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Em Portugal, a prática de alpinismo remonta aos finais do século XIX inícios do século XX, e está associada a Gomes Teixeira, Emídio Navarro,

Sousa Martins, entre outros pioneiros. Para a implementação e

desenvolvimento da actividade, a expedição científica à Serra da Estrela (1993 m), de 1881, foi marcante. É a maior elevação de Portugal Continental e a segunda maior da República Portuguesa (apenas o Pico, nos Açores, a supera).

Ao consultar os documentos da Federação de Campismo e

Montanhismo de Portugal2 podemos dividir o desenvolvimento do Alpinismo no

nosso país em duas fases. A primeira, Época Clássica (1920-1970), caracteriza-se pelo surgimento do montanhismo organizado. Jorge Santos que, em 1920, escalou o Alto da Pena (Vila Nova de Cerveira), pelo papel destacado que desempenhou no desenvolvimento do montanhismo durante várias décadas, pode ser considerado o pai da “modalidade” em Portugal.

A primeira associação que se dedicou à prática de montanhismo terá sido o grupo portuense “Os Serranos” em 1920/22, seguindo-se o Grupo

Excursionista de Ar Livre em 1932 e o Tribu Alpino Campista em 1937. A

vertente da escalada no seio do montanhismo começou a ganhar força no TAC sob a direcção de Jorge Santos. Nos anos 30 já se escalava em Anamão (Castro Laboreiro), Fragas da Ermida (Serra do Marão), Pé do Cabril (Gerês), Fragas do Diabo (Valongo). Jorge Santos pertenceu, também, ao grupo que fundou o Clube Nacional de Montanhismo (CNM), em 1943, juntamente com Pereira da Costa, José Cardoso, Amândio Silva, Vicente Russo, entre outros.

Em 1947, dois técnicos do Clube Alpino Francês vieram ministrar um curso a membros do CNM de onde saíram os primeiros “monitores” portugueses, que constituíram o primeiro núcleo de formadores. Mas o CNM, também designado Clube Alpino Português foi, sem dúvida, durante mais de

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meio século, o representante e principal impulsionador da modalidade no nosso país. Dirigiu e representou o montanhismo até Agosto de 1991, data em que a Direcção-Geral dos Desportos passou essas competências para a, então,

Federação Portuguesa de Campismo e Caravanismo (FPCC).

Entre 1970-2005, surge a Época Moderna: a consolidação e a diversificação. A Mocidade Portuguesa desenvolveu, a partir de 1970, actividades na área do montanhismo, nomeadamente acções de formação de escalada, através das Brigadas Especiais de Campo (BECs). Algumas das pessoas ligadas a essa polémica entidade tiveram a sorte de participar no curso de monitores dado por um dos melhores guias de alta montanha de então, Alphonse Darbelay.

Nos anos 70, o CNM norte revitalizou-se. O Parque de Campismo de Árvore, aberto em 1972, permitiu um aumento do número de sócios acompanhado da desejada consolidação financeira. O CNM sul, sediado em Lisboa, também começou a desenvolver actividades com alguma frequência e qualidade. Mas também havia praticantes que realizavam actividades à margem dos clubes.

Os anos 70 presenciaram as primeiras escaladas e ascensões tecnicamente difíceis levadas a cabo por portugueses nos Alpes.

A década de 80 solidificou essa tendência e caracteriza-se paralelamente pelo aumento significativo do número de praticantes e de clubes:

Clube de Montanhismo da Guarda (CMG), Grupo de Montanhismo de Vila Real, Grupo de Montanhismo de Faro, Clube de Montanhismo de Setúbal,

entre outros.

Na década de 90 e primeiros anos do século XXI, assiste-se à generalização das ascensões em altas altitudes. A primeira ascensão de um português acima dos sete mil metros – Pico Korjenyevska, (7105 m) foi levada a cabo, em 1990, por Gonçalo Velez. Este alpinista seria também o primeiro português a coroar um oito mil em 1991: o Annapurna (8091 m). O alpinista Pedro Pacheco tenta o Monte Evereste em 1992 e 1994. João Garcia também empreende duas tentativas no “Tecto do Mundo” em 1997 e 1998. Viria a tornar-se o mais famoso alpinista português ao atingir o cume do Evereste em 1999. No entanto, João Garcia já tinha atingido cumes acima dos oito mil

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metros anteriormente: o Cho Oyo (8201 m) em 1993 e o Dhaulagiri (8167 m) em 1994. João Garcia voltou às grandes altitudes para conquistar o Gasherbrum II (8053 m) em 1999 e concretizou o velho sonho de ascender o MacKinley (6194 m) em 2002. A primeira expedição portuguesa a um “sete mil” dos Himalaias, liderada por João Garcia, colocou, em Maio de 2003, quatro portugueses no cume do Pumori (7120 m). Gonçalo Velez ascendeu o Cho Oyo (8201 m) em 1997, tentou o Shisha Pangma (8012 m) em 1999, bem como o Lhotse (8516 m) em 2000, e atingiu o cume do Kankchenjunga (8586 m) em 2001.

