6. APPLICATION DU CADRE D’ANALYSE À L’ARRÊT BOU MALHAB
6.2 Analyse du discours factuel et la construction sociale des faits
Halls (2004) sustenta que uma narrativa da identidade nacional é inequivocadamente criada por uma nação que deve se reconhecer como unidade política e popular, e que tal narrativa configura um discurso. Foucault (2004), ao defender que, mais do que disciplinas estanques como a psicopatologia, a gramática, e a medicina, existem formações discursivas que determinam o que é um louco, uma língua e um médico26, delineia uma teoria que reitera a primazia do discurso sobre a realidade, defende a análise da arqueologia de enunciados como ferramenta para a investigação do historiador, e admite atualizações enunciativas.
A nosso ver, o contato com escritos que se autodenominam estudos sobre identidade italiana, bem como a heterogeneidade temática que está intrinsicamente vinculada ao termo, abrem a possibilidade de investigação sobre o significado deste tema entendido como disciplina ou matéria do saber, e, assim, a investigação dos sujeitos autorizados a tomar posse desse discurso, dos limites da abordagem de seus objetos, e dos conceitos e das teorias que contempla; enfim, da existência de uma formação discursiva, o tal solo ou lugar de amparo conceitual da identidade italiana já acenado:
“No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e consequências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria”, ou “domínio de objetividade”.
(FOUCAULT, ibid., p. 39)
Indicam a existência de uma formação discursiva particular a proliferação de textos – ilustrados pelas menções, citações e enunciados das seções anteriores – sobre identidade italiana, as diversas óticas pelas quais é vista, o laço entre motivações
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Fazemos referência às obras História da loucura, As palavras e as coisas e O nascimento da clínica, de M. Foucault.
políticas e a recuperação e invenção de tradições, bem como, principalmente, a continuidade de retomadas do tema desde a unificação do país – e mesmo antes, conforme breve revisão de clássicos da literatura. Ainda que não esteja formalmente localizada sob o rótulo de uma matéria, disciplina ou ciência, partimos da premissa de que a retomada do tema, sempre em voga devido à história do país – de união tardia, variada cultura popular, marginalização política – tenha se tornado o apriori da formação de um discurso, com todas as suas nuances, diferenças e complexidades. Através de textos que compreendem enunciados retomados, reinventados e repetidos, da literatura à Sociologia, a apropriação do tema se repete, um discurso se delineia, e seus objetos, sujeitos e conceitos são reconhecidos.
Ainda que para a teoria de Foucault somente textos escritos tenham sido fonte de análise, suas reflexões indicam que é possível considerar como texto um documento audiovisual (FOUCAULT, 2000; GASPAR, 2004), amparadas pela premissa de que:
“Analisar um capitel, uma iluminura era manifestar o que ‘isso queria dizer’: restaurar o discurso lá onde, para falar mais diretamente, ele estava despojado de suas palavras”
(FOUCAULT, ibid., p.79)
Foucault reitera algumas vezes que a descrição dos acontecimentos discursivos é muito diferente da análise da língua, e que é a partir de um campo dos fatos do discurso que unidades, como a ciência e a literatura, e materialidades discursivas, como a obra e o livro – e o filme, segundo nossas hipóteses – são construídas e, consequentemente, farão emergir para o analista toda a arqueologia responsável pela manifestação de enunciados.
Longe de pretender repetir o empreendimento de Michel Foucault, ou seja, de desejar descrever toda a arqueologia27 de um saber através do seu arquivo discursivo, nos limitamos a usar o seu conceito de discurso, uma vez que a leitura de textos sobre a identidade italiana nos fez entender que este é o mais adequado para abordar tal
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“Esse termo [...] designa o tema geral de uma descrição que interroga o já dito no nível de sua existência; da função enunciativa que nele se exerce, da formação discursiva a que pertence, do sistema geral de arquivo de que faz parte. A arqueologia descreve os discursos como práticas especificadas no elemento do arquivo.” (FOUCAULT, 2004, p. 149).
