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Définition de la logique polymorphe

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Élimination du polymorphisme

5. Logique Polymorphe

5.1. Définition de la logique polymorphe

Percebe-se que a política possui significados muito diferentes quando se compara as análises feitas por Schmitt e Arendt sobre o espaço do político nos tempos modernos. Estas diferenças, certamente, devem-se ao fato dos autores terem percorrido trajetórias distintas ao longo de suas existências, conforme exposto anteriormente. Porém, pressupõe- se, também, que suas análises sejam frutos de suas diferentes posturas em relação à política, e àquilo que é público. De Carl Schmitt, sabe-se de sua paixão pela prática política e de sua ambição por participar do poder, o que o colocou frente a frente com um dos piores males, que marcou a História ocidental na questão de abuso de poder, e de autoridade política. Já Hannah Arendt, teve postura completamente oposta à de Schmitt, uma vez que tinha sérias restrições quanto à exposição pública de sua pessoa, e era apaixonada pela teoria política, o que a própria pensadora declara quando entrevistada por Günter Gaus: “Eu mesma atuar? Não, eu quero entender. E quando os homens entendem – no mesmo sentido em que entendi -, então isso me dá uma satisfação como um sentimento de terra natal”.216 Arendt não gostava de holofotes, e preferia os bastidores às luzes da ribalta, pois, a notoriedade causava-lhe “enjôos”. Aparecer em público causava-lhe sensação de angústia e infelicidade.

Em Schmitt, apesar da dificuldade que se tem em conceituar a ação política, pode- se concluir que esta estará presente sempre que houver a possibilidade da decisão, ou escolha entre amigo e inimigo. Nesse sentido, pode-se dizer que é no campo do político que se estabelece a situação-limite, onde o conflito pode ser instaurado. Disso decorre que, na teoria schmittiana há sempre presente a pressuposição da guerra, da luta, ou do confronto, que, se concretizada, será mediada ou resolvida pela política. Constata-se que

215 ARENDT, op. cit., 2001, p. 13. 216

para Schmitt, o homem possui natureza combativa. Desse modo, a possibilidade da política existir está sempre presente, potencialmente. Hans Flickinger assinala que:

O interesse de Carl Schmitt dirigiu-se em primeira linha, àqueles processos sociopolíticos que condicionam e até aceleram a dissolução da homogeneidade política do povo em camadas contrárias umas às outras, ou seja, gerando inimigos públicos no sentido do conceito romano de hostes.217

Esta abordagem schmittiana da noção do político, segundo Flickinger, revela-se oposta a qualquer outra que tente colocar a idéia da necessária integração da sociedade como núcleo da política, seja por meio do planejamento ou pela organização sociopolítica, o que talvez justifique a dificuldade em compreender sua conceitualização da política. De qualquer forma, é possível observar, nestes aspectos aqui abordados, diferenças entre o pensar de Schmitt e Arendt acerca da política. A começar pela concepção de natureza humana. Arendt prefere falar de condição humana, pois, acredita não ser possível conhecer a natureza humana, a menos que seja no âmbito teológico. E, a política, para a autora, ocorre sempre na relação entre os homens. Aliás, como a pensadora acredita que o homem não é um ser político, a política pode ou não acontecer entre eles. O que não ocorre em Schmitt, que acredita na natureza política do homem. A idéia de luta e conflito também não parece fazer parte do vocabulário político arendtiano. Quando imagina o homem agindo politicamente, Arendt não faz referência à ação conflituosa, mas sim, refere-se à ação espontânea, capaz de romper com processos estabelecidos e trazer a renovação. Arendt afirma que é por intermédio da História que se conhecerá o teor da ação política, se pacífica ou violenta, pois, considera a imprevisibilidade o caráter inerente de todo agir político.

