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Le compte d’exploitation : les recettes

Foram selecionados três curtas-metragens para serem exibidos aos participantes desta pesquisa. Todos os filmes já havia sido audiodescritos, com o roteiro voltado para as pessoas com deficiência visual, e fazem parte do acervo do grupo de pesquisa TRA- MAD.

Os curtas apresentam em suas narrativas elementos chave que, se não compre- endidos pelo público, não seria possível entender o desfecho da obra, assim como há elementos que podem ou não prejudicar o entendimento desse novo público. A seguir, uma descrição dos filmes e quais elementos foram percebidos como importantes para a narrativa e cujo público com deficiência intelectual pudesse ter mais dificuldade em as- similar.

A análise dos dados está dividida por filmes, na sequência em que se deu o teste de recepção. Os quadros seguem com a formatação adotada na seção anterior e apresen- tam as transcrições das entrevistas com cada participante das duas APAEs. A análise do questionário de compreensão da narrativa fílmica está baseada em quatro critérios de investigação que podem ou não ter influenciado as respostas dos participantes: história de vida dos alunos, interferência regional, complexidade da narrativa dos filmes e in- fluência do diagnóstico dos alunos.

O primeiro critério permitirá perceber se a história de vida dos alunos afeta suas respostas, se faz inferência ou conexões com momentos ou pessoas que convivem com eles. O segundo parâmetro permitirá estabelecer padrões, caso possua, entre os alunos conforme sua regionalidade, se o fato de morarem em estados e regiões geográficas di- ferentes, nordeste e sudeste, interfere em suas percepções. O terceiro critério abordará a complexidade da narrativa dos filmes, se os alunos, de modo geral, entenderam mais um filme ou outro pela simplicidade do enredo da história. Por fim, o último parâmetro i- dentificará se as respostas dos alunos foram influenciadas por sua deficiência, a patolo- gia pode sim ter uma influência no momento da construção de ideias e sentidos das pes- soas com deficiência intelectual, mas seu entorno, como foi visto no capítulo anterior, pode limitar ainda mais a percepção desses indivíduos.

As perguntas dos questionários exploram dos participantes sua capacidade de memórização, associação entre personagens, cenas e temas durante a narrativa, atenção e o efeito de algumas palavras selecionadas no roteiro de AD para DV. Desse modo,

todas as questões aqui apresentadas serão analisadas com base nesses critérios para i- dentificar quais elementos devem estar contidos no roteiro de AD para DI, levando em conta os quatro parâmetros de análise das respostas.

Primeiramente, os quadros serão apresentados logo após cada tabela seu comen- tário. Qualquer menção às audiodescrições trabalhadas nessa pesquisa poderá ser aces- sada nos anexos deste trabalho bem como os quadros de expressões faciais e reações dos alunos durante a exibição dos filmes.

4.1 VIDA MARIA

O curta é uma animação dirigida por Márcio Ramos, produzida no ano de 2006. Conta a história de Maria José, uma menininha de cinco anos de idade que vive no ser- tão do Ceará, nordeste do Brasil, e é levada a abandonar os estudos para trabalhar. En- quanto trabalha, ela cresce, casa, tem filhos, envelhece29.

No início do filme, a menininha Maria surge apoiando seus joelhos numa ban- queta, à medida que se debruça na janela sobre um caderno no qual escreve seu nome. Sua mãe, uma senhora com o rosto bastante sofrido, a chama para deixar de “desenhar nome” e ir fazer os trabalhos domésticos. A pequena se vê obrigada a deixar de estudar, para cuidar da casa e ajudar sua mãe. À proporção que o tempo passa, Maria se torna uma mocinha, que carrega baldes na cabeça, amassa o milho no pilão e lava roupa. Sem muitas opções casa-se com Antônio e tem vários filhos. Maria, com o passar dos anos e a vida sofrida do sertão, vai se tornando a cada dia mais amargurada e envelhecida, re- petindo o ciclo com sua filhinha Maria de Lurdes, que se encontra no mesmo lugar em que ela aparece no inicio do filme. Maria José esquece completamente que um dia este- ve ali desenhando seu nome como sua filha e novamente retira dos braços desta a opor- tunidade de estudar e mudar o ciclo. Ao final do filme, Maria José volta-se para o corpo de sua mãe que está sendo velado na sala de sua casa, com todos os seus filhos, esposo e pai ao redor. O caderninho, que ficou na janela sozinho, repassa suas folhas com o vento e é possível perceber várias gerações de Marias, que apenas cravaram seus nomes e ja- mais voltaram a pegar no lápis novamente.

