A existência de dois polos ideológicos nos Estados Unidos é tradicionalmente encapsulada para a formação dos partidos políticos, nos quais o partido Democrata e
102 Republicano ocupam lugar de destaque. De forma constante, e não apenas em período eleitoral, estes partidos são incentivados ao debate para que se criem consensos e, assim, se avance nas mais diversas agendas, tanto em nível federal quanto em subnacional. Tal dinâmica, além de exigir esforços de ambos partidos, também acaba por demandar a coordenação com a política exercida nos entes federativos, principalmente devido à autonomia de atuação que estes gozam no país.
No caso da imigração, os contextos políticos locais se tornam ainda mais importantes, tanto no sentido de corroborar ou refutar as medidas que são promulgadas nacionalmente. Para o governo federal, o cenário mais favorável seria aquele em que os governos locais não apenas concordam com suas políticas, mas também as aplicam em suas jurisdições. Todavia, como vem sendo apontado ao longo deste trabalho, o caso das cidades-santuário tem gerado diversas divergências nos últimos anos, sendo estas visualizadas principalmente após o início da administração Trump em 2017.
Ao considerar este panorama de polarização ideológica, surge o questionamento sobre a possibilidade de existir uma tendência partidária nos níveis locais que incentivasse a adoção de políticas, especialmente as santuário. Sobre este ponto, os estudos específicos de Schiavon (2004) sobre o caso mexicano, apontam um certo tipo de tendência ao engajamento dos governos subnacionais em questões que permeiam as relações exteriores. De acordo com o levantamento realizado pelo autor, naqueles entes federativos cujo partido do governador se difere daquele do presidente, ocorrem maiores incentivos para que esses atores se engajem em atividades internacionais. Para ele, isso ocorreria devido às divergências de interesses e preferências, as quais teriam origem nessa retórica partidária.
Sobre o caso específico dos Estados Unidos, a pesquisa desenvolvida por Gulasekaram e Ramakrishnan, (2013; 2015) têm se tornado referência para a compreensão desta relação, considerando a lógica e os desenvolvimentos do próprio federalismo imigratório. Assim, em suas últimas obras, os autores apontam a relevância desta variável para a ocorrência de atividades subnacionais na questão imigratória, chegando a criar uma maneira de se abordar a questão do fator político-partidário nesse envolvimento subnacional, chamada de “modelo da mudança polarizada”.
O argumento principal que permeia o fundamento do modelo aponta que todo o processo de mudança de políticas sobre imigração, passando desde a formação de opinião entre eleitores até a definição de agenda e legislação nos níveis nacional e subnacional, foi e é
103 moldado pelo trabalho dos partidos políticos e dos empreendedores. Dessa forma, a dinâmica partidária descrita e as estruturas do federalismo estadunidense, poderiam, em certas circunstâncias, aumentar a proliferação de políticas nas localidades (GULASEKARAM; RAMAKRISHNAN, 2015).
De forma específica, a presença dominante de dois partidos políticos antagônicos em todos os níveis de governo facilitaria a tendência de decretos subnacionais que apoiassem as posições políticas instauradas nacionalmente. Destarte, o partidarismo, constituído por disputas intra e interpartidárias, somado às instituições federalistas, como cargos para o Congresso e legislativos estaduais, permitiria filiações entre os diferentes níveis de governo que podem ajudar a alcançar uma estratégia geral de proliferação de políticas. Logo, dentro deste modelo, Gulasekaram e Ramakrishnan (2015) propõem a existência de um ciclo de retroalimentação dinâmico entre a legislação federal e subnacional.
Em relação ao papel dos empreendedores, definidos previamente no capítulo dois, estes seriam essenciais para a influência da questão partidária na formulação de políticas imigratórias em âmbito subnacional, pois estes enquadrariam a narrativa necessária para que estas tenham aceitação judicial e política. Além disso, estes indivíduos – que podem ser desde governantes até mesmo influenciadores políticos – direcionariam as jurisdições para se engajarem ao redor dessa agenda, se baseando na especificidade local e nas condições partidárias vivenciadas, levando assim a uma aceitação mais ampla (GULASEKARAM; RAMAKRISHNAN, 2015).
A partir de tais considerações, Gulasekaram e Ramakrishnan, (2015) descrevem o modelo da mudança polarizada principalmente respaldando-se na ideia de que os desafios políticos resultantes de mudanças demográficas não produzem inexoravelmente esforços legislativos para mudança política. Para eles, o componente político-partidário da vida em sociedade, e, em especial, a polarização encontrada nos EUA, seria a principal influência para o aumento no ativismo subnacional na política imigratória. Neste mesmo sentido, Rodríguez (2015) aponta que tanto o partido quanto as inclinações políticas dos responsáveis pelas burocracias locais são fortes indicativos da natureza do envolvimento local na condução de política imigratória.
Para além de teorizar sobre a questão, também se provou necessário realizar uma análise estatística para trazer maior robustez ao modelo. Assim, com base na ideia de que contextos políticos locais são importantes para o engajamento dos governos subnacionais em
104 questões imigratórias, Gulasekaram e Ramakrishnan (2015) analisaram primeiramente o período de 2005 a 2011, no qual medidas restritivas foram maioria nos contextos locais, e também o período de 2012 a 2014, no qual se observou uma virada a favor de políticas santuário.
Nesta primeira análise, a legislações restritivas se mostraram significativamente mais prováveis em lugares onde os republicanos são predominantes no estado. Assim, ao contrário da ideia de que qualquer mudança demográfica estimularia as localidades a criar medidas restritivas, o problema da restrição imigratória não surgiu porque os imigrantes se mudaram para novos destinos, mas sim porque esses se mudaram para destinos dominados pelo Partido Republicano. Como exemplo, é possível observar o Arizona e o Texas, estados nos quais os imigrantes são parte considerável da população, majoritariamente republicanos e tradicionais proponentes de políticas anti-imigração (GULASEKARAM; RAMAKRISHNAN, 2015).
Utilizando-se da mesma metodologia, foram também avaliados os estados inseridos no contexto do movimento pró-imigração. Reforçando então a ideia de Rodríguez (2015), foi possível visualizar que a questão partidária se mostra como uma das principais influências para a escolha de desafiar a política imigratória federal, especialmente quando partidos antagônicos se encontram nos diferentes níveis de governo. Dessa maneira, Gulasekaram e Ramakrishnan (2015) puderam avaliar que as áreas de inclinação democrata são muito mais propensas a resistir aos esforços federais de repressão do que as áreas de tendência republicana.
De certa forma confirmando esta tendência, Reich (2018) realizou um estudo sobre o ativismo estatal em questões imigratórias, fosse ele integrativo ou restritivo. Assim, os estados que contam com a adoção de mais tipos de políticas santuário, como a Califórnia e o Illinois, são caracterizados por eleitorados ideologicamente mais progressistas, nos quais os democratas tendem a dominar os governos estaduais. Por outro lado, em estados como o Alabama e o Arizona, que vêm adotando políticas de cunho anti-imigratório, se mostram berços do conservadorismo ideológico, sob controle republicano.
Todavia, além do fator político-partidário, Gulasekaram e Ramakrishnan (2014; 2015) reiteram o argumento de que embora o controle do Partido Democrata em nível estadual possa estar fortemente associado à probabilidade de uma legislação pró-integração, os últimos acontecimentos da política americana demonstram que outros fatores também podem ser
105 importantes para se compreender o movimento santuário, como o tamanho da população latina no estado.