questão28. A constatação de que o tema da identidade italiana vinha sendo retomado há séculos, e que “verdades” eram cristalizadas nesses textos em forma de proposições, pressupostos e premissas, levou ao encontro deste conceito de discurso, o qual comporta a noção de enunciado e que dá ao autor um papel “menor”, grosso modo, já que Foucault tira do discurso a soberania do sujeito enunciador. Contudo, Federico Fellini, como cineasta e, portanto, sujeito-autor29, construiu seus textos e através deles comunicou seu juízo sobre o mundo, e, consequentemente, tornou-se autor e proprietário de uma linguagem particular, de opiniões próprias, de uma poética única. Subjacente a tudo isto, porém, distingue-se uma formação discursiva amparada por objetos, conceitos, estratégias específicos – além de lugares enunciativos30, os quais delimitam possíveis sujeitos –, reconhecidos em suas diferenças no conjunto de textos sobre a identidade italiana.
Descrever uma arqueologia equivale a tentar “estabelecer regras de formação para definir as condições de realização dos enunciados” (FOUCAULT, 2004, p. 232), o que dependeria de um aprofundado estudo sobre quais linhas de pensamento, quais eventos históricos, quais mudanças de paradigma31, em suma, quais acontecimentos não discursivos fazem emergir, através dos tempos e no âmbito de uma ciência, enunciados específicos, responsáveis por deixar transparecer a “abundância desses temas, dessas crenças, dessas representações às quais nos dirigimos naturalmente quando fazemos a história das ideias” (ibid., p. 70.) Tal tarefa por si só já constituiria uma tese, uma vez que o arquivo das coisas ditas teria que ser profundamente analisado para que se
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“...os 'discursos' [...] não são, como se poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e de palavras: trama obscura das coisas, cadeia manifesta, visível e colorida das palavras; gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intricamento entre o léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio de
exemplos preciosos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços
aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva.” (FOUCAULT, 2004, p. 54-55).
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A noção de autor é discutida por Foucault (2001), Barthes (2004) e Maingueneau (2006), entre outros. Aqui adotamos a concepção de sujeito-autor, considerando o artista não apenas como indivíduo que pode ser submergido pelo discurso, mas também como instância criadora.
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Optamos por trocar o termo técnico modalidade enunciativa, usado nas traduções em português de Foucault, por lugar enunciativo, visto que a teoria de análise fílmica, que será apresentada no capítulo 2 desta tese, faz uso de termo idêntico. No âmbito da análise fílmica, manteremos o uso do termo modalidade enunciativa.
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Equivalente a episteme: l'insieme dei presupposti teorici della conoscenza scientifica e filosofica di una data epoca o autore (FOUCAULT, 2004). Do Dicionário eletrônico Caldas Aulete: “Segundo Foucault, episteme é o paradigma comum aos diversos saberes humanos em uma determinada época que, por se embasarem numa mesma estrutura, compartilham as mesmas características gerais, independentemente de suas diferenças específicas”.
chegasse àquilo que, anteriormente ao discurso, levou à sua imersão. Não sendo este o objetivo do atual empreendimento, partiremos da premissa de que, dadas as referências que foram e serão aqui apresentadas, existe uma formação discursiva da identidade italiana. Também não é objetivo proceder a uma análise da história das ideias, uma vez que à identidade italiana não foi conferido o status de uma positividade32. Mas exatamente porque foi reconhecida uma “abundância” com respeito à identidade italiana, faz sentido fazer uso da teoria que, a nosso ver, permite a aplicação de seus preceitos a todo discurso ao qual está subjacente uma grande quantidade de textos e abordagens. Em outras palavras, outras etiquetas temáticas podem ser reconhecidas como formações discursivas, sem que sejam consideradas positividades, como já o faz a Análise do Discurso e a análise linguístico-pragmática quando investigam a literatura (MAINGUENEAU, 2006) ou o jornalismo (RAJAGOPALAN, 2003), por exemplo.
