Complementando as suas polivalentes qualidades interpretativas, Leonel Duarte Ferreira desde muito cedo manifestou interesse pela arte da composição musical: começou a compor aos 13 anos de idade. Paralelamente, manteve uma prolífera actividade como transcritor de obras de autores portugueses e estrangeiros, tendo como principais destinatários os grupos com os quais se encontrava artísticamente envolvido. A sua extensa obra, alvo de minucioso inventário elaborado no decurso deste trabalho de investigação, está classificada no Catálogo das Obras de Leonel Duarte Ferreira in Volume II, Anexo B. Foram contabilizadas 64 obras originais, algumas das quais em diferentes versões instrumentais que foram semelhantemente catalogadas, e 125 transcrições.
Esta vasta actividade de transcritor, abordada já no capítulo anterior, foi sendo ciclicamente motivada pelos constantes sucessos alcançados como maestro e director artístico de agrupamentos característicos que continham na sua maior parte Saxofones ou Canto acompanhado. Não é, pois, de estranhar que a maior parte (82%) das suas 125 transcrições tenham sido elaboradas para os grupos que incluíam Saxofones (Orquestra de Saxofones; Canto e Orquestra de Saxofones; instrumento solo e Orquestra de Saxofones) e que uma relevante percentagem de transcrições (28%) tenham sido destinadas ao Canto acompanhado (Canto e Banda ou Canto e Orquestra de Saxofones).
Estes dois nichos instrumentais foram também muito agraciados por Leonel Duarte Ferreira na sua vertente de compositor, tendo sido destinado a cada um deles um considerável lote de obras originais: 12 para Canto acompanhado (incluindo quatro para Canto e Orquestra de Saxofones) e 11 para Orquestra de Saxofones.
Todavia, como compositor, Leonel Ferreira foi principalmente um autor de obras curtas para Banda filarmónica (instrumentos de Sopro e Percussão), privilegiando o género
Marcha nas suas composições. Compôs 18 Marchas inéditas, das quais se destacam
Conterrâneo (1924), Américo343 (1929), Atlântica344 (1930) e Lénito345 (1939), como
quatro das suas mais características realizações.
O Hino, composto como emblema sonoro de instituições ou colectividades populares, foi outro dos géneros mais solicitados nos seus trabalhos de composição. Das 11 realizações originais contabilizadas distingue-se pelo seu valor artístico o Hino do
Concelho de Almada (1934), composto para Canto (Coro) e Banda, sob poema de Álvaro
Valente.
Registam-se ainda como obras de relevo na sua produção artística as peças compostas para Canto acompanhado, cujos melhores exemplos são o Canto patriótico
Ignota Almada (1940) para Coro e Banda,346 sobre poema de Emília Pomar de Sousa Machado; a Marcha heróica Portugal Restaurado (1940) para Coro e Banda com poema de Álvaro Valente; e Alentejano (1941) para Canto e Orquestra de Saxofones, sobre poema de Florbela Espanca.
A sua produção composicional contempla igualmente danças (de compasso ternário), sobressaindo as seguintes obras: a Valsa-intermezzo Gipsófila com versões para Banda (c1927)347 e para Orquestra de Saxofones (c1931);348 a Valsa-caprichoLisete (1941)
343
Américo foi também muito executada na sua versão para Orquestra de Saxofones (Orig. c1929/1 vs). Vide edições modernas das 3 partituras de Américo (Banda, Orquestra de Saxofones e Orquestra) in Volume II: Anexos G. 1. 4., G. 1. 5. e G. 1. 6., respectivamente, bem como os registos áudios in Volume II: Anexos H. 1. 5., H. 1. 6. e H. 1. 7.
344
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 7. e registo áudio in Volume II: Anexo H. 1. 8.
