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A eussocialidade é o mais alto grau evolutivo do comportamento social e é definida pela combinação de cuidado cooperativo com a prole, sobreposição de gerações e divisão dos membros da colônia em reprodutivos e não reprodutivos. Entre os himenópteros, a eussocialidade ocorre nas formigas, abelhas e vespas (WILSON, 1990). As vespas pertencem à família Vespidae, subordem Apocrita, apresentando gêneros e espécies com diversos níveis de organização social, incluindo desde insetos de vida solitária, passando por vários tipos de organizações pré-social, tipos de comportamentos sociais simples e até mais de uma forma de sociedades complexas, sendo que nenhum outro táxon apresenta a mesma riqueza de comportamentos desse tipo (HUNT, 2007). A família Vespidae, é dividida em sete subfamílias: Priorvespinae, Euparagiinae, Masarinae, Eumeninae, Stenogastrinae, Polistinae e Vespinae, sendo a primeira uma subfamília já extinta e as três últimas, representantes de espécies sociais (CARPENTER, 1982; CARPENTER; RASNITSYN, 1990).

As vespas apresentam ciclo de vida marcado por metamorfose completa, ou seja, são holometábolos, passando por estágios de desenvolvimento com necessidades nutricionais variadas (WILSON, 1990), que incluem tanto de fontes de carboidratos, como proteínas. Os diferentes meios pelos quais os indivíduos conseguem os nutrientes necessários influenciam em grande escala o ecossistema em que vivem. As fontes de carboidratos são frequentemente açúcares provindos do néctar de flores, sendo que as vespas podem ocasonialmente atuar como potenciais polinizadores (SÜHS et al., 2009). Além das folres, esses açúcares podem ser coletados também nos exudatos de Aphydae, Psyllidae e Coccidae (Hemiptera), seivas de árvores, sucos de frutas ou até mel roubado de colônias de abelhas (SPRADBERY, 1973). As proteínas obtidas para a alimentação dos imaturos são oriundas de presas coletadas, sendo estas na maioria artrópodes, mas também existindo relatos de vespas coletando em carcaças de vertebrados (SPRADBERY, 1973; GOMES et al., 2007; MORETTI et al., 2008). Essas presas podem ser coletadas no campo ou até roubadas de outros predadores e a busca por artrópodes como fonte de proteína pode ser usada em projetos de controle biológico, fator importante, no entanto ainda pouco explorado (SPRADBERY, 1973; PREZOTO et al., 2008).

Os vespídeos sociais constroem ninhos, usurpam ninhos pré-existentes ou ocupam cavidades nas quais nidificam (CARPENTER; MARQUES, 2001). Os ninhos podem ser muito pequenos, não passando de centímetros, mas também podem alcançar tamanhos avantajados, com mais de um metro de comprimento (WENZEL, 1998) e milhões de células, entre células vazias e com prole (ZUCCHI et al., 1995). A estrutura do ninho pode ser muito resistente ou bastante frágil, sendo em sua maioria construída primariamente com fibra vegetal, ocorrendo apenas algumas espécies que se utilizam de barro na construção. Os ninhos apresentam inúmeras formas, com diferentes arquiteturas e locais de nidificação (WENZEL, 1998), podendo ser construídos na superfície de folhas, sobre ou dentro de construções humanas, sobre ou dentro de troncos de árvores, presos a ramos vegetais ou até em cavidades no solo (HENRIQUES et al., 1992; RAW, 1998; CARPENTER; MARQUES, 2001). Essa arquitetura dos ninhos bastante diversa entre os vespídeos sociais é útil na caracterização taxonômica dos grupos (WENZEL, 1991), e muitas vezes, associadas às características morfológicas do indivíduo auxilia na identificação das vespas (RICHARDS, 1978).

O Brasil possui uma ampla diversidade de vespas sociais, todas pertencentes à subfamília Polistinae, chegando a 319 espécies, ou seja, 32,75% das espécies de vespas sociais descritas no mundo (PREZOTO et al., 2007). Devido a esta elevada diversidade e à importância que vem sendo atribuída a este grupo de insetos, os trabalhos relacionados com a diversidade de vespas no país estão aumentando em número e têm abrangido diferentes regiões, ambientes e biomas do Brasil.

O bioma Mata Atlântica, considerado um dos 25 hotspots do mundo, estando inclusive entre os oito hotspots mais ameaçados, apresenta alto grau de endemismo e elevada perda de área (MYERS et al., 2000), contando atualmente apenas com 11,7% de sua extensão original, sendo que o remanescente deste bioma encontra- se sob intensa pressão antrópica e muito fragmentado (RIBEIRO et al., 2009). Com a destruição em massa sofrida por este bioma e a grande quantidade de espécies endêmicas existentes, um elevado número de espécies provavelmente foi extinto antes mesmo de ser descoberto (MORELLATO; HADDAD, 2000) e, dessa forma, o estudo de diversidade de fauna torna-se de extrema importância em áreas deste bioma. A Mata Atlântica é composta por diferentes fisionomias que incluem florestas ombrófila aberta, mista (também denominada de mata de araucárias) e densa, florestas estacional semidecidual e decidual, savana (cerrado), savana estépica

(caatinga), estepe, áreas das formações pioneiras (mangues, restingas e áreas aluviais), refúgios vegetacionais, assim como as áreas de tensão ecológica (Lei N° 11.428, de 22 de dezembro de 2006).

Apesar de o número de inventários de comunidades de Polistinae ter crescido bastante nos últimos anos, ainda existem muitas regiões do Brasil e diferentes formações florestais com falta de dados sobre a diversidade deste grupo de insetos. No Sudeste do país, em regiões pertencentes ao bioma Mata Atlântica essa falta de estudos é evidente, existindo um maior número de inventários realizados no Estado de Minas Gerais, sendo que estes foram realizados em áreas com predomínio de floresta estacional semi-decidual em Ouro Fino e Camandacaia (ALBUQUERQUE et al., 2015), em São Gonçalo do Sapucaí e na Serra do Brigadeiro (SOUZA et al., 2015a), no Parque Estadual do Rio Doce onde fica o maior remanescente de Mata Atlântica do Estado (SOUZA et al., 2012), em Barroso, onde ocorre uma transição entre Mata Atlântica e Cerrado, composta por floresta estacional semidecidual, floresta ripária e Cerrado (SOUZA et al., 2008), em áreas com paisagem composta por Floresta estacional semidecidual e ombrófila densa na Serra do Ibitipoca (PREZOTO; CLEMENTE, 2010) e na Serra do Papagaio com a fitofisionomia composta por floresta ombrófila mista (mata de araucária) e campos de altitude (SOUZA et al., 2015b). Já no Estado de São Paulo, os inventários realizados em fragmentos do Bioma Mata Atlântica ocorrem em menor número, se concentrando na região noroeste em áreas de transição entre Mata Atlântica e Cerrado nos municípios de Patrocínio Paulista (LIMA et al., 2010), Paulo de Faria, Pindorama, Neves Paulista (GOMES; NOLL, 2009), Magda, Bebedouro, Matão e Barretos (TANAKA JUNIOR; NOLL, 2011). Na região leste do Estado, no entanto, existem apenas dois inventários de vespas sociais, um no sudeste em Ribeirão Grande (ARAB et al., 2010) e outro no litoral paulista, que foi realizado em fragmento composto por floresta ombrófila densa em Ubatuba, na base da Serra do Mar (TOGNI et al., 2014).