Os mendigos, permitam-me a metáfora, utilizam-se da cidade como os grupos de caçadores e coletores utilizam-se da floresta onde vivem. A metáfora é assim boa para pensar a similaridade, além das diferenças óbvias, entre a selva natural e a selva cultural – a de pedra. Para tal tarefa utilizo o trabalho A Primeira Sociedade de Afluência escrito em 1972 por Marshall Sahlins19. Sua intenção foi analisar as formulações – tida por ele como errôneas, equivocadas – sobre a “pobreza” dos grupos de caçadores e coletores do paleolítico.
Durante a leitura do artigo pude observar muitas relações entre o modo de vida e a sociabilidade dos caçadores e coletores e os mendigos nas cidades contemporâneas, salvo as questões muito específicas dos contextos selváticos e urbanos. Todavia, não estarei aqui procurando um universal ou um denominador comum, mas uma estratégia narrativa para comunicar idéias sobre a vida nômade, mobilidade e pobreza no encaminhamento da minha argumentação.
Em primeiro lugar, devo esclarecer que a idéia de afluência, estado ou condição onde todas as vontades materiais são facilmente satisfeitas, deve aqui ser relativizada, dada as condições de livre acesso aos bens materiais tido pelos caçadores e coletores, e um acesso relativamente livre aos bens materiais pelos mendigos, porque entre a selva e o índio não há o intermediário; entre a comida e o mendigo há o doador. Mas aqui é que se retornam às similaridades.
O doador toma o lugar da árvore de onde se colhe o fruto, ou a caça a ser abatida, com a diferença de que a caça abatida não é o doador, mas a provisão que ele
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Utilizo o artigo publicado em português em Carvalho, Edgard Assis (org.). Antropologia Econômica. São Paulo, 1978
traz a oferecer, dinheiro para comprar alimentos ou alimento preparado, comida, utilizando-se aquilo que DeCerteau (idem) chamou de astúcia de caçadores.
Sahlins (1978) avalia que idéias – como o espectro da fome caça o caçador, sua incompetência técnica traduz-se num esforço contínuo de trabalho pela sobrevivência ou que sem descanso e sem excedente, sem lazer para alcançar cultura – são errôneas e não revelam o que realmente se passa na floresta ou no deserto entre os nômades indígenas.
O discurso evolucionista a contaminar a literatura antropológica sobre grupos de caçadores e coletores, é vista por Sahlins como pré ou extra-antropológico, mas que de todo modo, a antropologia evolucionista considerou necessário adotar teoricamente o tom normal de reprovação (:11).
A literatura sócioantropológica, objeto de análise no primeiro capítulo, também tem analisado a mendicância negativamente, em tom de desaprovação, espaço inadequado para a vida social. Não estou aqui argumentando que os mendigos são felizes e sortudos, mas talvez estejamos olhando para eles apenas enquanto espelho invertido de nosso próprio mundo.
Ou como disse Sahlins, “tendo equipado o caçador com os impulsos burgueses e ferramentas paleolíticas, julgamos sua situação desesperadora” (:10). A questão se torna como sustentar que os mendigos sejam uma “sociedade” de afluência, apesar de sua pobreza absoluta? Mais uma vez, a lição de Sahlins oferece alguma luz ao debate.
Ele lembra que embora “ricamente dotadas”, as sociedades capitalistas modernas consagram-se à proposição da escassez, sendo seu princípio a ineficiência dos meios econômicos – o “status material não parece indício de perfeição”. O sistema de mercado industrial institui a escassez e a insuficiência dos meios materiais torna-se o ponto de partida da atividade econômica. Neste sentido, no consumo, o que “se iniciou como insuficiência terminará em privação”. E afirma que a “sentença bíblica de viver à custa de trabalho foi pronunciada contra nós. Escassez é a sentença decretada por nossa economia.” (:10).
Os mendigos vivem numa espécie de abundância material (exceto comida, e que exceção!) porque adaptam objetos do seu interesse a partir do reciclo do “lixo” urbano, abundante numa sociedade onde cada vez mais produz-se coisas descartáveis. Essa matéria-prima está a sua volta e qualquer um pode obter livremente. A “abundância material” depende “da facilidade de produção e, em parte, da simplicidade da tecnologia e da democracia de propriedade” (:16). E quais são as necessidades materiais dos mendigos?
São objetos rústicos, reciclados, (re)significados, como a lata de manteiga que torna-se um fogão, da sacola que torna-se despensa de alimentos, a lata de óleo que se torna copo para sopa, e por aí seguem os exemplos de como aproveitam o que se coloca a sua disponibilidade.