345
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 18 e reprodução da gravação editada no CD (Jorsom, CD – 0110) pela Banda da GNR, sob direcção do Capitão Jacinto Montezo em Março de 1998 in Volume II: Anexo H. 1. 19. No relato de Pedro de Freitas (vide Museu: pasta 1947, recorte de jornal não identificado) sobre o Concurso de Bandas Civis realizado no edifício d‟ “A voz do Operário” dia 10/12/1947, integrando as festas comemorativas do 23º aniversário da Federação das Sociedades de Cultura e Recreio, a Banda da Sociedade Filarmónica Humanitária” de Palmela, dirigida pelo então sub-chefe da Banda da GNR, Manuel da Silva Dionísio, executa “os acordes da bela marcha Lénito de Leonel Duarte Ferreira – que numa feliz inspiração produz tão boa peça musical dedicada ao seu neto – rebôam pelo enorme salão, emocionando toda a assistência que, por fim, lhe tributa frenéticos aplausos.” O Júri era composto por Ivo Cruz, António Joyce, Capitão José Cordeiro e Raul Esteves dos Santos.
346
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 16. e registo áudio in Volume II: Anexo H. 1. 17.
347
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 12. e registo áudio in Volume II: Anexo H. 1. 14.
348
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 13. Uma versão para Orquestra (não localizada) da Valsa Gipsófila foi anunciada (Diário de Notícias, 11/3/1936, p. 7) incluída num programa da Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, dirigida pelo maestro Lopes da Costa na emissão radiotelefónica do dia 12/3/1936. Também a Orquestra Ligeira dirigida por Tavares Belo executou uma versão (não localizada) desta Valsa a 2 de Agosto de 1957, na AIRFA.
composta para Saxofone alto solo e Orquestra de Saxofones; e Polonaise (1946), com instrumentação para Banda.
Certamente entusiasmado pelo retorno à actividade da sua Orquestra de Saxofones e pela criação, em 1942, do Septimino de Saxofones, Leonel Ferreira dedicou-se esporadicamente, no decurso da década de 1940, a outros géneros mais ligeiros como o Fado – Fado sem Palavras (1943) –, o Fandango (1945); o Minuete (1942) e a Serenata (1942).
É notório um estilo mais erudito de escrita nas versões das obras que incluem o pianoforte na sua instrumentação, como são os casos de Elsa a buliçosa...349 (também
nomeada Scherzo) (1945), Fado sem Palavras (1953), Minuete (1942) e Serenata (1942), disponíveis para Piano solo, e o Hino do Concelho de Almada (1934), Ignota
Almada350 (1940), Portugal Restaurado (1940) e Alentejano (1941) nas versões disponíveis para Canto e Piano. De igual forma, foi identificada uma versão para Saxofone alto e Piano da Valsa-capricho Lisete351 (1941) que supostamente não foi estreada e que
poderá constituir uma adição muito válida ao restrito reportório do género na escola portuguesa de ensino de Saxofone.
Por último, apraz referir que Leonel Ferreira também compôs para Orquestra deixando versões das seguintes obras: Américo (1937); Alentejano (1941, Canto e Orquestra) e Lisete (c1941-45, Saxofone alto e Orquestra).
349
Vide edições modernas das 2 partituras de Elsa, a buliçosa (Orquestra de Saxofones e Piano) in Volume II: Anexos G. 1. 9. e G. 1. 10., respectivamente, bem como os registos áudios in Volume II: Anexo H. 1. 10. e H. 1. 11. Existia uma versão para Quinteto de Sopros do Scherzo Elsa, a buliçosa ..., que foi tocada na AIRFA, a 13 de Maio de 1957, pelo Quinteto Nacional de Instrumentistas de Sopros (solistas da Orquestra da Emissora Nacional) constituído por Luiz Boulton (Flauta), Santos Pinto (Oboé), Carlos Saraiva (Clarinete, 1910-2001), Adacio Pestana (Trompa, 1925-2004), João Mateus (Fagote). Esta peça de Leonel Ferreira renomeada de Scherzo fazia parte do reportório regular deste agrupamento e foi incluída no programa (como última obra) do Concerto de Música Portuguesa transmitido pela RDP a 21 de Agosto de 1964 (com Agostinho Romero [1917-2010] no Clarinete) (Vide Arquivo da RTP, registo em CD, cota CDT7762, reproduzido in Volume II: Anexo H. 1. 12.). As outras obras deste programa foram Scherzo em Fá de Carlos Saraiva; Pequena Suite de Marcos Romão dos Reis (1917-2000); Adagio e Scherzino de Joly Braga Santos (1924-1988).
350
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 17. e registo áudio in Volume II: Anexo H. 1. 18.
351
Vide edição moderna da partitura in Volume II: Anexo G. 1. 19. e registo áudio in Volume II: Anexo H. 1. 20.