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A leitura no Manual C – De Nicola – é vista como atividade cognitiva, aquela que se efetiva mediante tarefas de imitação do comportamento do leitor proficiente, imitação essa que depois pode ser abandonada, uma vez que o leitor aprendiz já terá se tornado leitor experiente. Podemos constatar essa característica pelas citações de alguns teóricos usadas no MP (p. 11) para determinar as concepções de leitura da coleção:

(...) ao lermos um texto, qualquer texto, colocamos em ação todo o nosso sistema de valores, crenças e atitudes que refletem um grupo social em que se deu nossa sociabilização primária, isto é, o grupo social em que fomos criados.

Uma concepção clara do processo cognitivo, entretanto, permite reproduzir em sala de aula, mediante tarefas que imitam o comportamento de leitor proficiente, aquelas estratégias que caracterizam o comportamento reflexivo, de nível consciente de leitor. Tal imitação, acreditamos, é um passo anterior, necessário ao desenvolvimento dessas estratégias no aluno. Tal imitação, ainda, constitui, se bem elaborada, um suporte temporário, a ser retirado mais tarde, para recriar o comportamento de leitor experiente. Ao recriá-lo, o professor mostra para o aluno que o texto não precisa ser necessariamente impenetrável, muito embora sua experiência inicial com o texto escrito tenha criado essa expectativa.

KLEIMAN, Angela. Oficina de leitura: teoria e prática. 7. ed. Campinas: Pontes, 2000.

Sendo um tipo específico de comunicação, a leitura é uma forma de encontro entre o homem e a realidade sociocultural; o livro (ou qualquer outro tipo de material escrito) é sempre uma emersão do homem do processo histórico, é sempre uma encarnação de uma intencionalidade e, por isso mesmo, “sempre reflete o humano”.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. O ato de ler:fundamentos Psicológicos para uma nova psicologia da leitura.

7. ed. São Paulo: Cortez, 1996. (...) leitura é aqui entendida como o caminho seguido pelo leitor em seu projeto de descoberta e atribuição de significados a documentos impressos, dentro da sua cotidianeidade ou facticidade.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. O ato de ler:fundamentos Psicológicos para uma nova psicologia da leitura.

7. ed. São Paulo: Cortez, 1996.

Percebemos que as citações de Kleiman e Silva, elencadas no Manual C, apontam para uma perspectiva da leitura enquanto processo mental baseado no desenvolvimento de estratégias cognitivas e metacognitivas para o seu ensino/aprendizagem (como observado no item 1.2.2).

A leitura é, então, uma forma específica de comunicação, um encontro entre o homem e a realidade sociocultural, o caminho percorrido pelo leitor em seu projeto de atribuição de sentidos aos textos lidos. Ou seja, o MP percebe “os atos de leitura e produção como processos mentais e cognitivos com fins interativos”. (p. 9)

A leitura e a produção são, assim, vistas como práticas interligadas: o texto é produzido para leitura e a leitura é a base fundamental para a produção de textos. Portanto, o Manual C fundamenta o estudo da língua portuguesa na leitura e produção de textos e diz realizá-lo através do trabalho com os gêneros e tipos textuais. Em relação à compreensão textual, o MP diz colocar as estruturas gramaticais como peças-chave, pois entender e saber lidar com essas estruturas seria o ponto de partida para a leitura e a produção de textos. Podemos constatar que essas determinações apontam para o trabalho com a leitura como base para a apreensão de outros conteúdos dos diferentes eixos do ensino da língua, característica também encontrada nos outros dois manuais analisados.

O Manual C diz, ainda, que o objetivo da obra é formar leitores atentos e competentes produtores de textos. Revela que entende por leitor atento “aquele aluno capaz de estabelecer diálogos entre textos, perceber as diferentes relações sintáticas e semânticas (de causa e efeito, de oposição, de concessão, de condição etc.) e a natureza do texto (irônico, metafórico, satírico, filosófico etc.)”. (p.3)

Considera que a melhor maneira de alcançar o objetivo pretendido é possibilitar a “leitura de mundo” que, segundo o MP, seria realizada ajudando o aluno a pensar o mundo centrado em dois eixos: a ideia e a expressão. A ideia pelo posicionar-se diante do mundo e assumir sua capacidade de transformá-lo; a expressão pela percepção de que a gramática sustenta o texto, organiza-o, e se utiliza de diferentes recursos expressivos.

Percebe-se, então, que o foco do estudo dessa obra, mediante a perspectiva colocada no MP, é o texto tanto no aspecto da recepção quanto da produção, sustentado no desenvolvimento da capacidade de pensar (ideia) e de verbalizar (expressão). Infere-se uma perspectiva de trabalho que parece integrar leitura, produção e gramática. Porém, essa forma de integração indica uma concepção de língua como expressão do pensamento e de texto como produto desse pensamento, sendo, portanto, claro e de sentido único.

Consideramos que, embora o Manual C expresse pretender uma formação integral de leitores e produtores de textos atentos e competentes, se contradiz em alguns aspectos. Por exemplo, ainda traz arraigada uma concepção cognitiva do processo de leitura, fato que, isoladamente, a nosso ver, não concorre para uma formação integral do leitor.

Podemos então dizer que o foco da coleção, segundo o MP, recai no leitor e no desenvolvimento de suas capacidades cognitivas, ou seja, pretende formar um leitor experiente que tenha capacidade de refletir sobre o seu processo de compreensão, monitorando sua produção de sentido pelo seu próprio nível de leitor consciente. Isso ocorre quando o leitor analisa os aspectos gramaticais dos textos, quer quando se utiliza da leitura como subsídio para a produção textual, quer quando atribui sentido aos textos que lê.