Importa referir a abertura da via Quinto Império na face oeste do Naranjo de Bulnes (Picos da Europa), em 1996, por Sérgio Martins e Francisco Ataíde, e a escalada do esporão Walker (Maciço do Monte Branco), em 2001, por Paulo Roxo e Nuno Soares.

Portugal pertence à União Internacional das Associações de Alpinismo desde 1932 e actualmente conta com dois representantes: a FPCC e o CNM.

Na sequência do exposto importa, agora, debruçarmo-nos sobre o que caracteriza o Alpinismo, na medida em que a posterior elucidação nos ajudará a compreender o que poderá determinar a sua prática.

22 1.2 Caracterização do Alpinismo

O Alpinismo insere-se num contexto de lazer, em que se nota uma cada vez maior aproximação das pessoas aos ambientes naturais na fuga do ambiente urbano, e que se tem repercutido num incremento de actividades de ar livre, que se regem mais pelo “relógio natural” do que pelo mecânico (Garcia, 1996). Paralelamente, desde meados do século XX que temos vindo a assistir a uma cada vez maior valorização do tempo livre, bem como, uma perda de centralidade do trabalho em favor do lazer libertador e instância de realização pessoal (Gama, 1991).

As actividades físicas em meio natural têm evoluído desde concepções tradicionais e minoritárias a formas mais inovadoras ao alcance de uma ampla massa social. Assiste-se a uma procura por parte dos participantes de emoções na natureza em contraposição a uma perspectiva de vida urbana onde a percepção do risco é quase inexistente (Fuster i Matute & Agurruza, 1995). O Alpinismo enquadra-se neste cenário ‘natural’.

A montanha, onde se desenrola esta actividade, faz parte dos lugares altos que são topograficamente diversos: variam na elevação, inclinação, há grandes variações da temperatura, radiação, ventos e até mesmo de tipo de solos. Estas distinções físicas criam diferentes zonas ecológicas e a ampla variedade de nichos ecológicos fazem destes sítios o local ideal para uma grande variedade de plantas e animais. Esta é uma das razões pela qual se torna tão única, uma verdadeira paisagem mundial (Smethurst, 2000).

Reportando-nos, agora, à caracterização da actividade propriamente dita podemos referir que, apesar do facto de não haver uma estrutura competitiva institucionalizada – não há um corpo governamental formal para instituir e executar regras de competição, não há regras escritas – o alpinismo tende a funcionar de uma maneira muito idêntica a outros desportos. Tal como sugere (Donnelly, 1994) pode-se dizer que existem dois tipos específicos de competição, directa e indirecta. A primeira é a competição para as primeiras ascensões das montanhas ou de itinerários específicos nas montanhas, penhascos e quedas-d'água congeladas. As competições indirectas, referem-

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se à competição do estilo ou qualidade de uma ascensão, na qual se pode referir a velocidade da mesma, mas é usualmente considerado em termos de como se aproxima a adaptação da ascensão à estrutura informal de regras do

alpinismo. Aliás, há um prémio anual, o Piolet D’or3, que procura distinguir os

alpinistas de vários modos. É atribuído pela revista francesa Montagnes e pelo

The Groupe de Haute Montagne desde 1991. A selecção dos potenciais

candidatos, bem como as condições de atribuição do troféu, cumprem uma rigorosa ética que está em consonância com os valores fundadores da GHM, em que o alto nível técnico e empenho certamente constituem os princípios norteadores. A originalidade na escolha do objectivo e do carácter inovador do modo de realização da subida também são importantes elementos de apreciação, bem como a beleza do movimento e o espírito com que as pessoas escalam as montanhas.

O sistema de regras e convenções que governam ambas as formas de competição, directa e indirecta, é conhecido como ética de alpinistas e é socialmente construído e penalizado. A ética é criada e muda por consenso entre os alpinistas (o consenso vem sendo realizado na interacção face-a-face e através dos media que se ocupam desta temática), transmitida pelos mesmos meios de comunicação e executada pela auto-disciplina e pressão social (Donnelly, 1994).