Assim, em As palavras e as coisas, a História da loucura e O nascimento da clínica, Foucault procura revelar, com o arquivo, as formações discursivas, as positividades, os enunciados e suas condições de formação. No que se refere a nossa análise propriamente dita, procederemos à descrição parcial da formação discursiva através dos enunciados e da revisão bibliográfica das seções precedentes, os quais evidenciam alguns de seus elementos constituintes básicos. Ou seja, para poder sustentar que em Fellini está presente o discurso da identidade italiana, do qual ele é herdeiro e visionário, partimos da premissa, e procuramos comprovar, que esse discurso existe e que, não obstante, ao retomá-lo, o cineasta, no papel de sujeito autorizado pelo próprio discurso, o atualiza e acrescenta, ao arquivo das coisas ditas, coisas vistas sobre a identidade italiana.
Ao analisar o quadro Isto não é um cachimbo, de Magritte, Foucault observa que mais do que denotar ou representar um signo ou um significado, uma imagem lhe confere afirmação: daí a estranheza do espectador ao ver um cachimbo e ler a negação do que a imagem informa. Ele torna evidente a relação sutil entre um signo e sua imagem, mostrando que existe a convenção de que a pintura afirma aquilo ao que mais se assemelha.
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Segundo Foucault (2001), com Magritte a pintura cessou de afirmar. Por extensão, pode-se afirmar que, com Fellini, também o cinema sobre a verdade deixou de afirmar. Seu uso simbólico e sua linguagem, se comparados com o Neorealismo, corrente cinematográfica em voga na época em que inaugura como diretor, transgride porque denota e conota sem necessariamente afirmar – quando, por exemplo, Anita Ekberg sobe as escadas para a cúpula de São Pedro vestida de padre. Mas Fellini também afirma, e o faz ao retomar o discurso da identidade italiana através de símbolos e esquemas de verdade sociais33, como veremos detalhadamente no capítulo 3, e também através de outros recursos fílmicos e de comunicação. A formação discursiva em que se apoiam os enunciados fellinianos será reconhecida devido ao campo simbólico e a esquemas conceptuais que lhe servem como alicerce, e que fazem parte da esfera de assuntos dos escritos sobre a identidade italiana referenciados neste capítulo. Reconhece-se um mesmo enunciado em diferentes formas de enunciação quando “uma informação dada pode ser transmitida com outras palavras, com uma sintaxe simplificada, ou em um código convencionado; se o conteúdo informativo e as possibilidades de utilização são as mesmas” (Id., 2004, p. 117).
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Um esquema conceptual ou modelo cognitivo é uma estrutura abstrata equivalente a um domínio semântico, como “casamento”, “caráter masculino”, “fascismo”, que integra ideias organizadas em proposições. Essas ideias equivalem a informações basilares e compartilhadas socialmente, como “casais heterossexuais”, “infidelidade” e “violência”, considerados os respectivos domínios anteriormente citados. Essas informações basilares são cognitivamente arranjadas em nossa mente como protótipos – “verdades sociais” –, que têm papel no raciocínio humano porque é a partir deles que negociamos metáforas, extensões de significado, ironia, humor, entre outros efeitos de linguagem e comunicação.
Dada a hipótese de que Fellini retoma os preceitos da formação discursiva da identidade italiana, torna-se necessário pontuar o conceito fundamental de cada um dos elementos que constituem uma formação discursiva (doravante FD). Nenhum deles é um laço sempre presente que ligue todos os enunciados, e é justamente este fato que nos permite fundamentar na teoria de discurso de Foucault sem que todo o arquivo sober a identidade italiana seja agora investigado.
A identidade italiana, podemos afirmar, emergiu “oficialmente” como matéria do saber somente no século XX, quando se tornou tema de análise científico-acadêmica uma vez que o país se tornara estado-nação. As áreas que a tomaram e tomam como tema são a literatura, a Filosofia, a Política, a História, a Sociologia, a Linguística, ainda que, como já visto, essas áreas muitas vezes beneficamente se confundam ao colocar em prática suas questões e análises. Assim, a identidade italiana é discutida por todas essas áreas mas nem sempre ganha especificação política, social, cultural, artística, e este fato acaba por nos permitir afirmar que se trata de uma FD específica, conforme o conceito foucaultiano de irregularidade:
"Ao invés de as contradições serem elementos superficiais que é preciso reduzir, se revela como princípio organizador, como lei fundadora e secreta que justifica todas as contradições menores e lhes dá um fundamento sólido. Nao é acidente do discurso, é a lei de sua existência: é a partir dela que ele emerge; é pra traduzi-la e superá-la que ele se põe a falar; é pra fugir dela, enquanto ela renasce sem cessar através dele, que ele continua e recomeça... A contradição funciona como o princípio de sua historicidade."
