Ângela Kleiman (2007) não teme falar em leitura como recuperação das intenções do autor. No entanto, para ela essa recuperação apoia-se tanto em elementos extralinguísticos quanto em aspectos linguísticos16. Estes dizem respeito às relações e propriedades internas ao texto, como reconhecer palavras, estruturas sintáticas e sentidos de frases. Os extralinguísticos referem-se aos fatores constituintes da interação verbal, tais como contexto sociohistórico, lugar e momento da enunciação e sujeitos. Nessa perspectiva, o componente contextual faz parte dos elementos extralinguísticos.
Mas isso torna oportuna a pergunta: qual a importância do contexto para a compreensão de um texto? Ler é interpretar o contexto? Alguns autores pontuam a necessidade de levar em consideração tal elemento extralinguístico, não como único recurso/definição para a leitura, mas como parte integrante dela. E nessa linha, dois contextos merecem destaque, o de produção e o de leitura.
Primeiramente, é oportuno lembrar a definição apresentada por José Luiz Fiorin e Francisco Platão Saviolli (1998) sobre texto. Fiorin e Saviolli concebem o texto como uma forma de comunicação, constituída de sentido, produzida por alguém num
dado tempo e num dado espaço. Se o texto é concebido como produto de um ser
sociohistórico, esse sujeito que o produz, esse espaço e esse tempo determinam o contexto de produção que pode imprimir marcas e estas podem refletir e/ou influenciar na leitura/interpretação do texto. Ao ler, o leitor entra em contato com esse contexto (de produção) e também o lê, bem como faz uso do conhecimento prévio (contexto de leitura) para ampliar tal interpretação.
16 Essa atenção ao contexto também é citada por Maria Aparecida Lino Pauliukonis (2007, p. 239) para quem o texto é considerado ―um evento em situação dialógica em que se manifestam elementos lingüísticos e extralingüísticos codificados pela gramática e realizados de acordo com um ‗contrato comunicativo‘ vigente para os diversos gêneros textuais‖.
Mas nesse ponto é necessário pensar nas próprias noções de contexto que subjazem às perspectivas adotadas. Isso porque contexto pode ser pensado em diversas dimensões, indo desde o contexto imediato ou relacionando à fisiologia da leitura (ambiente, situação, materialidade do texto etc.) até percepções menos imediatas.
Paulo Freire (1997), por exemplo, aponta a cosmovisão como uma espécie de macro-contexto abrangente dentro do qual toda relação interpretativa pode acontecer. Segundo Freire (1997, p. 12), a leitura do mundo precede a leitura da palavra, ou seja, o indivíduo faz, de si e do mundo onde se move, uma leitura que é ao mesmo tempo primeira e posterior e mais abrangente que a leitura feita por meio da palavra. Assim, a experiência e o conhecimento de mundo do sujeito orientam, demarcam ou podem até limitar a leitura da palavra. Freire também postula que a linguagem e a realidade são inseparáveis, uma complementa e interage com a outra. Nessa perspectiva, o texto deve ser lido buscando a construção do seu sentido global, ou seja, a compreensão e a percepção das relações entre texto e contexto.
Sendo assim, o sentido do texto é construído na interação sujeitos-texto, sendo que, para que ocorra essa produção de sentido, deve-se levar em conta o contexto, na medida em que o leitor considera aspectos que dizem respeito ao conhecimento da língua, do mundo e da situação comunicativa, principalmente. E, ao entrar em uma interação, nessa situação comunicativa, cada leitor traz consigo sua bagagem cognitiva- social-histórica, ou seja, um contexto, o de leitura.
Contexto também pode ser pensado noutra dimensão, distinta dessa de Freire. Pode-se pensar o contexto da leitura em termos muito mais imediatos, ou seja, considerando os aspectos linguísticos e epistemológicos envolvidos.
A propósito, Koch e Elias (2006) defendem a ideia de que, a partir das pistas do texto, o leitor reconsidera sua posição e participa ativamente na construção do sentido. As autoras mencionam que a concepção de contexto é um dos pontos centrais da Linguística Textual e que antes das pesquisas sobre o texto, o contexto era considerado apenas como o entorno verbal do texto, o co-texto. No entanto, com o surgimento da teoria dos atos de fala e da teoria da atividade verbal passou-se a levar em conta o contexto sociocognitivo como necessário para que se estabeleça a interlocução entre duas ou mais pessoas. Assim, como apontado pelas autoras, o contexto englobará não só o co-texto, como também a situação de interação imediata à situação mediata e o contexto cognitivo dos interlocutores.
Portanto, seja na perspectiva bottom up ou top down, o contexto é indispensável para a compreensão, sendo um conjunto de suposições, chamadas de ―inferências-ponte‖, as quais permitem que as lacunas do texto sejam preenchidas.
E para preencher tais lacunas, o leitor resgata sua bagagem interna: ―a compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização de conhecimento prévio‖ (KLEIMAN, 2007, p. 13). Segundo Kleiman, no ato de leitura o leitor utiliza-se do que já sabe, retoma o que já viu/leu, seu conhecimento adquirido ao longo da vida para a compreensão e construção de sentidos; é o conhecimento que o leitor tem sobre o assunto que lhe permite fazer as inferências necessárias para relacioná-la com diferentes partes do texto num todo coerente.
E, segundo ela, são vários os níveis de conhecimento que entram em jogo durante a leitura e é mediante a interação deles (o conhecimento linguístico, o textual e o conhecimento de mundo), que o leitor consegue construir o sentido do texto. Portanto, ―pode-se dizer com segurança que sem o engajamento do conhecimento prévio do leitor não haverá compreensão‖ (op. cit.).
Tal compreensão é fruto da valorização do leitor nas últimas décadas. É a leitura a partir do leitor e de seu mundo, como apontado por Vilson José Leffa (1996), segundo o qual aquilo que o leitor compreende da realidade trazida pelo texto depende das experiências prévias que ele (leitor) leva para a leitura. É o conceito top down de leitura, segundo o qual o leitor parte de seu mundo, de seu contexto, para o texto. O trajeto da informação é de cima (top) para baixo (down).
Segundo Pauliukonis (2009), diante de tantas concepções de leitura, faz-se necessária uma atenção especial à noção de contexto. Embasada em vertentes sociohistóricas e interacionais para analisar a pertinência do contexto, a estudiosa (2009, p. 42) afirma que o ―tratamento de uma única frase ou de um fragmento qualquer de texto exige atenção ao contexto‖.
Assim, ―para saber interpretar textos não basta conhecer a Gramática da Língua‖, é preciso ainda, segundo ela, ―ser instruído quando ao valor do contexto sociohistórico em que aquilo foi produzido‖, reconhecer quem é o Autor e saber que, ao escrever, ―teve certas intenções que podem ser recuperadas por meio do exame das operações lingüístico-discursivas utilizadas‖, como também observar as ―condições de
produção” (grifos da autora) em que se deu um texto. Isso porque todo texto é
recuperado a partir do contexto em que foi escrito e, portanto, ―pertence a um Projeto de intenção e interação que o torna discurso‖ (op. cit., p. 42).
Essa posição baseia-se na ideia do discurso como ―configuração de uma intencionalidade comunicativa‖ (op. cit., p. 43), e na convicção de que para ―interpretá- lo, busca-se recuperar essa intencionalidade, a partir da relação entre as proposições encontradas e o conhecimento partilhado que se tem do mundo, o que permite estabelecer várias coerências em níveis linguísticos e pragmáticos‖ (op. cit., p. 43).