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O filme não apresenta muitos diálogos, as cenas estão sempre acompanhadas de uma música fúnebre ao fundo, dialogando com o clima árido e a vida dura retratada no trabalho. Durante o crescimento da personagem, é possível identificar suas mudanças com as vestimentas. Sempre que Maria modifica seu vestido ela aparece ou mais velha ou grávida, sendo um dos elementos abordados no questionário de compreensão desse filme. O filme é do gênero animação, como mencionado acima, e foi produzido em computação gráfica 3D. As cores e a textura capturadas são bastante vivas sendo de fá- cil percepção as expressões e mudanças de tempo que a narrativa traz.

Os nomes das personagens também são explorados nos questionários, pois as personagens, participantes da trama, têm o mesmo aspecto físico, tanto a mãe de Maria José e ela, quando adultas, assim como Maria José e sua filha, Maria de Lurdes, quando crianças. Também há presença do mesmo cenário, representando o ciclo que se repete com o passar das gerações. Ao final do filme, a protagonista veste preto, devido a morte de sua mãe, nada disso é dito, apenas mostrado nas cenas, sendo também um elemento focado na pesquisa de recepção, como também a ideia de que todas as Marias que sur- gem no caderno são gerações passadas daquela mesma família.

O roteiro de AD foi produzido pelo Grupo Beco das Garrafas Studio, por Letícia Schwartz e Cesar Diniz e narrado por Letícia Schwartz. Após a aplicação do questioná- rio de compreensão, o filme Vida Maria foi exibido para os alunos, como pontuado na seção anterior, inicialmente, sem o recurso da AD, e, posteriormente, foi realizada a a- plicação do questionário de perfil.

O curta foi novamente exibido, mas, desta vez, contava com o auxilio da audio- descrição, e, como na primeira etapa, foi aplicado o questionário de compreensão. To- dos os questionários possuem uma pergunta sobre a relação do aluno com a audiodes- crição. Depois deste primeiro contato com a AD, um questionário sobre a audiodescri- ção foi aplicado, sendo discriminado das questões 18 a 21.

A participante SP5 pediu para interromper a exibição do filme na segunda etapa, com AD, pois alegou cansaço e também não quis responder as perguntas. Por esta ra- zão, todas as perguntas com AD dessa participante, em particular, estão em branco. Ca- be salientar que, no dia seguinte, a aluna confessou que achou o filme muito triste assis- tindo-o pela segunda vez e já que sofre de depressão, não quis continuar. Como é possí- vel perceber no quadro de reações e expressões (anexo), a aluna assiste até o minuto 3 do filme, momento em que Maria soca o milho e seu marido coloca água para os ani-

mais. A aluna ainda informa que sua mãe pediu para que não passasse mais filmes que a fizesse triste, pois SP5 havia ficado na cama todo aquele dia, em função de depressão. É possível que a aluna tenha percebido a tensão do filme por estar assistindo pela segunda vez, e, consequentemente, assimilado melhor a narrativa fílmica, bem como, a adição do recurso da AD que pode ter direcionado sua atenção para mais detalhes do filme.

Assim, a amostra para a porcentagem de respostas será de 11 alunos para a se- gunda etapa, uma vez que a aluna SP5 não respondeu ao questionário de compreensão com audiodescrição.

Quadro 2 – Pergunta 1 do questionário de compreensão do filme Vida Maria.

PERGUNTA 1