(FOUCAULT, 2004, p. 170)
A revisão histórica e textual a qual aqui procedemos deixa claro que a formação de uma disciplina é assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre instâncias de emergência, de delimitação e de especificação (ibid., p. 49) – ainda que contenham irregularidades. Foram as relações institucionais entre a política e a literatura após a unificação, sobretudo, que promoveram a oficialização da matéria como tema acadêmico, e também fizeram com que surgissem relações discursivas que dessem origem não somente ao discurso da identidade italiana, mas que foram a condição para o aparecimento histórico de objetos específicos como parte de tal discurso.
É pela constante repetição de seus temas ou objetos que a FD da identidade italiana é primeiramente reconhecida. Se nos localizamos no século XIX, discutir a Itália era discutir sobretudo o caráter de seu povo, como pode ser exemplificado com Leopardi, ou mesmo modelar comportamentos, como pretenderam a literatura romântica de Manzoni, a literatura didática de Collodi, e a crítica de De Amicis – uma herança de literatos consolidados desde o Trecento. A língua também era objeto de debate e escopo de ensaios filosóficos sobre o italiano, como em Carducci, Manzoni e também de Pier Paolo Pasolini34. A religião e o esquema de comportamento por esta delineado sempre foram assunto de pensadores italianos, bem como de pintores. A história antiga, ou a época do Império romano, sempre retomada como lembrança de um passado grandioso, responsável pela difusão de um modelo de organização política, sempre foi relembrado senão como discussão direta, também como repetição artística, se observadas a pintura e a literatura, fazendo da herança da arte clássica objeto anexo da identidade italiana. E assim, tradicionalmente, a arte retomava a história e a religião, e a literatura retomava a língua, o caráter e os costumes, pois, por conterem temas tão diversos e problemáticos se se tentava homogeneizá-los, configuraram-se capítulos complementares da identidade italiana. Com a união, os costumes e a cultura antiga ganharam relevo como objetos da formação; e com a última leva de produção acadêmica de históricos, a atuação política e a incompleta modernidade passaram a ser os assuntos alvo.
Em suma, a FD da identidade italiana será reconhecida em Fellini através da abordagem dos seguintes objetos: igreja e religiosidade, poderes institucionais, o caráter do italiano, história e cultura artística, política e pensamento, língua e costumes. Os seis títulos contemplam, a nosso ver, todo o espectro de assuntos apontados pelas fontes textuais e fílmicas apresentadas e discutidas até este momento.
Outro elemento da concepção foucaultiana de FD, o lugar do sujeito enunciador tem caráter particular nessa teoria: o sujeito não é subtraído pelo discurso, mas a ele também não é conferida soberania, porque:
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“Renunciaremos, pois, a ver no discurso um fenômeno de expressão – a tradução verbal de uma síntese realizada em algum outro lugar; nele buscaremos antes um campo de regularidade para diversas posições de subjetividade.”
