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Analyse du rôle des variables

Observatoire du système didactique

QUELQUES POINTS DE REPERE

9.2 Analyse du rôle des variables

Como dissemos em outra passagem do presente estudo, o pai do narrador, sapateiro de profissão no shtetl, trouxera consigo para o Brasil as suas ferramentas de trabalho, na esperança de continuar vivendo da profissão, nos mesmos moldes que outrora no shtetl. Esse foi também um ponto de discórdia na família, pois a mãe, de espírito mais prático que o marido, tencionava vê-lo em outra profissão. Isso ficou mais claro para ela, depois que conheceu a loja de Salomão Nutels, no Recife.

Assim, ao rememorar o passado, o narrador apresenta as dificuldades vividas pelo imigrante pobre em terra alheia. Em suas reminiscências, lembra que não via frutificar a idéia da mãe: “Para começar, não tínhamos capital para começar o negócio; e, mesmo que tivéssemos, papai não queria ser lojista, tinha horror, não de vender – isso não o incomodava –, mas de loja: a idéia de ficar imóvel atrás de um balcão parecia-lhe insuportável” (SCLIAR, 2001a:57).

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As histórias que esse narrador conta entrecruzam-se com outras por ele narradas, de modo que vai, por meio da linguagem, recompondo um passado distante, fazendo ecoar diferentes vozes e tempos que nós, leitores, só conhecemos, graças à configuração da narrativa.

Desse modo, Scliar concede ao narrador o papel de sujeito histórico e ideológico – conforme as teorias de Jacques Le Goff apresentadas no primeiro capítulo desse estudo –, por trazer as vozes dos sujeitos que ajudam a compor as histórias embutidas na sua, dando ao romance o caráter de texto polifônico. Cabe lembrar que entende-se por polifonia (cf. Bakhtin), o conjunto de vozes que integram uma dada realidade social, que refletem os sujeitos discursivos dessa sociedade, No romance, não se trata apenas das falas dos parentes, que denotam as experiências alheias, o sofrimento e a segregação do sujeito expatriado, ou do índio, também segregado e humilhado. Merece destaque a inserção dos discursos das mais diversas facções políticas, como, por exemplo, a música do esquadrão da cavalaria de cossacos, o hino da Internacional Socialista (cf. SCLIAR, 2001a: 31 e 89), entre outros.

Porém, mesmo insistindo em trazer as ferramentas e continuar como artífice, o sonho do antigo sapateiro não se realiza. Pouco depois de instalado em São Paulo, o sapateiro é atropelado por um bonde na rua José Paulino, acidente que lhe custa um braço. Resignado, passa a vender gravatas no centro da cidade, penduradas no toco do braço amputado.

Cabe lembrar que o trabalho ambulante era, muitas vezes, a atividade que restava ao estrangeiro. Sem dominar a língua da nação, desprezado pela gente da terra, dedicava-se ao comércio de mercadorias baratas nos bairros longínquos. Esse era também o percurso dos colonos judeus no Sul do País. Cansados de sulcar o chão sem muitos resultados, migravam para os centros urbanos, em busca de novos sonhos.

Aliás, não se tratava apenas de imigrantes no Brasil. Salomão Nutels também fora ambulante na Argentina, para onde vai, antes de se radicar em Laje do Canhoto. Deixando a mulher e o filho em Ananiev, na Bessarábia, pretendia enriquecer-se com o franco comércio na Argentina e, de lá, mandar buscar a mulher e o filho. Mirava os conterrâneos que tiveram sorte nas terras do Sul. Porém, ele não teve. Então, tornara-se um vendedor de sapatos nos arrabaldes de Buenos Aires:

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Saía de manhã cedo, a mercadoria numa grande mala, percorria as ruas, gritando ”Sapatitos chiquitos, chiquitos para sus hijos”. Gritava muito, o Salomão, vendia pouco. A mala, que saía cheia, voltava igualmente cheia. E ele se desesperava porque não conseguia juntar o dinheiro para as passagens de navio. Vida dura, a daquele homem. (SCLIAR, 2001a:17-18)

Sem outra opção de trabalho, o sapateiro torna-se um gravatnik, isto é, um camelô ambulante, apregoando a venda de gravatas no centro da cidade de São Paulo. Segundo Moacyr Scliar, as gravatas eram um “símbolo de status, condição sine qua non para a entrada em determinados lugares” (SCLIAR, 2000a: 43), pois, poderia ser requisitada a qualquer momento. É, então, por uma orientação prática que surgiu o

gravatnik.

Portando uma bolsa, o sapateiro se dirigia todos os dias ao centro da cidade, e escolhia, para seu comércio, um lugar estratégico: a Avenida São João ou a Ipiranga. O narrador o acompanhou algumas vezes a pedido da mãe. Segundo ele, a mãe temia pela saúde frágil do marido. Mas, ele “ficava à distância: devo confessar que me envergonhava o pesado sotaque de papai: meu português, ainda precário, já era bem melhor que o dele, e eu progredia rapidamente no aprendizado do idioma” (SCLIAR, 2001a:59).

Observa-se, desse modo, que a língua é também um elemento legitimador do preconceito. Scliar deixa imprimir aqui as marcas da ideologia social, que restringe o sujeito à margem, sem, contudo, deixar de apresentar o embate das idéias. Por isso, o recurso da polifonia. As vozes que se entrecruzam com a do narrador ajudam a compor o fluxo narrativo, refletindo, nesse contexto, as experiências alheias, os tempos vividos por pessoas comuns, compartilhando as mesmas histórias.

Vale destacar, ainda, a relação intertextual promovida pelo escritor com outras obras de sua autoria. Cabe lembrar que a intertextualidade nasce do embate das vozes que geram o discurso, que fazem referência a outros textos formulados pelos diversos sujeitos discursivos. Podem referir-se a textos já consagrados pelos cânones críticos ou não (cf. BARROS e FIORIN, 1994:45-48). No ensaio Meu filho, o doutor, por exemplo, Scliar fala dos conflitos entre o imigrante e seus rebentos. De um lado, o filho sente pelo pai um profundo amor filial, confia e admira seu genitor; de outro, tem consciência da diferença do pai em relação aos nativos (cf. SCLIAR, 2001e:97). Na verdade, é essa a relação do narrador com seu pai. A saúde frágil do sapateiro merece os seus cuidados,

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mas a sua diferença, marcada na língua engrolada, é agravada pelo acidente. O fato do pai dependurar as gravatas no toco do braço o envergonha, e ele se posiciona à distância.

Sendo assim, herança cultural e lembranças pessoais são os elementos que conduzem o fluxo da memória desse narrador, que segue desvelando as suas lembranças. Essas lembranças estão, de algum modo, vinculadas a outras histórias escritas pelos sujeitos anônimos que ficaram perdidos nos ruas e avenidas do bairro do Bom Retiro em São Paulo.

III.5. Do sonho à dispersão: a desagregação familiar por que passa o narrador-