A importância para o presente estudo da temática da cognição situada não só se relacio- na com a importância que estas teorias possam ter para a compreensão dos processos cognitivos de produção de conhecimento, como se afigura também relacionada com processos de aprendizagem promovidos pela prática reiterada que se verifica ser indis- pensável para o exercício da criatividade ao nível profissional e com processos de cate- gorização que se acredita estarem na base da criatividade. O pensamento de Schon en- quadra-se nestes mesmos princípios teóricos. Schon rejeitava a herança positivista daquilo que designava por "racionalidade técnica", espelhada numa interpretação da ra- cionalidade como acumulação de conhecimento teórico, e defendia uma abordagem construtivista e situada da aprendizagem.
According to the model of Technical Rationality (…) professional activity consists in instrumental problem solving made rigorous by the application of scientific theory and technique.
Schon, 1991, p. 21
Segundo Schon, a aprendizagem de uma determinada competência pode reque- rer a assimilação de teoria, mas num processo que tem de ser desenvolvido de uma for- ma ativa, pois a única forma de atingir a competência exige que o conhecimento explícito seja transformado em conhecimento implícito:
(…) Learning a theory of action so as to become competent in professional practice does not consist of learning to recite the theory; the theory of action has not been learned in the most important sense unless it can be put into practice.
(…) learning to ride [a bicycle] requires both learning the program and learning to internalize the program. Then one can give appropriate responses on cue without having to make explicit reference to the program. Knowledge of the program must be made tacit; one cannot replace tacit with explicit knowledge.
A criatividade, tal como a aprendizagem, constrói-se a partir das capacidades de conceptualização e de categorização do indivíduo. A conceptualização é o processo que permite a criação de conceitos. Ao nível neuro-psicológico, um conceito traduz-se num padrão de ativação neuronal (de populações de neurónios distribuídos no cérebro) que representa uma categoria do meio envolvente ou da experiência do indivíduo, e que controla as interações do indivíduo com as ocorrências particulares dessa categoria (Barsalou, 1999). Dentro deste quadro, a criatividade pode ser vista como uma das ope- rações cognitivas elementares.
The human conceptual system contains people's knowledge about the world. Rather than containing holistic images of experience, the conceptual system represents components of experience, including knowledge about settings, objects, people, actions, events, mental states, properties, and relations. Componential knowledge in the conceptual system supports a wide variety of
basic cognitive operations, including categorization, inference, the
representation of propositions, and the productive creation of novel conceptualizations. In turn, these basic operations support the spectrum of complex cognitive activities, including high-level perception, attention, memory, language, thought, and socio-cultural cognition.
Barsalou, 2012, p. 239
Todas as categorizações e coordenações correspondem cumulativamente ao que se designa por conhecimento do indivíduo. É importante notar que o conhecimento con- siste nas categorizações e coordenações e não se resume às representações ou descrições que os indivíduos possam fazer do seu próprio conhecimento. A conceptualização não se propicia necessariamente a ser traduzida em palavras, definições, e regras porque muitas conceptualizações são não-verbais e porque até mesmo o significado das concep- tualizações verbais está ligado a categorizações não-verbais. Consequentemente, não é possível criar um inventário descritivo do conhecimento de um indivíduo. No entanto, a linguagem ocupa um papel tão essencial para a vida humana, que existe uma ligação muito estreita entre as conceptualizações e a forma de descrever o mundo através de lin- guagem ou de outras representações (Clancey, 1997). O caso contrário seria uma contra-
dição do que foi até aqui exposto: se toda a experiência molda o conhecimento, então a experiência de representar o conhecimento vai, necessariamente, moldar o próprio co- nhecimento. Este é, aliás, um ponto importante para a prática projetual, como se pode verificar em alguns estudos da utilização de representações externas como auxiliares cognitivos ao desenvolvimento dos projetos de design (Gero, 1990; Goldschmidt & Por- ter, 2004; Goldschmidt & Smolkov, 2006; Helie & Sun, 2010).
Toda a categorização é feita em relação aos interesses do indivíduo e às suas ati- vidades em curso. Alguns valores são inatos, correspondendo, por exemplo, às preocu- pações elementares de sobrevivência e de reprodução do organismo, mas o juízo de valor é inerente à categorização percetual e impossível de "desligar". O valor torna algo
presente para o indivíduo, logo a experiência e o conhecimento são necessariamente
subjetivos. Mas esta subjetividade não se trata de uma visão incompleta ou enviesada de um qualquer mundo concreto e supostamente objetivo, como a subjetividade é vista nos tradicionais modelos descritivos de orientação positivista:
(…) This subjectivity is not realized as possessing a subset of facts about the world or misconceptions, as in descriptive models; rather, it is a form of feedback between how the world is perceived and how the person conceives his or her identity. Conceptualizing situations, problems, and alternative actions inherently involves an aspect of self-reference in the perceptual-conceptual mechanism. That is, a person's understanding of "What is happening?" is really "What is happening to me now?" The impact of a new perception is not just "How does this change my knowledge of the world?" but also "How does this relate to who I am as a person?"
Clancey, 1997, p. 27
Cada comportamento do indivíduo é uma adaptação de uma coordenação prévia (Dewey, 1896) e não a reprodução literal de símbolos armazenados numa memória. As estruturas neurológicas estão condicionadas a se reorganizarem, e cada vez que um de- terminado conhecimento é convocado, as estruturas neurológicas que lhe dizem respeito são reativadas. Quando, por exemplo, recordamos uma frase, podemos dizê-la, escreve- la, ou soletrá-la novamente; falamos de formas que já falámos anteriormente, dando a
aparência de que recuperamos frases de um repositório. Mas este processo é mais pare- cido com uma peça de teatro que é representada todas as noites, do que com a projeção de um filme ou o playback de uma gravação: cada comportamento é sempre uma adap- tação de uma coordenação prévia, e não a reprodução literal de sinais armazenados ou a mera execução de um procedimento isolado. Memória, concetualização, perceção e ação — tudo isto ocorre em simultâneo, de tal forma que os diferentes níveis de organi- zação se afetam mutua e simultaneamente (Clancey, 1997).
In summary, different theorists have provided pieces of a complex, circuitous argument: Dewey viewed perception and action as functionally disjoint but mutually constrained, occurring always as part of a circuit. Cyberneticists like Bateson and von Foerster emphasized that information was relational, not a substance or a correspondence. The ecological psychologists brought perception back to physics, pursuing a competence theory of knowing that relates energy and physiology. Biologists, such as Maturana, saw the organism and niche as a structural coupling, a reciprocal, symmetrical system, and finally, the neurobiologists found structural coupling between neural subsystems, providing our first glimpse of how subsystems develop as functional differentiators within a perception-motor circuit.