É evidente que os poemas do Livro de Auras situam-se no universo feminino, haja vista os títulos das três partes que constituem essa obra: Viveiro,
Coisas de mulher, Lição de casa. Todos se vinculam ao espaço da vivência
cotidiana, da casa, da família, da intimidade, dos afazeres domésticos, do erotismo feminino. Nos dois poemas analisados nessa seção, observamos a inserção íntima da mulher na cozinha e a relação enraizada entre o sujeito e o fazer doméstico, de modo que é no espaço familiar, através dos sinais deixados pelo indivíduo que, doando-se, o compõe, que percebemos o drama humano. Este não é expresso de modo confessional por uma retórica sentimentalista; ao invés disso, é mostrado pela linguagem que prefere visualizá-lo em palavra viva a veiculá-lo como mera transmissão de conteúdo ou como notícia que emite algo que lhe é exterior. Comecemos, então, com a leitura do poema Segredos culinários:
Antonia se doa toda à cozinha. Quanto às barquinhas de berinjela, erra na mescla do recheio com queijo: o marido carregou os filhos
lá para as bandas de Minas e as bordas entornam, os cascos murcham;
o legume naufraga sem rumo na angústia do forno.
Na salada de chuchu, batata e cenoura, nenhum escapa do tom opressivo de beterraba,
ativa cor que empresta cores funestas também à boca de quem come. Da alcachofra então
renega nela a flor que era! Despetala-a com tal rigor que em lugar do coração temos (da pobre) a alma –
toda lancetada pelas farpas prontas
a se aplicarem na língua de quem reclama. Em compensação
a carne estufada com arroz está um primor!
Antónia, por que é que chora? – Não choro, corto cebola.
O poema traz uma singela anedota. Antonia, mulher aplicada à cozinha, prepara alimentos, e a descrição desse fazer doméstico – o fracasso culinário –, casa-se à notícia de que o marido a deixou, carregando consigo os filhos. Inegavelmente, esse dado da história pessoal de Antonia possui forte apelo dramático, não constituindo novidade se essa cena fosse figurada com lamentos e lágrimas. Contudo, o que observamos no poema é a tentativa de conter o sentimentalismo exagerado, mas sem deixar na indiferença o doloroso acontecimento. A solução poética encontrada foi produzir uma descrição que dá corpo ao sofrimento, fisgando-o de modo visceral pelas imagens que o animam e o fazem latejar. É nessa perspectiva que as bordas entornam, os cacos murcham, e o
legume naufraga sem rumo na angústia do forno. O estrago culinário nos dá uma
idéia do estrago afetivo provocado pelo abandono do marido e pela ausência dos filhos. À imagem dos objetos manipulados por Antonia, também ela se encontra abatida e perdida.
A correspondência entre sujeito e objeto, entre cozinheira e comida, tem o verbo doar como emblemático dessa relação. Antonia se doa toda à cozinha, no sentido de dedicar-se profundamente a ela, de tal modo que pode ser considerada boa cozinheira, o que pode ser admitido observando o título do poema – já que todo
bom cozinheiro tem certos segredos capazes de dar especificidade ao prato –, bem como considerando a nota de que, mesmo em “dia ruim”, ela não “perde totalmente a mão”, já que a carne estufada com arroz está um primor! O verbo doar também invoca o sentido de transferência de humores, no caso, de transmissão da dolorosa perda afetiva da mulher para os alimentos que ela manipula.
Dessa maneira, observamos mais uma vez, como atitude estética de Dal Farra, a humana acomodação entre sujeito e mundo. A relação não parece ser a de estranhamento, antes é uma correlação solidária que une afetivamente os espaços. A mulher faz do cotidiano um refúgio pelo qual continua, em labuta dolorosa, a vida. A queda subjetiva não rompe a integração do sujeito com seu lugar; este lhe pertence mais do que nunca, já que ele o impregna com sua dor pelo puro e espontâneo compartilhamento. Mesmo sem um pedaço de si, visto que o amor ausente é parte dela, a mulher continua inteira e possível de ser encontrada em cada detalhe da cozinha, nos seus legumes, nas verduras. Na experiência miúda da dona-de-casa, é exibido, silenciosamente, um drama humano. O cotidiano manifesta-se na atividade trivial, mas a voz poética nele deixa pulsando a experiência feminina de abandono, de perda e solidão.
