I. REGARDS RETROSPECTIFS
3- Configurations nouvelles
A investigação, em geral, caracteriza-se por utilizar os conceitos, as teorias, a linguagem, as técnicas e os instrumentos com a finalidade de dar respostas aos problemas e interrogações que se levantam nos mais diversos âmbitos do trabalho.
A investigação é definida por Fernandes (1991, p. 4) como “um processo rigoroso e sistemático” de explicação ou interpretação da realidade que requer um saber aprofundado dos métodos e técnicas necessárias ao seu desenvolvimento mas a resposta tanto pode ser abstrata e geral como concreta e específica (Tuckman, 1994). Assim, “o objetivo da investigação científica é não só descobrir e descrever acontecimentos e fenómenos, mas também explicar e compreender porque razões tais fenómenos ocorrem” (Jesuíno, 2005, p. 105).
A investigação está imbuída de um conjunto de características: sistemacidade, lógica, empirismo, redutibilidade, replicabilidade e transmissibilidade (Tuckman, 1994), seguindo “um procedimento análogo ao pesquisador de petróleo” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 15) e, como tal, o seu êxito depende dos procedimentos seguidos. Para Tuckman (1994, p. 22), a investigação deve ser desenvolvida por fases: i) identificação de um problema; ii) análise da bibliografia; iii) construção de uma hipótese; iv) identificação e
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definição do estatuto das variáveis; v) construção das definições operacionais; vi) manipulação e controlo das variáveis; vii) construção do design de investigação; viii) identificação e construção de processos de observação e medida; ix) elaboração de questionários e guiões para a realização da entrevista; x) realização de análises estatísticas; xi) redação do documento final; xii) organização e desenvolvimento de um processo de investigação qualitativa; xiv) análise crítica dos documentos já publicados de investigação. Estes procedimentos constituem-se como uma forma de alcançar um objetivo sendo os métodos utilizados “percursos diferentes concebidos para estarem mais adaptados aos fenómenos ou domínios estudados” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 25) não esquecendo nunca a fidelidade que o investigador deve observar em relação aos procedimentos científicos.
Porém, sendo a investigação uma atividade de cariz humano, transporta um conjunto de valores e princípios de orientação para o investigador (Morgado, 2013), ou seja, o investigador em educação não se consegue libertar do contexto histórico associado ao objeto de investigação.
A abordagem quantitativa foi predominante em investigação em educação, estando diretamente relacionado com o positivismo de Comte, definido por Moreira (2007, p. 24) como “o estudo da realidade social utilizando o enquadramento concetual, as técnicas de observação e medição, os instrumentos de análise matemática e os procedimentos de inferência das ciências naturais”.
A investigação quantitativa difunde o uso sistemático de procedimentos experimentais, sistemas de medida, análise estatística de dados e o recurso a arquétipos matemáticos (Fernandes, 1991) como forma de testar hipóteses e obter resultados que se pretendem objetivos e rigorosos, ou seja, considera-se a existência de uma realidade que pode ser interpretada objetivamente recorrendo a procedimentos quantitativos. Acredita-se, assim, ser possível o estudo dos fenómenos educativos através do domínio de variáveis e no estabelecimento de relações de causalidade. Bravo e Eisman (1998, p. 45) consideram que a investigação que recorre a este método “está exenta de cualquier tipo de valor, es decir, proporciona una actitud neutral, ya que este método garantiza la rigurosidad en los dado obtenidos y evita los sesgos ocasionados por preferencias subjetivas e inclinaciones personales”.
Chizzotti (2003, p. 222) refere que a pesquisa quantitativa “recorre à quantificação como única via de assegurar a validade de uma generalização, pressupondo um modelo único de investigação, derivado das ciências naturais, que parte de uma hipótese orientadora seguindo um caminho indutivo, apoiado em constatações objetivas sustentadas pela estatística e com o objetivo final de estabelecer leis. Todavia, a abordagem quantitativa apresenta algumas limitações. Fernandes (1991) aponta duas: i) a aplicação deste método em seres humanos que são por natureza imprevisíveis e ii) a impossibilidade de aplicar apenas os
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métodos científicos ao campo da educação, uma vez que, a realidade escolar é muito complexa. Podem ainda ser apontadas outras limitações, a saber: i) a objetividade – existe uma grande componente de observação estando o investigador imerso na realidade observada; ii) o tempo - é uma investigação que exige observações prolongadas implicando, por isso, uma maior carga financeira.
A metodologia quantitativa parte do princípio “que os problemas educativos têm soluções objetivas e que estas podem estabelecer-se mediante a utilização de métodos científicos” (Carr & Kemmis, 1988, p.85). No entanto, ao reconhecer que o acontecimento social é mais do que o aprendido de através da recolha de dados quantitativos “abre-se a porta a uma busca e utilização de “outras” aproximações investigativas (Moreira, 2007, p.49), isto é, a abordagem qualitativa.
