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2.5 Acknowledgements

Tratamos nessa seção da análise das homogeneidades encontradas nos discursos sobre cinema da SEEL/PCR e SESC. Buscamos, como apresentado em nosso referencial metodológico, uma aproximação com o desenho da metodologia de Foucault (2008) e Carvalho (2004). Analisar as homogeneidades não se trata de buscar semelhanças necessariamente ou aspectos iguais nos enunciados. Também não os analisamos no que divergem, não buscamos contradições ou qual a causa de discursos parecerem “iguais”. Ressaltamos que nenhum discurso é igual, mesmo que estes estejam escritos ipsis literis. Há uma regularidade, mas há, também, esses campos, essas regularidades que diferem entre si:

Podemos encontrar performances verbais que são idênticas do ponto de vista da gramática vocabulário, sintaxe e, de uma maneira geral, a língua; que são igualmente idênticas do ponto de vista da lógica (estrutura proposicional, ou sistema dedutivo no qual se encontra situada); mas que são enunciativamente diferentes (FOUCAULT, 2008, p. 164).

Assim, as homogeneidades tanto podem guardar formulações equivalentes do ponto de vista linguístico e também diferenças desenhando-se dessa maneira “certo número de desligamentos e articulações” (ibidem, p. 165), devendo existir entre tais homogeneidades relações e interdependências.

Em nossa análise, o quadro nos serve para compreendermos que as homogeneidades que ressaltamos também abrigam suas particularidades. Não buscando igualdades, percebemos que o que acontece com as regularidades é que estas dão suporte aos discursos. Em nosso caso, os discursos do cinema na Educação. Na pesquisa, os enunciados reitores nos permitiram observar os objetos que emergem.

Temos em nossa composição das homogeneidades os enunciados maiores, reitores, os enunciados que deles derivam e a hierarquização dos enunciados. Inicialmente, abordamos o enunciado reitor “Pedagogia crítica”. Este se pauta nas questões da ideologia, do poder, das classes sociais, do capitalismo, da resistência da reprodução cultural. Surgem contrapondo-se às teorias tradicionais que têm por princípio o foco no planejamento, na eficiência, na didática, na metodologia, no ensino, entre outros.

Há uma gramática que também recorre no campo das homogeneidades: ideologia, criticidade, relações sociais e conscientização. Partindo dessa gramática, analisamos que outros termos derivam – os enunciados derivados. Sendo assim, elucidamos a Educação para cidadania; o desenvolvimento de competências; o pensamento crítico; o currículo

interdisciplinar; a educação para uma nova sociedade; o sujeito crítico, questionador e o processo ensino-aprendizagem com foco no sujeito, com enunciados que derivam do enunciado Pedagogia crítica. Percebemos uma articulação entre esse elemento e o que abriga a Pedagogia crítica. Ao contrário da pedagogia tradicional que se preocupa em moldar objetivos que atendam a uma educação de massa, limitando-se ao ensino de habilidades como ler, escrever e contar, sem levar em conta, muitas vezes, as questões subjetivas ou uma formação mais ampla onde o sujeito seja levado a pensar sobre os próprios processos de aprendizagem; a pedagogia crítica visa colocar em questão os próprios pressupostos da educação, uma vez que se relaciona com teorias críticas e estas “são teorias de desconfiança, questionamento e transformação radical” (SILVA, 2007, p. 30).

A análise sobre ideologia, enquanto elemento do enunciado reitor Pedagogia crítica, remete a um desenvolvimento de um pensamento crítico. No entanto, crítico não significa, necessariamente, um pensamento liberto, criativo. A criticidade em nossa análise ancora-se nas reflexões sobre a sociedade, sobre os sujeitos, as relações destes nessa sociedade. É nesse enunciado reitor que encontramos convergências entre os enunciados derivados e o enunciado reitor: o discurso da Educação para cidadania reporta-se a uma formação de sujeitos críticos que, sendo assim, possam desenvolver competências e aprendizados mais significativos.

Outro termo dos enunciados derivados é o currículo interdisciplinar; este, por sua vez, aparece como um potencializador de saberes, articulando conteúdos com o intuito de respaldar as aprendizagens significativas, ligando conhecimentos científicos e do senso comum. Tal currículo coloca em questão a sociedade, o contexto e as condições nas quais é forjado. É pensado para formar um sujeito atuante e autônomo dentro dessa sociedade, que possa elaborar questionamentos sobre sua condição e sobre suas próprias aprendizagens.

O discurso sobre cinema na Educação é construído por esses enunciados. Ele é usado, tanto pela SEEL/PCR, como pelo SESC, com a finalidade de desenvolver senso crítico, criar sujeitos atuantes numa sociedade que se modifica constantemente e é cada vez mais diversa. É nesse chão que o discurso do cinema no currículo articula-se com outros saberes e conteúdos desejando um sujeito que seja capaz de realizar pontes entre os saberes construídos, bem como fazer diversas leituras em uma sociedade multicultural.

