1.8. Risque moral et offre de soins
1.8.5. Assurance et demande induite
Nossa preocupação está centrada em interrogar o fenômeno ao invés de oferecermos princípios explicativos sobre o mesmo, caracterizando nossa investigação como sendo de natureza fenomenológico-existencial que busca compreender a experiência humana tal como ela é vivida, sem nenhuma consideração sobre sua gênese psicológica e explicações causais (Triviños, 1987).
Falar de fenomenologia nos instiga a conhecer melhor a etimologia do termo dentro do campo filosófico, o qual é derivado do grego phainómenon, que significa ‘coisa que aparece ou se mostra’, ‘aquilo que vem à luz’ e de logia, que quer dizer ‘estudo’ (Houaiss e Villar, 2001). Assim, podemos dizer que fenomenologia designa o estudo ou a ciência do fenômeno fundamentada numa perspectiva filosófica. Este é seu sentido etimológico, mas no campo da psicologia podemos dizer que quando nos referimos à fenomenologia estamos nos referindo ao mundo vivido, conforme nos diz Amatuzzi (2001): “A pesquisa fenomenológica é a pesquisa do vivido, e ele pode não ter sido acessado antes. O “vivido” não é necessariamente sabido de antemão. É no ato da relação pessoal, quando surge a oportunidade de dizê-lo, que ele é acessado” (p.19).
Um dos principais iniciadores do movimento fenomenológico foi Kant, no qual encontramos uma fenomenologia crítica que se entregou a investigar a estrutura do sujeito e das funções do espírito, tendo por tarefa circunscrever o domínio do aparecer ou do fenômeno. Todavia é com Hegel que o termo entra na tradição filosófica com a publicação da obra Fenomenologia do espírito (1807) para designar o que denomina de “ciência da experiência da consciência”, ou seja, o exame do processo dialético de constituição da consciência, desde seu nível mais básico, até as formas mais elaboradas da consciência de si, que levariam finalmente à apreensão do absoluto (Japiassú e Marcondes, 1996).
A fenomenologia que se desenvolveu no século XX foi fomentada pelas idéias do filósofo Edmund Husserl que desponta nos fazendo um convite: duvidarmos da nossa percepção aparente e nos comprometermos com a responsabilidade de nossas atitudes. Em outros termos, Husserl sugere a eliminação da dicotomia sujeito-objeto, centrando sua atenção na experiência consciente, colocando o homem como sujeito na sua relação com o mundo. Homem e mundo são considerados como correlacionados, já
que a consciência é sempre intencional, ou seja, a consciência é sempre consciência-de- alguma-coisa, enquanto o objeto é sempre objeto-para-a-consciência, sem que seja possível considerá-los fora dessa correlação.
Dessa maneira, sua proposta é o método fenomenológico, ou seja, a volta às coisas mesmas, fugindo da generalidade, passando a centrar a atenção na singularidade de cada fenômeno, preocupando-se em considerar ‘o fenômeno enquanto fenômeno’ e buscar através da redução fenomenológica, a distinção entre consciência e mundo. Torna-se importante, então, suspender ou colocar entre parênteses todas as idéias pré- concebidas a respeito do fenômeno. Assim, o que resta da redução, o resíduo, não é o que pensamos, mas a conexão ou correlação entre o que pensamos e o objeto do pensamento.
Historicamente a fenomenologia emerge num momento em que o declínio dos grandes sistemas filosóficos tradicionais estava em evidência. As ciências de maneira geral e, em especial, a psicologia, estavam buscando constituir-se através do modelo positivista de se fazer ciência, ou seja, através da separação entre o sujeito e o que vinha a ser seu objeto de estudo. Havia uma confiança neste modelo de saber, o qual respaldava-se na idéia de que o mundo era aceito como uma realidade independente, existente em si, não sendo, portanto, dependente da consciência.
Como atitude filosófica, a fenomenologia nasceu como questionamento e crítica à metodologia de conhecimento científico que rejeita tudo o que não está subordinado à noção de verdade, podendo-se afirmar que sua tarefa é analisar as vivências intencionais da consciência para perceber como aí se produz o sentido dos fenômenos bem como o sentido do fenômeno mundo.
Partindo dessa compreensão, a fenomenologia refere-se a um método de conhecimento que procura penetrar na própria vivência da pessoa que pretende
conhecer, procurando captar o seu modo de existir, em especial, a sua maneira de vivenciar o espaço e o tempo (Forghieri, 1984).
No que diz respeito à psicologia, pode-se dizer que uma das contribuições do método fenomenológico é a forma de pesquisar os fenômenos relacionados ao psiquismo humano, ou seja, preocupa-se com a maneira peculiar que a pessoa tem de ser-no-mundo, as suas vivências, através da busca da compreensão de suas experiências vividas.
A fenomenologia coloca em cena a questão da perspectiva, ou seja, ao invés de considerar que a verdade seja estável e una, volta-se justamente para o seu caráter de mutabilidade e relatividade, opondo-se ao discurso tradicional metafísico. Portanto, o método fenomenológico apresenta um pensamento voltado para a dinamicidade do conhecimento, concebendo a compreensão da realidade como relativa e provisória e dessa maneira, enquanto postura epistemológica, não pretende estabelecer hipóteses a
priori, nem encontrar relações de causa-efeito para explicar um fenômeno. Mas sim,
apresenta-se como abertura a toda possibilidade de conhecimento, posto que considera a experiência humana uma experiência da fluidez, da mutabilidade, da liberdade do homem no mundo e o conhecimento como um incessante movimento de mostrar-se e ocultar-se, e não, como uma verdade absoluta. Podemos falar em uma postura fenomenológica, numa consciência que trata o próprio existir ou ser-no-mundo em sua historicidade.
Critelli (1996) nos chama a atenção para a questão da fenomenologia enquanto um método que interroga o como do que se busca compreender. Assim, o modo da pergunta para se refletir sobre o real é determinado exatamente por aquilo que se quer saber. Apoiados nesse entendimento podemos dizer que investigar é tratar todo questionamento como aquilo que se volta para o que provoca atenção e interesse. Dessa
forma, esta autora comenta que “o fundamento do método fenomenológico está dado, sobretudo, por aquilo que se busca compreender” (p. 27).
A metodologia de investigação e a análise apoiadas na fenomenologia deverão estar atentas muito mais ao modo de olhar o fenômeno, pois o que se pretende saber de algo depende do que é e como é, do ser daquilo que se está buscando compreender.
É válido ressaltar que dificilmente se fala de existencialismo sem associá-lo à fenomenologia, devido à influência de Husserl em Heidegger e Sartre bem como em razão dos existencialistas utilizarem o método fenomenológico em sua tentativa de compreender o homem e considerando que não é possível conhecer o objeto separado do sujeito que o conhece.