(FOUCAULT, 2004, p. 61)
Não obstante, “o ethos da obra literária não pode reduzir-se à projeção de categorias sociolinguísticas. A literatura emprega essas categorias em função de sua economia própria, apoia-se nelas para excedê-las” (MAINGUENEUAU, 2006, p. 282). Fellini é, portanto, autor e indivíduo, sujeito que atua em uma posição enunciativa, mas que, ao mesmo tempo, é criador. Assim, a expressão de um artista não configura um discurso nos termos foucaultianos, portanto, preferiremos nomeá-la texto ou escritura. A investigação mostra que a FD da identidade italiana autoriza e dá status de enunciador a autores literários, reconhecidos pensadores, instituições políticas, personagens acadêmicos, artistas – conforme as referências presentes em todo este capítulo. São agentes ligados a lugares institucionais marcados pela história, como o livro, materialidade mais comum em que se proliferam os discursos, mas também que emergiram devido a relações institucionais que definiram relações discursivas, as quais, por consequência, abriram a possibilidade de novos lugares enunciativos. Não somente agentes de épocas diversas falam de identidade italiana, mas também de áreas, pontos de vista e modalidades documentais diferentes o fazem. Assim, o cinema é o lugar institucional em que Fellini toma a posição de autor, conforme defende esta tese, lugar enunciativo já reconhecido devido aos pensadores e escritores que desde o Trecento ocupam este espaço; e cineasta, lugar já estabelecido pelo Neorealismo na Itália
Ainda que tenha sido mal compreendido e criticado por ter procurado uma estrutura de como funcionam os discursos 35, Foucault defende que procura definir, fora de qualquer referência a uma subjetividade psicológica ou constituinte, as diferentes posições de sujeito que os enunciados podem implicar e diz não querer:
"...descobrir leis de construção ou formas que seriam aplicadas da mesma maneira por todos os sujeitos falantes, nem para fazer falar o grande discurso universal que seria comum a todos os homens de uma época [...] não quis
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Acusação da qual ele se defende em escrito posterior e anexado às edições mais recentes de A arqueologia do saber.
excluir o problema do sujeito; quis definir as posições e as funções que o sujeito podia ocupar na diversidade dos discursos."
(FOUCAULT, 2004, p. 224, 225)
E, assim, nos explica Rouanet, que:
“Foucault descreve o que vê quando substitui o sujeito por um somatório das posições gnoseológicas possíveis do sujeito; quando dissolve os conceitos nas regras para a formação de conceitos; e quando põe de lado as práticas humanas em sua descrição do mecanismo de apropriação temática de determinados discursos, enxergando nesse mecanismo um conjunto de normas inerentes ao próprio discurso. Foucault não inventa um mundo sem sujeitos: descreve, realisticamente, um mundo em que o sujeito já foi, ou está sendo, submergido pelo discurso.”
(FOUCAULT & ROUANET, 1971, p. 12, 13)
Submergido pelo discurso como sujeito enunciador da identidade italiana, e patrono do texto cinematográfico que contém essa formação discursiva, Fellini lhe confere continuidade e elabora seus enunciados. Em outras palavras, é refém desse discurso como sujeito; ao mesmo tempo, porque é também autor de textos, apropria-se de suas temáticas.
O terceiro elemento da teoria foucaultiana diz respeito aos conceitos. Conforme citação precedente, a teoria propõe que existam, subjacentemente aos conceitos, regras que definem como se chega a eles, as quais equivalem a um nível pré-conceitual do discurso (FOUCAULT, op. cit., p. 65). No âmbito desta tese, isso equivaleria a esclarecer, por exemplo, como se estabeleceu através dos tempos que o italiano é “malandro” e expert na “arte de se virar”, ou como se estabeleceu a ideia de que a Itália fracassou com respeito à modernidade. São conceitos que vêm sendo discutidos, repetidos e também rebatidos (como em BECHELLONI, 1991) e, portanto, não equivalem a verdades absolutas, já que a ótica de análise pode ser outra. A opção de não proceder à descrição de toda a arqueologia ou de não entrar em contato com um volume considerável do arquivo, ou seja, de não descrever as formas de sucessão e as disposições das séries enunciativas, os diversos tipos de correlação entre elas, os esquemas retóricos de combinação de grupos de enunciados, obriga a nos limitarmos a pontuar alguns dos conceitos, ou observar minimamente os pressupostos e as intervenções – ou reelaborações – a partir dos conceitos que são instância superior, bem
como elementos que podem ser recorrentes, recompostos, estendidos ou retomados no interior de novas estruturas lógicas. Depois, em Fellini, mostraremos alguns desses elementos retomados, estendidos e recompostos pelo seu olhar pessoal e linguagem particular. Não procederemos, portanto, à analise pré-conceitual, que quer descrever as leis que permitem novas estruturações semânticas, mas tentaremos mostrar novas