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Concluindo para reiniciar – essa é impressão presente ao escrevermos essas linhas. Todo o percurso, aqui relatado e refinado teoricamente durante o exercício acadêmico da pós-graduação, destina-se a um aprimoramento das ações, enquanto membro da UFRN, do Fórum do Engenho dos Sonhos. Cabe voltar aos jovens, educadores e outros atores interessados, para discutirmos os resultados obtidos a partir de nossa pesquisa, de forma a problematizar a temática dos relacionamentos familiares nos eixos de atuação do Projeto Fase II.

Como vimos no capítulo anterior, algumas questões acarretam preocupações no tocante ao imaginário dos jovens. A primeira delas refere-se aos contínuos relatos de conflitos, problemas, dificuldades de relacionamento decorrentes da falta de diálogo e tolerância entre os membros da família. Tanto os jovens reclamam da intransigência dos pais como eles mesmos aludem a falas dos pais que se sentem insatisfeitos com a falta de compreensão dos filhos. A atitude tomada geralmente traduz um impasse, uma desesperança na possibilidade de mudar essa situação, pois existe uma forte perspectiva imaginária de reprodução intergeracional das dificuldades – se os pais não conversam com os filhos seria porque não viveram essa situação com os pais deles. Apesar das freqüentes falas que afirmam um posicionamento diferente com os futuros filhos, impressiona notar como os jovens planejam ter uma família muito semelhante à que vivem como projeto para o futuro.

Outro ponto problemático refere-se à dificuldade de implicação dos jovens nos conflitos familiares. Existe uma postura individualista que impede uma auto-reflexão

como protagonista de ações que afetam a dinâmica familiar. É bastante conveniente para os jovens somente reclamar de suas faltas, isentando-se de buscar alternativas neles mesmos, para a superação dos problemas. Uma hipótese de trabalho no tocante a essa questão, a ser verificada nos futuros encontros, considera a condição de falta como vivida desde sempre na vida desses jovens. Ou seja, os jovens, ao nascer, já se encontram imersos em um contexto desfavorável de exclusão, preconceito e dificuldades financeiras, obrigando-os a buscar formas diversas de suprir suas necessidades, muitas vezes, de maneira insatisfatória.

Desenvolver um espaço de discussão sobre os relacionamentos familiares com os jovens torna-se pertinente no sentido de combater a pobreza afetiva, simbólica e social existente na vida dos jovens da Zona Oeste. Através do exercício do diálogo, respeito e escuta ativa / reflexiva, os jovens participantes desse trabalho puderam defrontar-se com outras experiências de vida, ressignificando discursos, compartilhando condições de existência que, muitas vezes, são vividas na mais profunda intimidade. Ora, sabemos que falar sobre família remete ao segredo, ao emocional, às dificuldades de mudança nos valores e atitudes, devido ao sistema de poder e controle social existente na privacidade da casa (DaMatta, 1990; Foucault, 1979; Costa, 1989). O sofrimento vivido, muitas vezes, não é compartilhado, discutido, ou simplesmente ouvido. Os jovens relataram a importância do trabalho realizado por eles, no sentido da novidade que era alguém se interessar genuinamente pela vida deles, no que eles tinham a dizer.

Esse fato alerta-nos para uma dimensão ética, do reconhecimento pelo outro para a constituição da identidade do jovem. Em um contexto permeado de estigmas, falhas de ordem financeira, educacional, de saúde, enfim, social de um forma geral, estar com um grupo que sirva como referencial de respeito, negociação de idéias e afeto consiste

numa experiência fortalecedora. Cria-se o vínculo (Bowlby, 1986; Winnicott, 1992; Pichón-Riviere, 1990) necessário para a amplificação da visão de mundo, ou seja, por meio de um trabalho, questionar as implicações imaginárias sociais mais amplas que configuram a realidade discursiva que tanto lhes faz sofrer. Vimos, tanto no grupo, como nas entrevistas individuais, o relato contínuo de jovens que sofrem com as agressões, discussões e falta de diálogo com seus familiares. A pobreza, para além do contexto material e financeiro, é vivida como uma dor afetiva, de não se reconhecer incluído no desejo simbólico dos seus pais. (Becker, 1999; Corso e Corso, 1999; Fleig, 1999). Concordamos com Rocha (2002), ao afirmar que

(...) o processo de singularização do sujeito se inscreve na relativização das referências familiares, o que implica que a instituição familiar não se constitua apenas como nós, mas também na presença do outro, condição indispensável da existência do nós. À família, enquanto rede de proteção, de amparo, núcleo estruturante, cabe abrir espaço para o outro, acolhendo as novas experiências e a aceitação do conflito que se instala entre os vínculos de pertinência e relações de apego estabelecidas no espaço doméstico e as investidas para a construção da autonomia. (p.26).

Impressiona a dificuldade de encontrar relatos de reconhecimento do amor dos pais para com os filhos no discurso dos jovens. Os problemas, os pontos negativos superam os ganhos possíveis na vida familiar. As dificuldades e impasses são atribuídos a culpas pessoais, individuais, dos pais e dos filhos. Na construção desse trabalho, percebemos todo o complexo e multifacetado trajeto histórico que configura a repressão, controle e disputas de poder existentes na família. Principalmente as famílias e os jovens pobres constituíam-se como bodes expiatórios das projeções sociais do medo, violência e desintegração. As vozes que acusam e exigem, tanto por parte dos pais como dos filhos, estão impregnados de um discurso construído na microfísica dos poderes, como nos afirma Foucault (1979). A desvalorização dos pais pelos filhos e

vice-versa é decorrente de um lugar simbólico desfavorável de exclusão que vem sendo constituído no decorrer dos séculos a nível mundial e nacional.

