A fim de compor os aspectos metodológicos desta pesquisa foi necessário delineá-los, localizando elementos como: o tipo de pesquisa, o método e as técnicas adotadas para levantar os dados e posterior análise. Nessa perspectiva, também precisamos estruturar o contexto e indicar os participantes, além de descrever os instrumentos e os procedimentos de aplicação, coleta e tratamento dos dados.
Com o propósito de atender aos objetivos da pesquisa e responder as questões que a norteiam, utilizaremos a abordagem qualitativa, por considerar que esta abordagem visa à construção da realidade de forma complexa e contextualizada, pois se fundamenta em dados coletados nas interações interpessoais, na coparticipação do pesquisador nas situações em que
os informantes são interpelados, e na análise a partir da significação que estes dão aos seus atos. A abordagem qualitativa propicia ao pesquisador compreender e interpretar a realidade do ambiente a ser pesquisado. Como afirma Chizzotti (2003, p. 221):
O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados vivíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível e, após esse tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competência científica, os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa.
Na pesquisa qualitativa, a fonte de dados é o próprio ambiente natural, e o principal instrumento da pesquisa é o próprio pesquisador, que é capaz de se envolver nas mais diferentes atividades e espaços de manifestação do fenômeno a ser observado.
De acordo com Lüdke e André (1986, p. 12), “ao considerar os diferentes pontos de vista dos participantes, os estudos qualitativos permitem iluminar o dinamismo interno das situações, geralmente inacessível ao observador externo”. Os dados coletados são descritivos do ambiente, das pessoas e das situações; assim, o pesquisador procura entender os fenômenos e pode situar sua própria interpretação. Segundo Bogdan e Biklen (1994, p. 49), “a abordagem da investigação qualitativa exige que o mundo seja examinado com a ideia de que nada é trivial, que tudo tem potencial para construir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objeto de estudo”.
Nesse tipo de pesquisa faz-se necessário considerar a realidade pesquisada, realizando uma correlação com os referenciais teóricos que fundamentam as investigações. Assim, os autores não são sujeitos isolados direcionados por sua intuição, pois eles são embasados pelos seus referenciais teóricos (ALVES; SILVA, 1992).
Para esta investigação foram utilizados os seguintes procedimentos/instrumentos de coleta de dados: observação participante de encontros videogravados com os sujeitos de pesquisa, narrativas digitais produzidas pelos sujeitos e entrevistas semiestruturadas. Diante dos procedimentos mencionados, podemos considerar, então, que esta pesquisa possui uma abordagem qualitativa e que a investigação tem elementos que a aproximam da pesquisa- formação. De acordo com Nóvoa (2004), a pesquisa-formação contempla a possibilidade da mudança das práticas, bem como dos sujeitos em formação. Dessa forma, “a pessoa é, simultaneamente, objeto e sujeito da formação” (NÓVOA, 2004, p.15).
Nesta pesquisa, o professor é tido como objeto e sujeito de pesquisa, pois tem a possiblidade de intervir em sua prática. O sujeito, neste caso, é aquele que aprende, que intervém, que se constrói e se reconstrói durante o processo de narrar sobre si e suas práticas.
Nóvoa (2004) entende que este tipo de pesquisa possibilita que pesquisador e professores se relacionem mais cooperativamente de forma que ambas as partes ganhem e contribuam com o aprendizado individual e coletivo, buscando conceber mudanças na prática docente por meio da reflexão na prática e sobre a prática, valorizando os saberes que as pessoas têm. Nesse sentido, a pesquisa pode ser entendida como um processo de produção de conhecimentos sobre as situações vivenciadas pelos professores de ensino de ciências ao tentarem incluir o tablet em suas ações docentes, o que reforça a ideia de a pesquisa se assemelhar à pesquisa-formação.
Para que fosse possível alcançar o objetivo deste estudo, a narrativa digital foi o meio escolhido devido às possibilidades investigativas que oferece. De acordo com Freitas e Ghedin (2015, p. 124):
Ao narrar de maneira reflexiva suas experiências aos outros, o professor aprende e ensina. Aprende, porque, ao narrar, organiza suas ideias, sistematiza suas experiências, produz sentido a elas, e portanto, novos aprendizados para si. Ensina, porque o outro, diante das narrativas e dos saberes de experiências do colega, pode (res)significar seus próprios saberes e experiências.
Por meio da narrativa digital que produziram, os professores organizaram suas experiências diárias em sala de aula, relembraram momentos de sua infância, ressaltando aqueles no qual a tecnologia e a tecnologia digital se faziam presentes, contaram de forma aberta sobre sua formação acadêmica e sobre suas ações pedagógicas e compartilharam com os demais sujeitos. Cada professor contou sua história, compartilhou suas vivências em sala de aula e seu saber. Para compartilhar essas informações os professores tiveram autonomia para escolher a forma como seria feito, então puderam escolher o recurso digital com o qual tinham mais facilidade ou até mesmo, escolher o recurso que, de alguma forma, os desafiasse. A confecção da narrativa permite que o professor se veja a partir de uma “leitura de sua obra” (CONTRERAS, 2002, p.161), de suas experiências vivenciadas e do seu saber construído na prática em sala de aula. Sendo assim, o professor passa a ser reconhecido não apenas como transmissor de informações, mas como construtor de saberes, rompendo a visão tradicional a partir da qual os professores são vistos apenas como objetos a serem investigados.
Diante disso, a formação pela pesquisa possibilita a vivência da docência a partir de uma consciência mais crítica da condição do professor como sujeito do seu processo formativo. Por meio das narrativas digitais, os professores vivenciaram um processo de formação, de reflexão da sua ação e assim puderam construir e reconstruir suas práticas. Vale
mencionar também a ação colaborativa entre os professores, pois as práticas pedagógicas foram compartilhadas entre os sujeitos durante os encontros videogravados. Portanto, podemos dizer que este tipo de pesquisa pode vir a possibilitar, também, uma aprendizagem cooperativa devido à troca de experiências narradas.
Não pretendemos que esta investigação permaneça apenas na lembrança destes professores de ciências e da pesquisadora, que vivenciaram esta experiência investigativa por meio das narrativas digitais, pois o processo pelo qual os docentes passaram pode ser aplicado em outras escolas e com outros professores. À vista disso, tivemos o cuidado de organizar um material que será disponibilizado online com acesso gratuito para que este processo possa ser desenvolvido também em outros contextos.
A seguir, apresentamos algumas informações a respeito do contexto da pesquisa e dos sujeitos participantes da investigação.