Enquanto Schmitt assinala que à política compete a decisão, Arendt diz ser a liberdade o verdadeiro sentido da política, que se baseia na pluralidade dos homens. Logo, se para o jurista alemão, na era moderna as instituições liberais, capazes de gerar discussões perpétuas, não abrem espaço para a tomada de decisões políticas, para a pensadora alemã, no contexto socioeconômico moderno, o indivíduo não encontra mais liberdade para agir, em um meio onde o espaço capaz de abrigar a pluralidade inexiste. Em

217 FLICKINGER, Hans-Georg. Em nome da liberdade: elementos da crítica ao liberalismo contemporâneo.

Arendt “a liberdade da espontaneidade é inseparável da condição humana”218, sendo a vontade – o querer – o seu órgão mental. Esta constatação remete-nos a Kant e à liberdade da vontade, isto é, ao poder de começar uma série de estados ou coisas de forma espontânea. É também em Henri Bergson que Arendt inspira-se quando fala da ação livre como sendo uma atividade inteiramente nova e guiada pela vontade. Bergson constata que a maioria dos filósofos tem dificuldades em reconhecer esta faculdade humana, e considera a vontade como sendo o livre arbítrio, que nada mais é do que a escolha entre duas coisas dadas, o que não constitui algo novo. Esses filósofos também são incapazes de conceber uma novidade radical e a imprevisibilidade. Segundo Arendt:

Do ponto de vista teórico, o problema sempre foi que a vontade livre – quer concebida como liberdade de escolha ou como liberdade de começar algo novo – parece ser absolutamente incompatível não só com a divina Providência, mas também com a lei da causalidade.219

A dificuldade está no fato da liberdade da vontade não poder ser provada, mas apenas pressuposta pela força ou pela fraqueza da experiência interior, diz Arendt. Este fato fica evidente quando a pensadora, lembrando Kant, constata que raramente começamos algo novo. E, novamente remetendo-se ao pensamento de Bergson, Arendt conclui que cada um de nós tem o conhecimento de sua espontaneidade livre, e embora sejamos livres, quando desejamos nos voltar para nós mesmos, raramente o fizemos, pois, são os hábitos que tomam conta de nossos atos, da mesma forma como os preconceitos, tão prejudiciais à política, são responsáveis por nossos juízos cotidianos. Odílio Alves Aguiar salienta que:

O querer em Arendt está relacionado a uma concepção do homem como ser ativo e a uma capacidade de se sentir livre mesmo numa situação de incompletude. Querer é iniciar, trabalhar, comunicar, fundar. Querer, assim entendido, dá uma dimensão de transcendência ao homem. Ele explicita o homem como um ser capaz de fazer algo por si mesmo, tornando-o dotado de dignidade própria.220

218 ARENDT apud KRISTEVA, Júlia. O gênio feminino: 1 Hannah Arendt. São Paulo: Rocco, 2002, p. 189. 219 ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,

2002, p. 210.

220

AGUIAR, Odílio Alves. Política e finitude em Hannah Arendt. In: OLIVEIRA, Manfredo; AGUIAR, Odílio Alves; SAHD, Luiz Felipe de Andrade e Silva (Orgs.). Filosofia política contemporânea. Petrópolis:

Vale ressaltar que Arendt dedica o segundo volume de sua obra – póstuma e inacabada – A vida do espírito à questão da vontade ou do querer, porém, o que aqui se fez foi uma breve referência a este conteúdo para melhor entender sua percepção do que seja a liberdade.

A esse respeito, percebe-se uma forte tensão, por assim dizer, entre as reflexões de Schmitt e Arendt. A considerar a influência que o mito do Grande Inquisidor exerce na interpretação teológica que Schmitt faz da política, pode-se concluir que o jurista concorda com o personagem de Dostoiévski, quando este diz que os homens jamais serão capazes de ser livres, “porque são fracos, miseráveis e rebeldes”221 Sendo assim, precisam da autoridade divina, ou política, para conduzir suas existências. Em Arendt, parece ocorrer o oposto, pois, a autora, mesmo não oferecendo uma clara definição de liberdade, acredita que seja exatamente o que falta ao indivíduo moderno, isto é, liberdade para iniciar algo novo, liberdade para agir. A ação representa o domínio de experiência da liberdade, é isto o que Arendt identifica, como vimos, quando analisa o sistema de conselhos, seu mais claro exemplo de liberdade e ação política do século XX.

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