Reportando-nos, agora, à forma de alpinismo, podemos considerar três formas básicas. A primeira é a Escalada em Rocha, muito popular entre alpinistas amadores. Esta forma envolve encostas rochosas e avalanches. A segunda denomina-se Alpinismo de Neve e Gelo, mais adequada a alpinistas experientes. É extremamente perigosa porque envolve rotas com glaciares, ou seja, torna-se importantíssimo o conhecimento acerca das condições na neve e gelo. Por último, o Alpinismo misto que combina as duas primeiras formas de Alpinismo, tornando-a mais difícil (Gonzales, 2006). Quanto ao estilo, podemos referir o Alpino – sem acampamentos de altitude e o Estilo clássico Himalaiano – ascensão progressiva, com campos de altitude (Garcia, 2007).

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Para a classificação da actividade em questão podemos, então, ter como base a altitude da montanha a escalar, o tipo de terreno em que se realiza a escalada (rocha, gelo, neve ou misto) ou a dificuldade técnica atribuída às vias de ascensão. O alpinismo de muito elevada e de extrema altitude (ascensões mais mediáticas) pressupõe que a ascensão se realize em ambientes de alta montanha caracterizados pelos seus terrenos mistos (rocha e neve e/ou gelo) utilizando instrumentos específicos (Pereira, 2005).

Dado o ambiente natural e o cenário em que decorrem, as actividades de ar livre como o alpinismo podem ser condicionadas por vários factores. As características deste meio, como a altitude, grau de coesão, presença de obstáculos, podem apresentar-se como uma limitação, ou mesmo risco, quando associadas a variáveis qualitativas e quantitativas (Fuster i Matute & Agurruza, 1995). Esses riscos podem ser ou não previstos, mas impossíveis de eliminar, uma vez que são parte integrante deste contexto natural (Pereira, 2005).

Também, o clima apresenta para o Homem um factor do qual não pode prescindir, e as suas alterações marcam a sua acção, inevitavelmente, a do alpinista. Por essa razão e porque esta actividade acaba por depender do tempo atmosférico, do clima, importa referir os seus elementos que, de certa forma, condicionam a actividade.

Relativamente ao nevoeiro poder-se-á dizer que é um obstáculo em termos visuais, com efeito, são vários os alpinistas que nos seus livros se reportam ao clima, demonstrando que lhe conferem uma considerável importância. Exemplo disso é a referência ao nevoeiro feita por Pritchard (1998) e que, naturalmente, tem consequências na visibilidade, já que a sua falta aumenta os níveis de risco. Também Mark Twight (2002) menciona o factor vento que, quando muito forte, pode provocar muitos estragos nas expedições, assim como tornar o ambiente ainda mais frio. Adicionalmente, há a incontornável neve e o gelo que, se por um lado, conferem, sem dúvida, uma extraordinária beleza à montanha, por outro, é necessário que se encontrem num estado que permita a deslocação, conforme destaca João Garcia (2002).

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As distâncias também se alteram com o clima não só em termos físicos e reais, mas também no esforço necessário para as ultrapassar (Pereira, 2004).

É, ainda, de salientar, o facto de a estas altitudes, como no caso extremo do Evereste, os alpinistas estarem muito perto dos limites fisiológicos

de sobrevivência, mesmo que devidamente aclimatados4, devido às extremas

condições de rarefacção de oxigénio e às reduzidas temperaturas (Pereira,

2005). Esta rarefacção pode provocar esgotamentos, edemas cerebrais5 que

se caracterizam pela perda de consciência e alucinações que, como refere João Garcia (2007), ao respirar-se mais, há um maior cansaço e, consequentemente, produz-se mais CO2, o que envenena o cérebro, criando tonturas e delírios. Alturas superiores a 8.000 metros são bem acima da normal habitação humana e são, por isso, inóspitas para a maioria das espécies. Assim, alturas superiores a 8.000 metros são, muitas vezes, referidas como a "Zona da Morte”. O principal factor limitador é a pressão barométrica, que declina exponencialmente com a altitude. Para alguém vindo de uma cidade costeira, os efeitos fisiológicos da altitude são imediatamente evidentes (Huey & Eguskitza, 2001)

No Monte Evereste, um alpinista tem que tolerar pressões barométricas extremamente baixas. Por exemplo, no topo da montanha (8.850 m), a pressão é um terço da ao nível do mar. A hipóxia resultante, não só limita grandemente os alpinistas na capacidade de se moverem como, também, induz graves problemas fisiológicos, médicos, sensoriais e neurocomportamentais (idem).