O poema é tecido por deliciosa linha irônica, que, ao explorar o humor, emana leveza, contendo o derramamento sentimental. O segredo culinário, que indicia o sucesso na cozinha ao aprimorar a receita, é negado, posto que o poema desenvolve uma tragédia culinária a partir da qual se conta a tragédia humana. Na verdade, a expressão segredos culinários seria melhor compreendida, dentro do contexto poemático, se tomada de modo mais literal, ou seja, não como um conjunto idiomático, mas como sentido apanhado no significado que revela cada termo que compõe a expressão. Chegaríamos, assim, às idéias de confidência, de sentido
oculto relativo à cozinha ou ao que nela se fabrica. Contudo, a tentativa de sonegar o segredo que a cozinha guarda pressupõe a revelação do que nela se esconde, afinal, a máscara presume a face. Portanto, o sofrimento de Antonia, ao se refugiar nos alimentos, buscando neles sua ocultação, acaba por ser desvendado na maneira como aqueles aparecem como evento – como objetos cifrados por uma subjetividade que toma para si a cena externa, devolvendo-a na linguagem como fruto do tempo e de sua sensibilidade e percepção.
É com humor que o poema é finalizado. Os dois versos finais, separados do restante do poema, marcam a indagação do eu lírico sobre o choro de Antonia, quebrando a seqüência narrativo-descritiva que, até então, desenvolvia o texto. A resposta da cozinheira surpreende ao optar pela leveza e pelo humor, em detrimento da explicitação de suas angústias. A cebola, a exemplo dos outros vegetais utilizados durante todo o poema, é usada como disfarce da dor. Ao esconder o sentimento, Antonia cultiva sua altivez, resistindo ao sofrimento. Confessá-lo, talvez, seria forma de atraí-lo para mais perto, engessando sua vontade de continuar a vida. Aqui, desenha-se um sujeito feminino que contesta uma imagem de mulher calcada na fragilidade, no sentimentalismo, no cultivo do lamento, na entrega fácil às paixões. Antonia recusa-se à posição chorosa herdada historicamente, afirmando um outro espaço como seu: o da ação corajosa, fortalecendo-se com as miudezas cotidianas.
Mesmo em situação de desespero, Antonia assume a direção da vida, ao ser sujeito de um espaço. A cozinheira empresta sua figuração aos alimentos, tornando- os extensão de seu drama afetivo. A manipulação da alcachofra revela negação da forma perfeita, a flor que era, num verso de fina musicalidade alcançado pelas rimas internas – renega nela a flor que era! A desfiguração dessa verdura realiza-se por
meio da aliteração das consoantes oclusivas t e d construindo uma expressão sonora mais forte e agressiva. A atmosfera cortante, de fundo sofrimento, é também exibida pelas farpas do alimento, prontas para penetrarem agressivamente na língua de quem reclama. Observamos, pois, que o alimento oferece aos outros aquilo que ele recebe, assim como Antonia repassou para a comida o golpe que sofreu. O movimento é, portanto, circular. Temos, assim, um universo poético onde os seres e as coisas se comunicam, de tal modo que, pensando em um, desvendamos o outro, e vice-versa. Retomamos, portanto, a perspectiva mítica pela qual a cena poética é tecida.
É no mesmo contexto em que situamos o poema Receita de parmeggiana. Também nele evidenciamos uma situação existencial na descrição do pormenor e na especificação subjetiva do espaço cotidiano. O poema apresenta um evento familiar, no qual uma mulher ganha notoriedade: a tia Ester. Ela é, então, desvendada na linguagem que recompõe o grande almoço e que percebe, na tristeza do ambiente e no silêncio das coisas, uma condição feminina historicamente constituída.
Receita de parmeggiana
Aos primos Martin
As alvas toalhas de crochê abrem nos móveis da sala oásis de luz: jarros com rosas.
Ao abrigo do vento avencas vertem tristeza pelos cantos.
Todos aguardamos o almoço da tia Ester,
a mescla de refresco de uvaia e bife à parmeggiana de que ela ganha a fama familiar .
E a tia, aia dos seus,
(tal qual sua ancestral bíblica)
se solta calada das sombras da cozinha carregada de iguarias –
que se irradiam do sorriso, da sua humilde alegria.
Nenhum de nós suspeita o sustento que come! O piano de castiçais está mudo.
O generoso rosto já traz rugas.
Ninguém foi tão aplicada no trato da carne, nem a sujeitou com tanta coragem e brio
a ponto de torná-la tenra e obediente aos dentes alheios, acamando-a entre ovos e farinha de rosca,
quase rota a derreter no molho e na mozzarèlla! Só tia Ester sabia
pôr compressas na própria dor.