Quanto às hierarquias, esclarecemos que, assim como as homogeneidades na função enunciativa não significa encontrar igualdades, não buscamos por uma ação imediata de encontrar hierarquias. Analisamos que se estabelece uma relação de interdependência e não de

dominação de um enunciado sobre o outro. Essa interdependência está presente nos enunciados, posto que não haja discurso do currículo, do campo da educação que não se relacione com outros tantos, seja do mesmo campo ou de campos, aparentemente, distantes.

Investigamos que além das regularidades todo enunciado é ativo e opera à sombra de outro. Ou seja, cada enunciado ao mesmo tempo em que cria condições, que dá suporte para o aparecimento de novos enunciados para fazer surgir os discursos, também abriga enunciados que aparecem anteriormente a outros, dando “passagem” para outros tantos. Sendo assim, a aquisição de conteúdos não é superior à criação de aprendizagens autônomas, como mostramos no quadro V. Percebemos que o elemento “aquisição de conteúdo” dá suporte ao aparecimento de “Aprendizagens autônomas” ressaltando, mais uma vez, que não existe nessa relação uma forma, um enunciado mais forte e tão pouco que o primeiro seja originário para o segundo e outros tantos seguintes.

É relevante, para nós, observarmos como essas relações hierárquicas vão se dando: o “desenvolvimento do senso crítico” abre caminho para falarmos em “criação de problemas” ou a problematização das situações de aprendizagens. Assim como o “desenvolvimento de competência” que se articula com a discussão da interdisciplinaridade. Não analisamos as origens, quem veio primeiro ou o que mais importa, mas, sim, como já dito, que elementos, que enunciados desse discurso dão aparato para o surgimento de outros que são pronunciados simultânea ou posteriormente.

A “parceria” x “produção criação interna”, embora remeta a uma ideia de sobreposição ou oposto, evidencia-nos algo bastante específico dessa interseção dos discursos da SEEL/PCR e do SESC sobre o cinema no currículo. Uma vez que em ambas as instituições a autonomia de fazer, de criar seus processos de ensino, a organização do currículo em ação não difere muito de dar/receber essas propostas para apenas executá-las. O que desejamos destacar, no entanto, é que tanto um termo quanto o outro, nos discursos da SEEL/PCR e SESC, não estão dissociados. Ao contrário, são amplamente possíveis de coabitarem.

No enunciado reitor “Desenvolvimento cultural”, encontramos um diálogo com outros enunciados: a cultura erudita, a cultura como conteúdo e manifestação social e o multiculturalismo. A cultura aparece como enunciado reitor por diversos aspectos, dentre eles a cultura como uma discussão central da sociedade moderna tardia. Dialogando com Hall (1997), compreendemos que os meios de produção, circulação e troca cultural, têm sido alargados por meio das tecnologias e da corrida pela informação.

Estamos, em dias atuais, imersos em campos sem fronteiras quando discutimos cultura. O mundo globalizado toma às vezes da fixidez posta pela modernidade. O próprio conceito de cultura se dissolve por ter como chão a multiplicidade de sentidos e rebatimento desta, seja nas práticas cotidianas, seja na construção epistemológica. A indústria cultural, por exemplo, é uma das grandes mediadoras de processos culturais, e esta, a indústria cultural, parece mobilizar cada vez mais processos de construção identitária.

Seguidos da reflexão de que o conceito de cultura há muito deixou de ser “manifestação de um povo”, apenas, e que independe e alcança espaços/tempos antes inimagináveis, analisamos os enunciados derivados que compõem o próprio enunciado reitor já citado. Um termo da gramática que está presente nos enunciados derivados é o da identidade nacional que se une à ideia de como ser brasileiro. Sob a proposta de difundir o cinema e a cultura brasileira, o SESC traz em seu repertório vários textos fílmicos, longas e curtas metragens, que retratam um jeito de ser brasileiro: o futebol, o nordeste, os imigrantes, as influências da cultura estrangeira, entre outras temáticas.

Antes disso, dessa análise, refletimos sobre: o que é hoje cultura erudita? Ainda prevalece, a cultura erudita, enquanto ideia/conceito de cultura que adentra as salas de aulas e as práticas docentes e pedagógicas? O que privilegiar no currículo? Ainda há a ideia de cultura enquanto herança ou enquanto produção atual, viva e constante dos povos?

Com a observação das homogeneidades enunciativas, pudemos perceber que esses enunciados influenciam a produção de sentidos no campo do currículo, posto que além da força desses, não podemos esquecer a capacidade de circulação que tais enunciados possuem na Educação. Concluímos que não há um discurso originário e que, mesmo escancionando as homogeneidades enunciativas, não encontramos um discurso comum, um discurso igual, feito de enunciados iguais e agrupados, mas, sim, diversos enunciados que se ligam e se distanciam, que tomam o lugar de outros enunciados anteriores e dão lugar a outros novos criando uma regra, uma regularidade que nos permitiu assim, compreender como esses discursos que analisamos sobre o cinema vão sendo constituídos.

6.2 Oposições intrínsecas: revelador da organização interna do discurso, sem jogo de