A abordagem qualitativa, também chamada interpretativa, pretende a compreensão dos problemas mas através do ponto de vista dos sujeitos da investigação, admitindo, por isso, tantas interpretações da realidade quantos indivíduos que a pretendam estudar. Stake (2012, p. 65) refere que os investigadores que recorrem à metodologia quantitativa “têm um grande privilégio e uma grande obrigação: o privilégio de prestar atenção ao que consideram digno de atenção e a obrigação de tirar conclusões retiradas das escolhas mais significativas”. Nesta perspetiva, nada é banal e tudo pode constituir um indício que nos ajudará a compreender melhor o nosso objeto de estudo. Chizzotti (2003, p. 221) refere que a pesquisa qualitativa “recobre hoje um campo transdisciplinar, envolvendo as ciências humanas e sociais, assumindo tradições ou multiparadigmas de análise, derivadas do positivismo, da fenologia, da hermenêutica, do marxismo, da teoria crítica e do construtivismo” à luz dos quais, os investigadores, procuram compreender e interpretar o sentido dos fenómenos, bem como, o significado que lhes é atribuídos pelas pessoas e, por isso, podemos afirmar que a palavra-chave desta abordagem é a interpretação e “a construção de significados a partir de uma gama variada de dados obtidos em contextos naturais” (Costa & Paixão, 2004, p. 87). Para isso, é necessário um processo de partilha intensa separando o observador e a realidade observada, em que, o conhecimento ocorrerá através de um processo de compreensão. Segundo Bravo e Eisman (1998, p. 50), através da compreensão pretende-se “atingir la captación de las relaciones internas y profundas, indagando en la intencionalidad de las acciones y las percepciones de los sujetos”.
A investigação qualitativa revela cinco caraterísticas: i) o ambiente natural é a principal fonte de dados e uma vez que o investigador se imiscui nesse ambiente torna-se o instrumento principal; ii) é descritiva, sendo que, os dados recolhidos podem assumir qualquer forma; iii) os investigadores interessam- se, não apenas pelos resultados ou produtos, mas também pelo processo; iv) os dados tendem a ser analisados de forma indutiva procurando, assim, uma explicação para os dados que vão sendo recolhidos e
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v) é importante o significado e não apenas os resultados (Bodgan & Biklen, 1994). Na perspetiva de Chizzotti (2003, p.222) a investigação qualitativa apresenta como características próprias o facto de esta criar e atribuir significados “às coisas e às pessoas nas interações sociais e estas podem ser descritas e analisadas prescindindo de quantificações estatísticas”. Refere-se, ainda, que o desenho de investigação pode ser alterado ao longo da pesquisa.
Algumas das limitações desta metodologia são a sua subjetividade uma vez que os investigadores qualitativos se deparam muitas vezes como mais dúvidas do que respostas às questões prévias, o tempo, o custo elevado e, segundo Stake (2012, p. 60), o facto de os investigadores “não possuírem protocolos suficientemente abrangestes que submetam as interpretações subjetivas erradas a um teste suficientemente rigoroso”
A investigação é uma atividade complexa que exige abordagens diferentes, ou seja, a abordagem quantitativa e a abordagem qualitativa. Stake (012, p.52) refere a existência de três diferenças entre os dois métodos: i) “a distinção entre a explicação e compreensão como objetivo da investigação, ii) a distinção entre um papel pessoal e impessoal para o investigador e iii) a distinção entre o conhecimento descoberto e o conhecimento construído”. O autor também refere que o investigador quantitativo procura entender o que está a acontecer recorrendo a escalas e medidas enquanto o investigador qualitativo procura compreender o evento usando a sua interpretação do investigador como orientação.
Todavia, Medeiros (2004) afirma ser necessário ultrapassar a oposição que existe entre a metodologia quantitativa e qualitativa, uma vez que pode ser necessário recorrer às duas metodologias em simultâneo escolhendo cuidadosamente os momentos em que se recorre a cada uma delas. Também Miles e Huberman (1984, citados por Lessard-Hébert, Goyette, e Boutin, 1994, p.34) defendem a ideia da existência de um “continuum metodológico entre o qualitativo e quantitativo”. Para Moreira (2004) os questionários (técnicas quantitativas) podem acontecer paralelamente a entrevistas (técnicas qualitativas).
Na nossa perspetiva, o investigador só terá a ganhar com o uso em simultâneo das duas metodologias porque elas se complementam e geram um volume superior de informações.
O estudo empírico que faz parte desta situação situa-se na confluência das abordagens quantitativa e qualitativa. Utilizamos uma metodologia quantitativa quando elaboramos, aplicamos e fazemos uma leitura estatística de um questionário aplicado a todos os docentes da escola sede do agrupamento e, ao mesmo tempo, recorremos ao método qualitativo quando realizamos entrevistas (individual e de grupo)e completamos as informações obtidas com a análise documental. A aplicação das duas metodologias pareceu-nos fundamental porque nos ajudou a quantificar dados mas ao mesmo tempo nos permitiu ir mais
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além. Os dados obtidos nas entrevistas deram-nos a conhecer o ponto de vista das estruturas intermédias da escola objeto do estudo, bem como o contexto em que são desenvolvidas as atividades – estudo de caso.