No entanto, não acreditamos que os jovens são seres passivos no discurso, pelo contrário, é na crença de que cada jovem pode processar e ressignificar a rede simbólica instituinte que partimos para a realização deste trabalho. A contribuição da Psicologia, nesse âmbito, inscreve-se num combate à pobreza simbólica, numa perspectiva, como nos aponta Guattari (1992) de uma revolução molecular, numa nova cadeia crítica de significações possíveis que questionem o contexto de injustiças, sofrimento e desigualdades. Dessa forma, reivindicar direitos não se torna uma premissa individualista, hedonista, mas sim, um resgate da cidadania ativa e melhoria da qualidade de vida.

A sensação de fracasso nas relações familiares está vinculada a um forte imaginário enganoso de família “estruturada” como padrão de normalização social. Os jovens pouco reconhecem as diversas formas existentes na atualidade de constituição familiar, que podem também ser eficientes nos aspectos educativos, de cuidado e proteção. Faz-se imprescindível uma perspectiva de trabalho nas potencialidades existentes nas famílias vividas. Não somente lamentar e enfatizar as dificuldades nas faltas sentidas, mas também evidenciar, assimilar e valorizar as bases de apoio oferecidas pelas famílias reais (Rizzini et alli, 2000; Barker e Rizzini, 2002; Sousa, 2001). Um processo de investigação da trama intergeracional da família, no sentido de buscar compreender a história dos pais e avós pode ser um passo importante para o estabelecimento de um senso de pertencimento, identidade, reconhecimento social e histórico do lugar que cada jovem ocupa no sistema e tramas familiares.

Ser jovem no mundo contemporâneo consiste em um grande desafio, frente às demandas de uma sociedade marcada pela globalização das informações, velocidade na

mutação dos valores e contínua criação de necessidades de consumo. Uma insatisfação generalizada, somada a uma incerteza nos princípios morais na sociedade gera um desconforto difícil de ser resolvido. A inclusão no mercado de trabalho é escassa, poucas oportunidades são oferecidas em um contexto contínuo de especialização e acúmulo de conhecimento como requisitos. Nossos participantes encontram-se no impasse de lutar por um lugar social em que possam suprir suas necessidades de ascensão, consumo e realização individual. O desafio de superar as condições de dificuldades financeiras confronta-se com uma descrença dos seus pais no tocante ao futuro de seus filhos. Vale ressaltar que nossos participantes não contribuem com a renda familiar, os que trabalham estão em serviços domésticos, ou fazem serviços temporários cuja renda é utilizada para proveito próprio. A emergência do individualismo é facilitada num contexto de dependência econômica dos pais, a qual podemos considerar como uma condição bastante favorável, visto as dificuldades financeiras que as famílias da zona oeste passam. Ainda que a dependência seja sentida pelos jovens como uma situação na qual os pais se utilizam para legitimar sua dominação, chegando até à humilhação e abuso do poder, podemos afirmar que os jovens participantes possuem uma segurança no tocante à família enquanto base de apoio material.

Instiga-se questionar o discurso dos pais para com os filhos adolescentes. É interessante notar como os jovens relatam que aconteceram mudanças negativas na relação com seus pais a partir da adolescência. Acreditamos que os pais também devem sentir-se pressionados, confusos com as demandas específicas dos jovens da contemporaneidade. Qual seria a concepção de família e juventude para as figuras parentais dos jovens participantes do Fórum Engenho dos Sonhos? Como eles vêem a participação de seus filhos em um movimento social? Quais as aspirações e projetos de

futuro? São questões inquietantes para novas pesquisas, tendo em vista a dificuldade encontrada pelos agentes e educadores de engajar os pais e/ou responsáveis como co- participantes do processo de transformação social que o Fórum Engenho pretende empreender a partir dos jovens.

Por fim, gostaríamos de enfatizar a importância desse trabalho como enriquecimento das ações de extensão universitária. Um trabalho acadêmico que responde a demandas de um processo social comprometido com a transformação social consiste, ao nosso ver, mais uma tentativa de aproximação e diálogo dos saberes produzidos na Universidade com a comunidade. Concordamos com Almeida (2002) quando ele afirma que:

(...) a sintonia da instituição acadêmica com os problemas cruciais da sociedade é imperativa, mas não pode e não deve ser considerada como suficiente (...). Operativa e formadora de respostas técnicas sim, mas não podemos abdicar do altivo da razão crítica, da reflexão fundamental, da arte de gestar, alimentar e gerir os valores ilanienáveis da condição humana: o direito à vida, à informação, aos benefícios do progresso da cultura e à felicidade. Daí porque a educação tem como papel primordial formar cientistas comprometidos com a sociedade: com homens, mulheres, crianças que precisam superar a experiência do tempo maquínico de repetição pelo trabalho para viver e não somente sobreviver (p.13- 14).

No nosso percurso enquanto pesquisador e profissional, acreditamos na articulação contínua entre o saber e fazer científicos. A volta para uma reflexão teórica a partir da realidade vivida constituiu num fundamental momento de recolhimento criativo, que configurou novas descobertas e questionamentos para uma atuação mais consciente, sintonizada com as problemáticas da sociedade em que vivemos. Assim, finalizamos o texto com a satisfação de estarmos contribuindo para transformação dos Pinóquios em meninos de verdade, no sentido de ampliar-lhes a consciência crítica, condição fundamental da humanidade, cuidado e ética social.