O poema é iniciado com uma estrofe que denota o ambiente externo. Os dois versos iniciais ressaltam a luminosidade pela assonância da vogal aberta a, e pelas imagens que indicam claridade: alvas toalhas, oásis de luz. Tudo isso indica o cuidado com a casa, onde os objetos são dispostos caprichosamente para exibir uma imagem solar. Apesar de todo o zelo, a tristeza transborda silenciosamente, já que ela irrompe pelos cantos, impregnando o espaço. Percebemos na primeira estrofe uma tensão que será observada em todo o poema: a aparência solar, feliz, é arranhada, constantemente, por dados provenientes do espaço e da linguagem que informa a cena. Nessas arranhaduras, tia Ester é apresentada com maior precisão. Sua presença torna-se visível não na imagem bem posta da grande cozinheira, mas na mudez e na humilde alegria que lhe são peculiares. O lugar feminino pode, então, ser desvendado criticamente pela linguagem que, ao sabotar a aparência arrumada da vida, reconstitui a mulher, com fina humanidade e justeza histórica.
O reconhecimento da tia Ester provém de sua habilidade culinária: todos aguardam a mescla de refresco de uvaia e bife à parmeggiana, de que ela ganha
fama familiar. O almoço é, portanto, um evento social de muita expectativa sobre os
pratos feitos pela mulher. Esta tem sua presença ofuscada pelas iguarias que carrega, ou melhor, sua visibilidade familiar depende disso. É significativo o modo
como a tia aparece na segunda estrofe do poema: ela se solta calada das sombras
da cozinha. O verbo soltar pressupõe prisão e dependência, a mudez também
denota esses sentidos, a exemplo da palavra sombra. A existência social da tia Ester depende da cozinha, ao mesmo tempo em que é este espaço que a impede de ser visível.
Na segunda estrofe, a sombra e a luz protagonizam uma importante tensão. O ambiente sombrio denota detenção, obstáculo, uma vez que para dele sair é preciso se soltar. Entretanto, a relação entre mulher e cozinha é de intensa ligação, pois a tia, ao desprender-se do lugar, demonstra sua conexão, espontânea ou não, com ele. Já a luz é vertida do sorriso humilde de Ester, irradiando a comida. A mulher, embora num espaço de visível tristeza, exibe uma imagem de aparente alegria, atualizando o paradigma do sacrifício.
Essa idéia é reforçada quando observamos a referência à Ester bíblica, que tudo fez para proteger e salvar, junto ao Rei Assuero, o povo judeu das perseguições de Amã. Contrapondo-se a Vasti, rainha destronada por se recusar a cumprir a uma ordem do rei, Ester é símbolo de resignação e humildade, qualidades que agradaram à majestade. Sua submissão voluntária rendeu, contudo, certo domínio sobre o rei, na medida em que este atendeu prontamente ao seu pedido, revogando o decreto redigido por Amã que institucionalizava o aniquilamento dos judeus. Portanto, a felicidade do povo de Israel deveu-se à sujeição de Ester, que interveio, com sua doçura e submissão, no destino nefasto que Amã, então, preparava.
Da mesma forma, a satisfação da família, provocada pelo tempero da tia Ester, tem dívidas com a submissão silenciosa dessa mulher ao lugar que ela ocupa. A expressão aia dos seus confirma a imagem materna de tia que cuida e que
procura ajudar na felicidade alheia. O próprio brilho da comida é doado pelo sorriso da tia, assim como a obediência do bife à parmeggiana aos dentes alheios é fruto da aplicação corajosa dessa mulher. É significativo o fato de o eu lírico descrever o trabalho culinário como um ato de intensa dedicação e esforço. A impressão que nos fica é a de que a perspectiva do poema deseja dignificar a atuação da tia Ester, na medida em que, ao domar a comida, ela demonstra certa força, autoridade e vigor existencial.
Na terceira estrofe, o primeiro verso alerta para algo que a comida guarda: a sustância, da qual fala o poema homônimo, cuja energia brota do empenho visceral e do mais fundo sentimento da mulher. A dedicação absoluta ao fazer culinário cativa a comida de modo a torná-la dócil ao paladar. Aqui, observamos, a exemplo do poema Sustância e Segredos culinários, a relação visceral entre mulher e alimento. Este se entrega à boca alheia da mesma forma que a tia a ele se entregou tenazmente. A comida guarda e explicita a todos essa entrega, embora ninguém da família a suspeite ou a compreenda.
