Percebemos que se trata de um grupo de pessoas que se reúnem com uma freqüência mais ou menos regular, dado o número elevado de sessões ordinárias (realizadas nos dias úteis, exceto aos sábados), principalmente, as extraordinárias (realizadas em dias ou horas diversos dos prefixados para as ordinárias), realizadas durante o período de vigência de cada governo. Além disso, cabe ainda observar que, provavelmente, apesar das possíveis diferenças a serem encontradas de estado para estado, as sessões ocorrem de forma similar: são apresentados projetos de lei/medidas e daí segue-se, em geral, à votação/discussão dos mesmos, com tempo determinado para cada parlamentar para fazer uso da palavra. E, mesmo que as discussões se tornem acaloradas, descambando para níveis extremos de tolerância, há a intervenção do presidente da sessão a fim de garantir o nível de respeito/formalidade característico das sessões. Outro item a ser observado é o caráter público da fala dos parlamentares. Supõe-se que haja entre eles uma certa preocupação com a norma culta. Essa preocupação com a “correção” estaria relacionada tanto à receptividade de uma platéia atenta e bastante crítica quanto à consciência dos parlamentares de que sua fala ficará registrada nos
anais da Casa ou ainda está sendo acompanhada via rádio, tv. Esses fatores devem contribuir para que os dados tenham um caráter relativamente formal. A semelhança quanto aos assuntos discutidos durante as sessões também é importante. Em geral, durante as sessões parlamentares, discutem-se questões relativas a temas da atualidade: problemas econômicos, sociais e culturais.
Ainda, no que se refere à nossa amostra, esta não retrata estritamente o vernáculo (como variedade informal e casual), nem permite delinear com precisão os fatores sociais envolvidos. Porém, o próprio Labov (1972, grifo nosso) admite que dados de programas de rádio ou televisão (principalmente nos casos de entrevista), palestras, debates podem se constituir em amostras, desde que se tenha em mente que nestas a questão do estilo é mais formal e que estabeleçamos “uma hierarquia estilística do desempenho do informante: de formal a informal; de “não-natural” a “natural” (TARALLO, 1985, p. 30).
2 DELIMITAÇÃO DA VARIÁVEL: A QUESTÃO DO SIGNIFICADO
Nosso objeto de análise são as formas verbais que desempenham a função de expressar a futuridade. Entretanto, visto que a expressão da futuridade em uma língua nunca está restrita a uma única motivação, é provável que as formas verbais de futuro não signifiquem exatamente a mesma coisa, pois no complexo domínio funcional do tempo futuro pode haver a interferência da modalidade ou do aspecto ou de ambos.
A questão de que as formas de expressão de futuridade não significam “exatamente” a mesma coisa reacende a discussão de Labov (1978) e Lavandera (1978) sobre a impossibilidade de haver variação no sentido restrito do termo, em ambientes morfossintáticos ou discursivos. Mas a solução para esse impasse está no conceito daquilo que se entende por “variante”. Nesse sentido, a definição de Gryner (1990, p.43) é
esclarecedora: “empregamos o conceito de variante, no mesmo sentido de Lavandera, isto é, de modo a incluir entre as formas que constituem as ‘várias maneiras de dizer a mesma coisa’ aquelas que veiculam diferentes significados estilísticos. Assim, a redefinição do termo não altera, mas expande a definição proposta por Labov”4. Além disso, “podemos estudar fenômenos que implicam diferenças de sentido entre as variantes se levamos em consideração este fator, como qualquer outro fator relevante.” (NARO, 1998, p. 110)5.
Essas considerações permitem que nossa variável dependente seja recortada a partir da função futuridade em relação ao momento de fala, isto é, as variantes isoladas, mediante teste de substituição, devem compartilhar, num mesmo contexto de uso, o mesmo valor temporal de futuridade – tendo como ponto de referência o momento de fala. As nuances aspectuais ou modais são vistas como (sub)funções das formas de futuridade e serão controladas como grupo de fatores, de modo a captar matizes de função/significado diferenciados que podem estar atuando no emprego de cada variante. Nesse sentido, a variável aqui tratada pode ser caracterizada como um fenômeno superordenado (cf. GORSKI et al., 2003, p. 109).