A “extração” da matéria-prima ou sua recriação (nem sempre necessárias) não envolve grande esforço. O acesso é tipicamente direto. A divisão do trabalho social se dá segundo os perfis pessoais de cada mendigo, se grupalmente ou solitariamente vai a busca de objetos, comida ou prazer. Há, de maneira irrevogável, um costume liberal pela partilha dos objetos, das comidas, das esmolas.
Porque os mendigos se contentam com tão pouco, com o resto? Gusinde, analisando o contexto social dos índios Yahgan, citado em Sahlins (idem: 17), diz que “porque para eles se trata de uma política, ‘questão de princípio’ e não de infortúnio.” E arremata Sahlins (idem), “sem desejo não há falta”. Os mendigos são outsiders da ordem social de textura burguesa, portanto sem os desejos de consumo daqueles que estão abertamente ligados a sociedade global. A questão da mobilidade entra em cena no debate.
Se pensarmos nos mendigos como indivíduos em busca incessante de comida e de abrigo, nossa análise peca por não ver que a maior parte de seu tempo, mais acentuadamente entre os vadios, gastam a passear ou a dormir. A busca de alimentos, ampliando os gêneros para água, bebidas ou fumo, é resolvida dentro de duas ou três horas de espera ou caminhada. O resto do tempo, estarão a flanar, a gozar do vôo, a
pensar. Toda a questão da sobrevivência, liga-se diretamente a questão da mobilidade por entre as ruas, seja para levar o abrigo de descansar ou dormir, seja para a busca de ajuda.
Como apropriam-se de espaços públicos, estão sujeitos a serem removidos e perderem o espaço. Isso requer uma contínua disposição à mobilidade urbana; são os nômades urbanos, a levar de um lado a outro pequenos “cestos”, de maneira que a propriedade, o acúmulo, a riqueza costumeiramente surge como um fardo, uma carga a ser levada.
Desse modo, a vida nômade e errante vê nos bens um certo signo de opressão, quanto mais longe tenham que levar. Owen Lattimore, citado por Sahlins (idem: 17) diz que “o nômade puro é o nômade pobre”. Aqui a lição de que mobilidade e riqueza são, em alguma maneira, contraditórios, tornando-se “mais sobrecarga do que boa coisa” (idem:18).
Assim, os nômades caçadores e coletores mantém um desleixo notável em relação as suas posses “se estão procurando alguma coisa específica, remexem descuidadosamente a insignificante confusão reinante dentro das pequenas cestas. Os objetos maiores (...) são puxados para cá e para lá, sem nenhuma consideração pelos danos que irão sofrer.” (Gunsinde, citado em Sahlins, idem: 18-19).
Para Sahlins tal atitude nômade diante da cultura material não deve significar desejo restrito ou reprimido, para ele não é que os caçadores refrearam seus impulsos materiais, na verdade nunca os instituíram. “Somos inclinados a conceber os caçadores e coletores como pobres porque não possuem nada; talvez seja melhor, por essa razão, pensar neles como livres” (idem:20).
Suas posses materiais, limitadas como são, implicam antes de mais nada livrarem-se de preocupações com necessidades diárias bem como permite que usufruam da vida. Enquanto há suficiente para o hoje, não há séria preocupação com o amanhã, daí decorre que a armazenagem é a contradição essencial entre a mobilidade dos caçadores (dos mendigos) e a riqueza.
Para exemplificar outra similaridade entre os caçadores e coletores e os mendigos urbanos, pode ser interessante recorrer a insistente pobreza material que acompanha a vida dos mendigos, recorro a uma passagem que clarifica a implicação da mobilidade para os grupos de vida nômade; no caso dos caçadores Sahlins dá a lição:
Essas condições explicam a concepção muito ascética quanto ao bem- estar material: interesse somente por equipamento mínimo (...) os caçadores e coletores possuem a força de suas fraquezas. Movimento e limitação periódicos na riqueza e na população são ao mesmo tempo imperativos da prática econômica e das adaptações criativas. São, de qualquer modo, necessidades transformadas em virtudes. Mobilidade e moderação colocam os fins dos caçadores dentro dos limites de seus meios técnicos.” (idem: 38-39)
Poderia afirmar que como os índios sentem-se os senhores da floresta, os mendigos sentem-se os senhores da cidade, no sentido de que a cidade está aberta para ser conhecida e vivida, pois como a floresta, a cidade também não tem um dono, é res publica. Dada a condição de não-vínculo ao Estado, os mendigos vivem uma autonomia problemática. Senhores da cidade, profetas das ruas, estão dentro e fora da ordem social dominante.