Os dois versos finais, separados do restante do poema, finalizam o texto com uma formulação meditativa. O eu lírico percebe nas ações de tia Ester um paliativo à sua dor. A compressa sintetiza imageticamente o cuidado dessa mulher com a casa e com a cozinha, funcionando como modo de lidar com o sofrimento. O trabalho dispensado, com dedicação, ao espaço familiar configura-se caminho para se conviver melhor com a crise. A idéia não parece ser a de superação, já que a compressa não cura, mas apenas alivia a condição difícil. Tia Ester ocupa um lugar e realiza as ações que dela se espera da melhor forma possível. É do esforço de viver esse espaço com perfeição que essa mulher arranca sua visibilidade, sendo reconhecida.
O episódio exibido no poema põe em pauta a condição feminina. A seqüência reflexiva, que conclui o texto, retoma e acentua a ambigüidade decorrente da casa como símbolo de dependência, mas também de inscrição identitária. Se, por um lado, o espaço familiar nega a floração plena da mulher, sentido esse evidenciado nas passagens que indicam silenciamento (se solta calada das sombras
da cozinha/ O piano de castiçais está mudo), resignação (humilde alegria) e
envelhecimento (O generoso rosto já traz rugas); por outro, é nesse mesmo espaço que a tia Ester constrói uma atuação altiva, sintetizada no domínio pleno da comida, sujeitando-a.
O espaço familiar, que numa leitura mais generalizante, pode ser associado apenas à dominação do feminino, é, na perspectiva que integra o poema, também o lugar possível de reparação da dor: ambiente no qual o feminino pode afirmar-se, mesmo que palidamente, como uma compressa, imagem que lembra o próprio bife à
parmeggiana, através de suas fatias de mussarela sobre a carne. Essa figuração, de
um lado, evidencia que o estado existencial precário está longe de ser definitivamente resolvido, relegando à mulher a impossibilidade de solucionar seu conflito; de outro, indica, no esforço cotidiano, uma atitude que remedia, ainda que debilmente, esse estado. A casa, com suas exigências domésticas, é, portanto, abrigo de avencas tristes, mas, com o trabalho devotado da mulher, também exibe alvas toalhas, mesmo que essa iluminação seja apenas um oásis, ou seja, um pequeno coágulo de luz em meio a um espaço cingido por sombras.
Dessa maneira, a idéia que parece brilhar mais fortemente é a de resistência e a de altivez. A força feminina consagrada nas ações de bondade, de renúncia, e de trabalho árduo da tia Ester constitui o fôlego espiritual do poema, este que parece lutar para não se render à lógica que simplifica e rotula como passividade todas as
ações que, por não romperem radicalmente com o espaço opressor, não são consideradas transgressoras. Negar a relação com o doméstico, recusando qualquer atuação nesse espaço, não parece ser o melhor caminho para a afirmação do feminino. O espaço público conquistado a duras penas pela mulher, embora seja fundamental para a plenitude feminina, pois ele lhe assegura o trânsito em vários lugares, pode ser também, se absolutizado, esfera de tolhimento existencial. Dizer que a mulher só exerce sua liberdade rompendo definitivamente com a casa em favor da vivência no espaço público é embarcar na visão, não menos problemática, de que só merece consideração os lugares até então reservados ao masculino, sonegando e extinguindo a importância dos espaços que, bem ou mal, marcaram a experiência partilhada feminina.
Nessa direção, a imagem do cotidiano feminino tecida no texto é ambígua. Ao mesmo tempo em que ela é arranhada por traços que denotam tristeza, mudez, cansaço, prisão, escuridão, enfim, dependência, também denota um espaço de certo conforto, ou melhor, de profunda integração com o sujeito feminino. A dor vertida pelo espaço condiz à dor da tia Ester, numa relação solidária. Ela compartilha com a casa o insuspeito sofrimento, este visível apenas quando se ordena reflexivamente esse espaço. Isto porque a própria noção advinda pela imagem da compressa sugere a suavização da dor: as linhas que a delineiam são abrandadas, e, portanto, só a indagação meditativa pode resgatá-las. O poema, pois, como organização singular e reflexiva da experiência, nos possibilita a sintonia com o olhar de aguda percepção, capaz de compreender criticamente o cotidiano feminino e os conflitos que ele guarda e revela.