6.2 Notre approche
6.2.1 Élements de composition
3.3.2.1.2. Eugénio Tavares
Num país em processo de construção da sua identidade a utilização da língua materna, e nacional, tem-se revelado de uma importância que não pode ser ignorada. Em Cabo Verde, Eugénio Tavares, no final do século XIX, inícios do 20°, não está fora das preocupações que têm agitado o panorama das nações e a sua relação com a língua nacional. Vários desses momentos cruciais na história cultural e total da Europa Ocidental aconteceram ao longo do século XIX. Terão sido influenciados pelo movimento que revolucionava a Europa? Terá, aqui, o movimento romântico, exercido alguma influência em Eugénio Tavares178? Um dos traços característicos deste movimento nascido na Alemanha (se bem que o rousseaunianismo, anterior a Goethe, seja um dos seus antecessores. E não é por acaso que a consolidação do movimento se tenha dado numa Alemanha em processo de construção da sua
apenas 2 (2,6%) recaem sobre o desporto de massas - escolha de um futebolista internacional. Mais dados: Cf. Anexo O.
177 Veja-se algumas das coladeras, no Anexo I. 178 Ver Anexo H.
identidade nacional.) - estão ou não presentes em Eugénio Tavares, nomeadamente no culto às forças culturais autóctones, e que se expressa através da língua nacional? A qual está intrinsecamente ligada à expressão e conteúdo de um humanismo, produto do contacto de culturas, que em Cabo Verde se constitui em "modo singular de afirmação"179 que passa pelo recurso à língua crioula, "autêntico reduto colectivo de um povo"180 Isto independentemente de uma ou outra, quiçá necessária, concessão à doutrina vigente de um Portugal unido através da língua: de facto, a própria opção por escrever poesia em crioulo e não em português, pode ser interpretada como ideológica, e não, digamos, meramente funcional, e ou estética - ou seja, acharia o escritor que a língua caboverdiana servia mais do que a portuguesa para determinados usos. Assim, ao escrever em crioulo o escritor estava a procurar estabelecer a necessária relação entre língua e cultura, esta entendida no seu sentido integral, e não como vinha sendo perspectivada, nomeadamente por gente que revela noutras vertentes uma grande sensibilidade e apreço por CV, como uma manifestação particularística num contexto nacional português.
Manuel Ferreira, A Aventura Crioula.
3.3.2. Usos e Funções
A nível mundial, assiste-se ao fenómeno do despovoamento rural e consequente urbanização181. Urbanização com algumas reservas, é certo, visto que em muitos casos trata-se tão-só do arrastar de vidas para as periferias suburbanas onde as existências individuais se degradam no anonimato que as grandes concentrações humanas propiciam, sobretudo quando se caracterizam por uma desorganização total, decorrente da procura da sobrevivência acima de tudo e da incapacidade do poder de responder às transformações advenientes das novas correlações de forças182. O ideal a alcançar de cidades vivas ao lado de campos com vida - ainda está muitas vezes a léguas de ser ensinado/partilhado, quanto mais praticado...
Em Cabo Verde, por seu turno, observa-se a desproporcionalidade no equilíbrio entre uma grande cidade que num curto espaço de duas décadas viu a sua população mais que duplicada... e o consequente despovoamento das zonas rurais.
A toponímia urbana pode ser considerada disso reveladora, qual marcador no sentido sociolinguístico: Praia, uma cidade a crescer, onde nas horas de ponta pela primeira vez no dia não se consegue fazer ouvir a nossa voz acima da do marulhar de gente, como se a praia de Quebra-Canela, a pouco mais de meia dúzia de quilómetros se tivesse transplantado para aqui, para a rua principal. Esta é a Avenida que leva o nome do maior herói da independência, mas nenhuma placa a assinalá-lo. E para quê, e como? O Platô é uma pequena urbe onde a meia dúzia de ruas é "bilingue" - a citada avenida é também conhecida pelo nome que levava antes, o do herói da abolição da escravatura. Numa rua paralela, declina-se entre o dia nacional e a de um administrador da era colonial; a seguinte entre Serpa Pinto e outro nome da "hagiografia" da era colonial; a seguinte entre Guerra Mendes e a Horta, que por comum é a única que toda a gente sabe qual é; a Cândido dos Reis é conhecida por um nome comercial; a Andrade Corvo pelo nome da organização transnacional aí sediada. Portanto existe desde sempre, desde a independência porque só a partir daí seria de esperar um conjunto de medidas consentâneas com uma política de implantação de mecanismos de construção, consistente, da identidade nacional. A qual exigiria, nomeadamente, a promoção de determinados valores identificativos e de construção do indivíduo e que teriam de passar pelo Estado. Uma objecção se pode erguer ao que acaba de ser dito: que no país recém-independente importava em primeiro lugar criar o Estado. O que passava por várias medidas: combater todas as forças obstrutivas à criação da independência, promover a aceitação do novo status quo pela massa até aí
181 Fenómeno documentado ao longo da história. Mais recentes: os dados do PNUD acerca da demografia mundial-em 1975: 37,8%; em 97: 56,1%; em 2015 serão 54,4.
alheada de todo o processo em marcha, envolver a população e criar novas imagens nomeadamente pela destruição ou ocultação das vigentes, às quais se fez o que se faz às más recordações. Foram enterradas em depósitos, armazéns de onde acabariam por sair década e meia depois. Estátuas de "colonialistas" restituídas aos seus espaços na urbe. Sem que tivesse tido lugar a criação de imagens suficientemente fortes que pudessem ombrear com as antigas. A primeira estátua de Cabral, sem contar a da "ilha do aeroporto" e que ilustra a sua dimensão universal, implantada na urbe santacatarinense, terra de origem dos pais e que veio a conhecer na adolescência183, emparelha com a de um
1 84