinte. As outras entrevistas foram realizadas por grupos de professores na semana a seguir, em momentos pré-determinados para tal fim. Assim, conseguimos reunir todos os materiais coletados e realizar uma discussão dos resultados apresentados pelos grupos.

As discussões relacionadas às saídas a campo, foram muito produtivas e mostraram alguns aspectos que nem os próprios professores timorenses tinham conhecimento, como por exemplo que quem vende tais na ilha de Ataúro são comerciantes de outros distritos, que vão à ilha uma vez na semana para vender aos estrangeiros que a visitam. Os comerciantes e tecelões, em geral, não produzem mais o fio artesanalmente; por uma questão de tempo e custo preferem comprá-lo nas lojas de Díli. Os comerciantes também buscam alternativas para a produção de outros materiais com o pano do tais. Os anciãos falam da importância em manter viva a tradição e cultura pela produção do tais nas novas gerações. Os compradores, que geralmente são estrangeiros, destacaram as formas e cores do material, e consideram um ótimo

souvenir para levar de Timor-Leste. Os professores destacaram que seria

um excelente tema a ser trabalhado com os alunos, inclusive em outras disciplinas além das ciências, mas precisariam de ajuda para preparar e organizar os conteúdos, talvez algum tipo de formação contínua que abordasse essa temática. Com essas impressões apresentadas pelos grupos de professores timorenses que ficaram responsáveis pelas entrevistas, conseguimos relacionar alguns assuntos centrais.

A seguir iremos reproduzir a compilação dos assuntos e sua relação com os diálogos descodificadores que foram abordados/discutidos para realizar a redução temática à conteúdos científicos:

 Agricultura familiar: desenvolver o potencial econômico local e reforçar a importância da agricultura de subsistência para melhoria nas condições de vida da família. Neste caso, a plantação e colheita do algodão para produção do tais.

 Artesanato: valorizar a cultura local, pela produção de

tais, sendo possível manter viva a cultura e identidade

timorense.

 Economia: comercializar os tais para auxiliar no orçamento familiar.

 Sociais: a função do homem e da mulher nos processos de produção e venda do tais. A divisão social dos gêneros nos processos de produção e comercialização dos tais. O uso do tais na negociação do barlak.  Científicos: Analisar o processo de fotossíntese das

plantas de algodão, observar as técnicas de tingimento do fio, bem como os métodos de extração das cores das plantas. O uso do carvão para deixar o fio mais resistente. A Panela de barro (sanan rai) usada para fazer a extração da coloração. A criação dos desenhos geométricos, entre outros conteúdos científicos relacionados.