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Durante os períodos em que os alpinistas tentam escalar os picos mais altos do mundo, sabe-se que são necessárias semanas para que os habitantes do nível do mar se adaptassem a altitudes sucessivamente mais elevadas. Uma pessoa que permaneça em altitudes elevadas por dias ou meses, torna-se mais aclimatada à baixa PO2, permitindo-lhe

trabalhar em altitudes ainda mais elevadas sem que sofra os efeitos hipóxicos causados pela altitude. Após alcançar elevações de 2.300m e até maiores, ocorrem ajustes fisiológicos rápidos destinados a compensar o ar mais rarefeito e a concomitante redução na PO2 (Amaral, 2000).

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Trata-se do aumento da pressão intra-craniana podendo evoluir para o coma e, finalmente a morte. Os sintomas desta enfermidade mortal incluem: perda da coordenação (ataxia) envolvendo os músculos do tronco, alterações da visão, podendo surgir pequenas hemorragias oculares, paralisia num dos lados do corpo, reflexos precários, dor de cabeça insuportável (que não melhora com aspirina), falta de energia, dificuldade em permanecer de pé, vertigens, fadiga extrema e vómitos. De forma benigna, o excesso de líquidos no organismo pode antes manifestar-se também por inchaços, principalmente no rosto, além de transtornos de comportamento (idem).

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As baixas temperaturas e os ventos fortes agravam os stresses fisiológicos da extrema altitude. No que respeita às temperaturas medidas no Colo Sul do Monte Evereste (aproximadamente 960 m abaixo do cume) durante a Primavera de 1999 foram de 11,6°C negativ os, caindo, normalmente, para -20°C durante a noite. Embora não seja especialm ente pelo frio, a combinação de baixas temperaturas, ventos fortes hipóxia e desidratação podem, facilmente, induzir hipotermia e geladuras, o que aconteceu com João Garcia nesse mesmo ano. Na verdade, com uma temperatura do ar de apenas -10°C e uma velocidade do vento de apenas 50 km/h (um a mera "brisa" nos Himalaias), a temperatura cairia para -25°C, muito pe rto do limite passível de congelar carne humana exposta (-35 ° C). Durante o inv erno, as temperaturas no Colo Sul tornam-se extremas, -28°C, por isso mesmo, a penas 5% de todos os alpinistas têm tentado ascensões ao Evereste durante o inverno. Surpreendentemente, um alpinista (Ang Rita, a 22 de Dezembro de 1987) alcançou com sucesso o seu cume no Inverno sem utilizar oxigénio artificial (Huey & Eguskitza, 2001).

Um alpinista em stresse fisiológico provocado pela hipóxia, frio, vento e desidratação (que aumentam com a altitude) vê aumentar substancialmente o risco de exaustão, um grave problema médico, uma queda ou um erro mental. Por conseguinte, a probabilidade de sucesso de chegar ao cume será inversamente proporcional à altitude, e a probabilidade de morrer ou sofrer um grave acidente aumenta com a mesma. Mas não é a penas a altitude que pode influenciar o sucesso/insucesso de uma investida. Por exemplo, cada montanha tem a sua dificuldade, e mesmo diferentes rotas encerram diferentes obstáculos. No entanto, não há dúvidas de que a taxa de mortalidade aumenta com a altitude (Burtscher, 1995). Em oposição, a taxa de sucesso pode ser baixa até mesmo num pico de baixa altitude, como em Foraker (situado na cordilheira central do Alasca, Estados Unidos da América), reflectindo a dificuldade inerente desta montanha, independentemente da sua menor altitude.

Durante a descida, a taxa de mortalidade também aumenta proporcionalmente à altitude da montanha, e foi precisamente nessa etapa da conquista que Pascal pereceu. Obviamente que os alpinistas estão dispostos a

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pagar um preço elevado para tentar grandes picos (apesar da baixa taxa de sucesso e do alto risco inerente a uma conquista a de um “8 mil”. Apesar do referido, deve-se ponderar tais argumentos pelo facto de haver diferentes recursos de resgate e oportunidades climatéricas para tal nas diferentes montanhas, como por exemplo, os helicópteros de salvamento, o que poderia reduzir as taxas de mortalidade. Além disso, a experiência e habilidade dos alpinistas que tentam esses picos estão, sem dúvida, longe de serem homogéneas. Os alpinistas diferem, também, na capacidade de se aclimatarem à altitude, concomitante das doenças e da tolerância fisiológica das adversidades. Essas diferenças individuais, que infelizmente são difíceis para verificar, podem confundir ou mascarar as comparações entre diferentes montanhas (Huey & Eguskitza, 2001).