Nossa variável dependente terá sete formas de expressão:
estar (morfema de futuro do presente) + verbo principal (gerúndio) - (estarei –NDO); ir (presente) + estar + verbo principal (gerúndio) - (vou estar –NDO);
estar (presente) + verbo principal (gerúndio) - (estou –NDO); futuro do presente do indicativo - (FS);
ir (presente) + verbo principal (infinitivo) - (vou –R);
ir (morfema de futuro do presente) + verbo principal (infinitivo) - (irei –R )6;
4 Veja mais detalhes da conciliação das perspectivas teóricas de Labov e Lavandera em Gryner (1990).
5 A esse respeito, vejam-se também: Macedo, Roncarati e Mollica (1996); Mollica e Braga (2003); Gorski et al. (2002); Gorski et al. (2003).
6 Devido ao reduzido número de dados, apenas 33 (5 %), irei – R teve um tratamento diferenciado nas rodadas: primeiro rodamos esses dados sozinhos, depois amalgamados a vou – R. Quando rodamos irei –R versus as demais variantes, apenas o traço semântico inerente ao verbo foi selecionado como estatisticamente significativo e quando rodamos esses dados amalgamados a vou –R a inclusão dos dados de irei –R não provocou alterações nos grupos e pesos relativos selecionados para vou –R. Portanto, nas tabelas constam apenas os resultados da variante vou –R, somente na análise do grupo traço semântico inerente ao verbo é que fazemos algumas considerações em relação ao comportamento de irei –R. Ainda em relação a irei – R, Santos (1997, p.13) comenta que a variante tem características tanto do futuro sintético quanto de vou – R: “a soma das marcas das duas formas de futuro garante a dupla realização morfêmica de futuro: tem-se a futuridade expressa pelo verbo ir
presente - (presente).
O contexto de futuridade deve permanecer o mesmo para as sete variantes, a ponto de permitir a substituição de uma forma por outra, sem comprometer o significado, em um mesmo enunciado.
No exemplo (1), observamos como o contexto de futuridade se mantém em todas as variantes:
(1) Porque se trata do projeto mais importante que esta Casa votará até o final do ano. (PR – 104ord02) ... que esta Casa estará votando até o final do ano.
... que esta Casa vai estar votando até o final do ano. ... que esta Casa vai votar até o final do ano.
... que esta Casa irá votar até o final do ano. ... que esta Casa vota até o final do ano.
...que esta Casa está votando até o final do ano.
→ ---F / R--- S---→
R: momento de fala S: estará votando
vai estar votando
vai votar irá votar vota
está votando
A representação acima F/R – S pode sofrer alterações, dependendo do contexto discursivo e da variante utilizada. Essa possibilidade é decorrente da proposta reichenbachiana, que prevê um esquema diferente para formas “extendidas”. Neste caso, as locuções estar –NDO poderiam ser representadas por:
→ ---F --- S /R---→
R: momento de fala S: estará votando
vai estar votando
está votando
de movimento, e também o morfema de futuro simples no próprio ir.” Além disso, a autora também diz que é difícil encontrarmos alguma referência à variante; apenas Earl W. Thomas, um estudioso americano da língua portuguesa falada no Brasil, faz alusão à variante: “esta construção não é muito freqüente, mas é recorrente na fala o suficiente para ser considerada uma forma estabelecida. É usada na escrita menos formal, como revistas, mas é rara na literatura.” (1969, p. 122 apud SANTOS, 1997, p. 34).
O diagrama acima ilustra bem o fato de que, mesmo havendo diferentes nuances de sentido7 com a substituição de uma variante pela outra, todas elas compartilham a codificação de uma situação S futura em relação ao momento de fala F. Temos, portanto, a manutenção do mesmo contexto de futuridade para as sete formas verbais, o que nos permite tratá-las como variantes de uma mesma variável.