Pelo exposto, desde logo se pode dizer que são vários os riscos inerentes a esta actividade. De facto, o Alpinismo desenrola-se num contexto de risco, senão vejamos: um em cada dez alpinistas himalaianos não volta e, nas expedições ao Evereste, um em cada oito alpinistas morre (Ortner, 1999 in Pereira, 2009b). É muito frequente no alpinismo perder um companheiro, assim como é raro não se sofrer qualquer tipo de lesão. Apesar de, muitas vezes, os alpinistas não quererem dar importância ao risco, assumem que este faz parte desta actividade, estão cientes disso a partir do momento em que se preparam para uma expedição. No entanto, há certos factores que influenciam a percepção do risco, distorcendo-a. A personalidade, a experiência e os próprios meios de comunicação, o grupo a que pertence um sujeito, são alguns exemplos. Neste sentido, podemos afirmar que o jeopardy, que combina a dificuldade, incerteza e meio, é um elemento constituinte do alpinismo (Pereira, 2005).

Estes riscos, inerentes à própria actividade, podem ser imprevisíveis ou

estar fora de acuidade visual e a maioria desses riscos pode ser fatal. Entre esses, destacamos (ABC-of-Mountaineering, 2008):

Queda de Rochas - Com o passar do tempo, as formações rochosas podem, eventualmente, desmoronar-se em pequenas pedras. Isso pode ser causado pela erosão, pelo vento, pelo descongelamento do gelo e também

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pelas caminhadas do Homem. São perigosas porque podem causar lesões graves como fracturas.

Queda de Gelo - Pequenos fragmentos de gelo podem abrir a partir de um glaciar devido ao aumento das temperaturas, resultando na queda de gelo. No entanto, a susceptibilidade a estes riscos pode ser evitada. Geralmente, é aconselhado não escalar rochas ou faces cobertas de gelo durante um dia quente, especialmente quando é quase Primavera.

Avalanche - Este é um enorme manto de neve que desliza ao longo de uma montanha. As avalanches são uma grande ameaça para os alpinistas, pois podem facilmente enterrá-los e é muito difícil ou mesmo impossível sair. Alguns factores que contribuem para a ocorrência de avalanches são a inclinação da encosta, a instabilidade da neve, entre outros.

Crevasses - Estas são enormes e profundas fendas ou aberturas em glaciares ou neve, que são provocadas pelo movimento do glaciar. Podem ser visíveis ou ocultas (normalmente por um manto de neve).

Encostas de Gelo - Ao escalar encostas cobertas de gelo ou neve dura, a utilização de crampons pode ser a salvação. Ajudam por perfuração através do gelo ou neve, fornecendo um sólido domínio sobre uma outra superfície escorregadia.

Encostas de Neve - São geralmente fáceis de escalar. Uma nova camada de neve sobre o gelo pode ser perigosa porque pode facilmente resultar numa avalanche. Na parte da tarde, como o dia aquece, a neve tende a amolecer. Por essa razão, ela é ideal para escalar durante o início da madrugada.

Tempo – As condições meteorológicas contribuem largamente para as mudanças nas formações de rocha e gelo e, assim, podem provocar outros perigos. Não só isso, a chuva pode tornar a visibilidade muito reduzida, tornando as condições mais severas.

Como pudemos verificar ao longo deste “capítulo” são vários os obstáculos encontrados durante uma ascensão e os riscos tornam-se o “vizinho do lado” do alpinista, visto fazerem parte deste modo de vida. Seguiremos com o que realmente determina a busca incessante de uma actividade que, clara e

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repetidamente, coloca o praticante em risco, podendo mesmo levá-lo até à morte.

30 1.3 Razões para a prática do Alpinismo

Apesar de todos estes elementos que conferem perigo e risco ao alpinismo, a verdade é que o risco, a vários níveis, faz parte da origem do ser humano. Desde cedo, os indivíduos procuram uma dupla e contrária necessidade: a segurança e a busca constante de sensações através da exploração e descobrimento, que implicam um certo risco (Fuster i Matute & Agurruza, 1995). No entanto, os praticantes estão conscientes do perigo a que se expõem, tal como podemos constatar nesta afirmação de João Garcia (2007) “eu sei que o risco faz parte desta vida, foi esta a vida que escolhi”, mas nem por isso desistem de escalar. Muitos referem mesmo que é um risco gratificante, fundamental, estando aí o êxtase completo.

Neste contexto de risco latente, Léséleuc (1998) afirma que praticar alpinismo é como jogar com a própria vida. Um jogo de onde se pode sair vencedor ou derrotado! De facto, grande parte dos alpinistas já viveu situações